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AARÃO DE LACERDA 



Chronicas de Arte 




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CHRONICAS DE ARTE 



Aos Illustres Directores do «Primeiro de Janeiro» 



GASPAR BALTAR 

E 

JOAQUIM PACHECO 



COM O RECONHECIMENTO DE 
SEMPRE. 



DO AUCTOR 



PUBLICADO : 

Da Ironia, do Riso e da Caricatura. 

EM PREPARAÇÃO : 

Ensaio sobre a Esthetica Contemporânea. — Antonio 
Carneiro e a Significação da sua Arte. 

Artistas de hoje. — Oscar da Silva. 

Imagens d’Ambar. (Philosophia da Arte Christã). 
Alma Antiga. — Esthetica dos Tempos Idos. 



AARÃO DE LACERDA 



Chronicas de Arte 

VOLUME I 



TYPOGRAPHIA DA 
RENASCENÇA PORTUGUESA > 
PORTO 



O ORPHEON ACADÊMICO DE COIMBRA 



A SUA ACÇÃO E O SEU SIGNIFICADO 

« O povo portuguez também teve 
uma poesia própria, nacional, filha do 
genio, da raça a que pertencia, cantando 
as paixões e as phases da vida, acom- 
panhando as suas transformações, con- 
tando a sua historia mais ou menos 
apagada, mais ou menos original . . . 
não existe um povo sem poesia, porque 
é impossível a existência sem receber 
impressões, sem a communicação del- 
ias, sem a lingua, sem a tradição, sem o 
costume, sem a theogonia, sem o sym- 
bolo. » 

Theophilo Braga. 



/\ Academia de Coimbra ainda não ha muito des- 
1 * pertou d’um lethargo profundo, entrando 
agora n'uma vida activa de resurgimento esperan- 
çoso, insufflado por idéas de um alevantado cunho 
patriótico que na sua concreta realisação consti- 
tuem um factor altamente poderoso n’esta hora 
em que todos os portuguezes conjugam os seus 
esforços para redimir e levantar bem alto o nome 
da patria independente e altiva. 



8 



CHRONICAS DE ARTE 



Alguém houve que soube integrar em si a as- 
piração de muitos, e animado por esse altruismo 
que caracterisa os homens superiores e eleitos 
reuniu e aproveitou forças disseminadas n’essa 
anarchia, irmanando-as sob um ideal commum e 
grandioso. 

Refiro-me a Antonio Joyce, essa rara complei- 
ção de artista que na sua clarividência imaginou 
a creação de uma obra cujo significado fosse bem 
attestado em factos que haviam de necessaria- 
mente produzir resultados apreciáveis e salutares. 
Os elementos foram-se pouco a pouco accumu- 
lando, animados de boa vontade e firmemente 
crentes na esperança que os attrahiu, talvez a prin- 
cipio como uma chimera, muito longe de suppo- 
rem a influencia que em pouco tempo exerceriam 
no meio artistico e social portuguez. 

O Orpheon Acadêmico de Coimbra nos seus 
princípios reduzido augmentou em numero e a 
sua celebridade, justo é dizel-o, nada mais foi do 
que a publica demonstração do seu valor. Ninguém 
hoje ignora o papel poderosamente educativo 
que desempenham as sociedades coraes: o soli- 
darismo que as anima gera indissolúveis laços de 
união, faz commungar sob a mesma synergia ins- 
tinctos por vezes rebeldes, de forma a evocar-lhes 
o ideal da fraternisação. Obedecendo a um culto 
ellas exercendo-o beneficiam, inspiradas pelo di- 
vino mysterio da musica a interpretar tão bem os 
estados psychicos mais profundos. 



O ORPHEON ACADÊMICO DE COIMBRA 



9 



Atravez de todas as dissenções havidas na aca- 
demia o Orpheon tem ficado inabalavel e firme, 
alheando-se a toda ou qualquer ideia política que 
o viesse amesquinhar ou produzir desordem no 
seu seio. Tudo alli segue o mesmo lemma : multi- 
tudo sacris collectus. 

A aspiração é uma só: a vida sonhada na sua 
expressão mais rythmica, como emanação derivada 
de uma synthese perfeita. 

No periodo que atravessamos em que o nosso 
nome lá fóra é discutido e commentado, favora- 
velmente ou não, o Orpheon Acadêmico de 
Coimbra vae cumprir dignamente o seu dever: o 
de mostrar de uma forma intuitiva que entre nós 
também se professa a religião da arte, espelho da 
vida, e como tal traduzindo o psychismo do povo, 
a indole, o seu ethos particular. A excursão que a 
sociedade coral coimbrã projectou a Paris, e que 
dentro em pouco se vae realisar, obedece a esse 
intuito tão grande e tão altamente patriótico: a ca- 
pital franceza certamente se pronunciará depois, e 
quem sabe, sejamos optimistas, se esta nobre 
ideia, a ser levada a effeito, como deve, não vem 
gerar um intercâmbio artístico e intellectual da 
França e do nosso paiz? 

Nós estamos ligados a ella, mas ella não está 
ligada comnosco ; não nos conhece : a arte portu- 
gueza encontra-se quasi completamente desco- 
nhecida e um dos fins a que Antonio Joyce se 
propoz, quando da organisação do Orpheon, foi o 



10 



CHRONICAS DE ARTE 



de mostrar a actividade do povo, as suas melo- 
dias, expressivos estados de alma, os seus versos 
a cantar sentimentos intimos — o amor como thema 
a inebriar n’um ingênuo idealismo o espirito que 
fala pela boca do povo, o verdadeiro poeta. 

Lopes Vieira encontra no lyrismo a nossa me- 
lhor esperança! Esta esperança é preciso vivifi- 
cada, animada, e para isso tem a arte meios espe- 
ciaes que ajudam a realçar um brilho supposto 
extincto e desapparecido : a scentelha brilhará em 
fulgente extase de luz — só pela Arte a patria re- 
nascerá e se imporá depois. 

Onde se mostra mais accentuada esta ambição 
de revelar a indole portugaeza, é na geração 
nova : a ella se deverá referir a historia do renas- 
cimento artístico. 

O estado de quietismo que tanto tempo nos 
anesthesiou quasi se extinguiu com a corrente 
poderosa das novas ideias : auscultar o coração do 
povo, ouvil-o nas cantigas, nas lendas, na poesia 
d’este ceu azul. Direi o que Theophilo Braga, o 
Mestre de sempre, escrevia já no livro Epopêas da 
Raça Mosárabe : «o que estava occulto appa- 
rece... Quem ainda tem boa fé, leia; quem tem 
vigor e ainda espera, levante-se. » Todos pois con- 
centram agora as suas energias para a reconsti- 
tuição ethnographica e psychica do povo portu- 
guez. Um escriptor muito distincto dizia, não me 
recordo onde, que ia deixar o ambiente da ci- 
dade para partir pelo paiz, a percorrel-o para o 



O 0RPHE0M ACADÊMICO DE COIMBRA 



11 



ouvir: tão nossas essas festas populares com os 
descantes, com desafios e com as mais bellas can- 
ções! Quando Edgar Quinet visitou em 1844 Por- 
tugal achou «a mudez, a solidão de uma nação 
ou de uma Gomorrha submergida». O que o 
grande poeta da Visão dos Tempos chamava go- 
verno paternal dos somnambulos é agora bafejado 
por uma briza de vida ! 

Mas digamos mais algumas palavras sobre o 
Orpheon de Coimbra: de pouca vida mas de 
enorme alcance, foi o orpheon organisado pelo 
grande musico João Arroyo, quando do centena- 
rio de Camões — grito de independencia da raça 
soltado pelos novos d’então. 

João Arroyo, hoje consagrado no meio musi- 
cal como um compositor de largos recursos, lançou 
as bases do que mais tarde Joyce com tanto exito 
construía. O orpheon actual não teve, porém, 
uma existência ephemera como o de João Arroyo 
e Moreira de Sá : ha cêrca de tres annos que vive, 
e se um dia terminar alguma cousa de grande 
fica a envolver a sua memória. Foi esta affirma- 
ção que encontrou um echo de enthusiasmo em 
todos aquelles que, como eu, comprehenderam de 
principio o alcance da obra de Antonio Joyce e 
dos companheiros que o seguiram devotados, 
promptos a sacrifícios, a dispender em prol d’uma 
ideia a energia nova, decidida e generosa. 

O organisador da sociedade coral coimbrã 
teve a auxilial-o elementos de valor : assim, além 



12 



CHRONICAS DE ARTE 



do programma já ensaiado, em que figuram os 
nomes de Palestrina, Bach, Mozart, Beethoven, 
Meyerbeer, Wagner e Leroux, haverá um ou- 
tro exclusivamente composto de producções re- 
gionalistas e originaes : a Morena e o Canto Aca- 
dêmico de João Arroyo, composições de Freitas 
Branco, a Canção á Bandeira, lettra de Affonso 
Lopes Vieira e musica de Thomaz Borba, córos 
de Alfredo Keil, de Cyriaco Cardoso, de Neuparth, 
de Fernando Moutinho e rhapsodias portuguezas. 

Além d’estes numeros serão cantados a Canção 
do Figueiral Figueiredo, musica antiga já citada 
por Theophilo Braga e extrahida para o seu livro 
Epopêas da Raça Mosárabe do Cancioneiro do 
conde de Marialva ; uma composição de Damião 
de Goes, denominada Surge prospera; alguns dos 
motetes de Frei Manoel Cardoso e composições 
de caracter liturgico de D. João iv. 

É com estes preciosos documentos da nossa 
arte que o Orpheon Acadêmico de Coimbra se 
apresenta em Paris. As canções portuguezas hão-de 
lá produzir um enthusiasmo certo. Affonso Lopes 
Vieira fará ao publico parisiense uma conferencia 
sobre o Povo e os Poetas Portuguezes, e antes da 
audição de cada uma das citadas composições 
explicará os motivos em que esta ou aquella foi 
baseada, e o regionalismo que as caracterisa. 



Porto-911. 



O ORPHEON ACADÊMICO DE COIMBRA 



13 



NOTA. — Entre nós é uma das maiores iniciativas, e julgo 
poder affirmar que nunca se manifestou em Coimbra um mo- 
vimento artístico tão amplo e tão generoso. Grande parte da 
academia coimbrã acompanhou Antonio Joyce no seu volun- 
tarioso desígnio, mas o enthusiasmo dos primeiros tempos 
cessou bem depressa, extinguindo-se por fim. Antonio Joyce 
abandonou Coimbra depois da sua formatura e tudo terminou. 
Este excepcional artista tentou ainda em Lisboa a formação de 
um grande Orpheon , e o que elle conseguiu foi momentâneo. 
As iniciativas mais nobres fracassam quasi sempre neste paiz, 
pouco votado para coisas d’arte. É bem significativa a phrase 
desoladora de Francisco de Hollanda a este respeito ... te- 
mos por desprezo e galantaria fazer pouca conta das artes... 

A ida do Orpheon Acadêmico a Paris teve um exito que 
esteve longe de corresponder ao que se esperava. Todavia 
affirmou-se uma sociedade coral de largo futuro. Julgava-se isto 
então, mas os anos passaram e a destruição tornou-se evidente. 

A Universidade de Coimbra deve chamar Antonio Joyce 
para junto de si e de novo o Orpheon Acadêmico começará a 
sua esplendida cruzada. A arte portugueza teria n’elle, com 
certeza, o maior amigo. 

A cultura musical é essencialissima em todos os meios 
universitários, e a maneira mais simples de a incutir é certa- 
mente esta : a creação dos orpheons escolares. Cada orpheo- 
nista seria um elemento auxiliar da formação do nosso 
ignorado e incompleto folk-lore, e assim conseguiriamos o 
conhecimento integral das canções regionalistas tão variadas e 
tão cheias de belleza. 

Os elementos apontados neste artigo então publicado 
faltaram na sua quasi totalidade. A musica portugueza teve 
mesmo pouca divulgação, e esta era-nos absolutamente neces- 
sária em Paris. A conferencia de Affonso Lopes Vieira não se 
realisou, perdendo nós assim o ensejo de elucidar um publico 
culto pelas palavras de um dos nossos grandes poetas que 
tem dedicado grande parte da sua actividade á revelação da 
alma portugueza traduzida eloquentemente pelos seus artistas. 



A PROPOSITO DA «GRANDE SAISON» EM PARIS 



« La nuit a des douceurs de femme, 

Et les vieux arbres, sous la lune d'or 
Songent. » 

Debussy — Prosas lyricas. 



^ uma orientação elevada, e sob um plano abso- 
^ ’ lutamente novo, a Grande Saison de Paris 
proporcionará ao meio culto, cosmopolita, misto 
de dilettantes e artistas, uma serie de esplendidos 
festivaes de arte. 

Jacques Besnard, o distincto musicographo, 
communica-nos com enthusiasmo o que será esse 
conjuncto de recitaes, tão requintados na varie- 
dade dos estylos a apresentar ao publico attrahido 
lá por um quasi fanatismo, esse que constitue para 
Camille Mauclair a verdadeira religião da musica. 

É uma actividade febril a demonstrar-se e a 
ser acolhida pelos espiritos dos eleitos. A inicia- 
tiva encontrou echo e, apoiada num sem numero 
de vontades que superiormente contribuem para 
o exito da obra começada, vae infiltrando, incu- 
tindo dia a dia pela sua acção continua o mvsti- 



16 



CHRONICAS DE ARTE 



cismo superiorisado d’essa força que suave- 
mente domina e nos arrasta para um amago de 
mysterio e de sonho que faz esquecer a boçalidade 
da vida, fazendo realçar o espiritualismo que 
nella existe. 

A quintessência do mundo, passando rapida, 
evanescente, deixa radicada no profundo do ser a 
impressão indefinível e vaga, como a visão cujo 
significado se não saiba explicar, embora sentida 
pelos olhos extáticos do delirio. 

D’este emporio artístico que é Paris irradia um 
fulgor novo a produzir vitalidades, a accentuar a 
obra dos que presentiram e auscultaram o coração 
da verdadeira vida ! Verdadeira vida, essa que só 
alguns sabem exprimir no enlevo inimitável : a 
duvida creadora; a dor redimindo; o paroxismo 
da existência provocando a divinisação do soffri- 
mento e o amor enlaçando vidas! Tudo se vê 
atravez do veu doirado que subtilisa, que faz bri- 
lhar o que nos parece mergulhado na treva. De- 
pois, em uma symphonia de luz, a deslumbrar, 
levanta-se o translúcido velario e, na collina, surge 
esplendorosa, grande, a Visão embevecendo os 
que a olham. Poucos a desvendaram ostentando-a 
aos iniciados entre os quaes começa a correr a 
boa nova de uma crença que os prende a todos 
num intimo liame. Accorrem fanaticos ! Vão com- 
mungar no mesmo goso espiritual. 

Primeiro foi Kubelik; depois as Heures dan- 
çantes, de Natacha Trouhanova, a maravilha da 




DEBUSSY 




A PROPOSITO DA « GRANDE SAISON » EM PARIS 



17 



choregraphia ; a seguir o festival Beethoven, com 
a execução do concerto em mi bemol pelo pianista 
Emilio Saüer, do concerto em ré pelo violinista 
virtuose Jorge Enesco; e por fim a collaboração 
da orchestra sob a batuta do Kapellmeister Wein- 
gartner. 

O nome da cantora Lucilia Marcei, o concurso 
do grupo Canto Coral, creado por Estournelles de 
Constant, e a sociedade dos Concertos Colonne, 
formando um conjuncto de mil executantes, tudo 
isto contribuirá para o successo do festival. E para 
encerrar este cyclo admiravel vem a representação 
do 5. Sebastião, de Gabriel d’Annunzio, com mu- 
sica de Cláudio Debussy. 

Difficil seria encontrar uma semelhante coope- 
ração para o mesmo fim. Gabriel d’Annunzio 
impõe-se-nos como um dos maiores escriptores 
contemporâneos. O auctor do Fogo, do Triumpho 
da Morte, das Victorias Mutiladas e da tragédia 
Filha de Jorio, inspirando-se na lenda do andro- 
gyno christão, escreveu um poema de indole idea- 
lista que mais vem provar a victoria da nova 
corrente, base de tão grandes motivos de arte. 

E que direi de Debussy, o traductor em musica 
das scenas de Maeterlink, o émulo de Strauss, or- 
gulho legitimo dos francezes que vêem n’elle o fun- 
dador de uma nova escola, rival em successo e 
originalidade da de Ricardo Wagner? 

E, todavia, apezar da extrema importância que 

assumiu, é desconhecido na maior parte, pelas 

2 



18 



CHRONICAS DE ARTE 



poucas audições das suas obras. Cláudio Debussy 
é, indiscutivelmente, um vulto de destaque no 
mundo artístico hodierno. Quando em 30 de abril 
de 1902, se effectuou a primeira representação do 
Pelléas et Mélisande, poema de Maurice Maeter- 
link e musica de Debussy, pode affirmar-se que tal 
facto foi um dos mais notáveis acontecimentos 
da historia da musica franceza. Lulli, Rameau e 
Gluck não foram mais ovacionados. Diz Romain 
Rolland que este successo foi uma reacção con- 
tra a arte estrangeira, invasora do palco francez. 
A influencia de Wagner era visada por esta fórma : 
segundo os críticos a arte wagneriana em nada 
correspondia, na sua essencia, ao temperamento 
meridional. 

A musica do Pelléas et Mélisande foi a re- 
volta contra o germanismo que, durante annos 
seguidos, guiou os músicos dependentes. 

O contraste das duas escolas é flagrante : Wa- 
gner é criticado por fazer da musica o núcleo 
principal do drama ; a escola franceza exige a 
cooperação harmônica e geral de todos os ele- 
mentos. Livre de regras oppressoras, liberta de um 
rigido contraponto, a musica de Debussy pretende 
exceder em belleza a do mestre de Bayreuth. 

O sensualismo esthetico do temperamento 
gaulez vê agora o seu interprete no debussysmo. 
Ao lado da obra prima que Nietzsche, no Cre- 
púsculo dos ídolos , tanto elevou, a Carmen, de 
contextura simples, exprimindo um pouco o exte- 



A PROPOSITO DA «GRANDE SAISON» EM PARIS 



19 



rior, está o poema musical, Pelléas et Mélisande, 
caracterisado por um interiorismo de alma, de 
subtil compleição. 

A opera de Claude Debussy será uma nova 
affirmação do seu poder imaginativo. O auctor 
das Fêtes Galantes, de Verlaine, radicará mais nos 
discípulos da moderna corrente o symbolismo 
puramente emotivo. 

A França vê no impressionismo de Claude 
Debussy a sua independencia, a extincção com- 
pleta do servilismo que destruía a originalidade 
das producções artísticas. 

Coimbra — 91 1. 



NOTA. — Para a historia da arte franceza o nome de 
Cláudio Debussy assume, como se vê, uma excepcional im- 
portância e o momento actual mais a faz destacar. Nunca a 
França terá, como agora, o anceio nobilíssimo da mais pura 
e integral independencia. A arte não pode deixar de ser in- 
fluída por este movimento nacional que rebusca apaixonada- 
mente os elementos intrinsecamente autochtones, originaes, 
nascidos directamente do espirito primitivo. 

A imprensa ainda ha bem poucas semanas espalhou as 
palavras nacionalistas e cegamente patrióticas de Camillo 
Saint-Saêns: a colossal obra de Ricardo Wagner foi um tanto 
ou nada attingida. Não procuro estudar aqui a arte debus- 
syniana. Ella é vasta de mais para ser contida na brevidade 
divulgadora destas chronicas. Estudal-a-hei num proximo livro 
em preparação onde tentarei o estudo das grandes correntes 
da esthetica contemporânea. 



UM QUADRO DE LEONARDO DE VINCI 



I elegrammas em todos os jornaes publicados 
A participaram um sensacional roubo no Mu- 
seu do Louvre: a Gioconda, de Leonardo de 
Vinci, desappareceu ! 

Sobre a veracidade de tal noticia duvidei a 
principio, mas de novo informações vieram confir- 
mar a triste verdade ! 

Era uma das grandes preciosidades do Louvre, 
este retrato de mulher, sorrindo enigmaticamente 
e fixando o olhar incisivo e penetrante nos mui- 
tos que a olhavam e a sentiam na sua esphyngica 
attitude. Não esquece nunca a insinuancia de 
Mona Lisa a destacar-se d’esse fundo de paisagem 
suave: os cabellos cahidos meigamente sobre os 
hombros, sobre o peito branco que parece respi- 
rar ; as mãos esguias de requintada, de patrícia, a 
descançarem n’uma posição escolhida e feliz. Ao 
longe, n'um segundo plano, divisam-se caminhos 
sinuosos, que uma penumbra verde parece envol- 
ver. Tons esmaecidos, sombras que relevam, luz 
que incide brilho, traços de uma espiritual belleza 
a traduzirem pensamento, alma e conceito ! 



22 



CHRONICAS DE ARTE 



Attrahe-nos e repelle-nos ao mesmo tempo: 
ha carinho e ha desprezo ! A primeira impressão 
arrasta-nos para si ; depois sentimo-nos mesqui- 
nhos ante o seu olhar commiserado mas orgu- 
lhoso, de creatura superior, que perscruta e disseca 
o intimo. Mona Lisa é a imagem misto de amor 
e cynismo que nos perturba e desorienta : quere- 
mos comprehendel-a mas o vincado dos lábios, o 
dizer das suas pupillas que perseguem, affastam- 
nos com a indelevel impressão da sua belleza ! 

Nem todas as obras primas de Leonardo de 
Vinci conteem a mesma significação, isto no que 
diz respeito ao valor philosophico das creações: 
assim os quadros a Ceia , a Virgem dos Roche- 
dos , SanfAnna e a Virgem, distinguem-se bem 
da Gioconda e da celebre tela S. João Baptista. 

Em volta d’estas duas obras os esthetas teem 
formulado as mais variadas conclusões. Em S. João 
Baptista o mesmo sorriso! Nas outras telas exis- 
tem leves expressões: na Ceia os perfis bíblicos, 
modestos; na SanfAnna e a Virgem um simples 
quadro intimo; na Virgem dos Rochedos o pen- 
samento não é occulto, destacando-se bem nitida- 
mente a habilidade technica pictural nos sfumatos 
perfeitíssimos. 

Reinach chama á Ceia uma pagina de psy- 
chologia profunda, um estudo de caracteres e de 
sentimentos, traduzidos ao mesmo tempo pelas 
expressões das phisionomias, pelos gestos e atti- 
tudes. Não sei o que se poderá então dizer da 



UM QUADRO DE LEONARDO DE VINCI 



23 



Gioconda! E d’essa cabeça magnifica de S. João 
Baptista! Reinach falia d’ellas ao de leve e, com- 
tudo, são certamente as duas mais bellas obras 
primas de Leonardo. 

Reinach combate o facto dos esthetas psy- 
chologos quererem encontrar na Gioconda um 
caracter mysterioso e romanesco, um olhar de 
esphynge, ironia desdenhosa e, como elle diz, 
mil outras cousas que Leonardo nunca pensou. 
Péladan comprehendeu melhor a Gioconda e o 
S. Baptista. 

A Gioconda pode-se considerar uma das mais 
notáveis creações de psychologia pictural, de psy- 
cho-physiologia, direi. 

Não é um estudo de expressão paroxystica ; 
não, n’ella ha o requisito exigido por Winckel- 
mann: a belleza acha a sua expressão n’uma calma 
absoluta. 

Todavia direi que sob a apparencia da calma 
absoluta, existe ou adivinha-se um pensamento. 
Foi á esculptura que durante séculos esteve reser- 
vado o estudo da expressão e a pintura só muito 
tarde reflectiu almas, apezar da existência das ima- 
gens de Giotto, tão bellas no franciscanismo que 
traduziam. 

Mas a arte evoluciona — Vinci é além do seu 
genio um producto d’essa mesma evolução. 

' Leia-se o seu Tratado de Pintura, se não me 
engano, ha um anno publicado com uma magni- 
fica introducção e concisas notas de Péladan: não 



24 



CHRONICAS DE ARTE 



é um livro didactico; é a philosophia do pintor, 
desenvolvida por uma forma brilhante; são conse- 
lhos preciosíssimos a seguir na factura das obras 
plasticas. 

Estudem-se os seus aphorismos e conclua-se 
d’ahi o alto espirito que os ditou. 

A Gioconda é uma obra de um artista philoso- 
pho. 

Leonardo de Vinci, no estudo da expressão, 
presentiu o que mais tarde a sciencia veio mostrar 
com Müller (1801-1858), na Physiologia do Homem; 
Lotze, Bell, Darwin, Wundt, Bich-Hirschfeld, Man- 
tegazza, Hecker e podemos citar Piderit, auctor da 
Mimique et Physiognomonie. 

Müller ainda dizia serem absolutamente desco- 
nhecidas as relações dos musculos da face com as 
differentes paixões, porém já admittia taes relações. 

Bell apresentou uma hypothese para explicar 
os movimentos mimicos do rosto. 

Darwin sustentou a semelhança universal dos 
movimentos da expressão entre as differentes ra- 
ças humanas e a transmissão por hereditariedade 
dos paes para os filhos de formas determinadas 
da expressão. 

Wundt estabeleceu tres princípios : da innerva- 
ção directa, da associação de sensações e da rela- 
ção do movimento com as representações senso- 
riaes. 

Hirschfeld e Mantegazza desenvolveram as 
doutrinas de Darwin. 



UM QUADRO DE LEONARDO DE VINCI 



25 



Foi a titulo de curiosidade que n’este artigo, 
consagrado á Gioconda, inserimos algumas notas 
sobre o estudo da mimica, e isto com o fim de 
pôr em relevo a compleição do artista e homem 
de sciencia que foi Leonardo -de Vinci. 



Porto — 911. 




s 




A PROPOSITO DO THEATRO DA NATUREZA 



Q uando ha tempos li num jornal que em Lis- 
boa alguns espiritos cultos procuraram levar 
a effeito uma série de récitas num theatro ao ar 
livre, eu senti uma satisfação intima por vêr que 
encontravam echo entre nós os enthusiasmos lá 
fóra prestados a esta reviviscencia do passado hel- 
lenico. 

Será um publico reduzido a principio, a assis- 
tência será uma selecção: artistas, poetas e homens 
de lettras acolherão a ideia! Ella depois se diffun- 
dirá e pouco a pouco, por uma adaptação conti- 
nua e crescente, irão apparecendo adeptos e admi- 
radores ferventes. 

Nunca será porém a multidão de hoje apta a 
receber e a sentir a belleza do theatro antigo. 

A edade que atravessamos, imbuida de utili- 
tarismo exagerado, é bem refractaria ás grandes 
sensações de arte! Ha eleitos apenas . . . 

O resto vive, vegeta subordinado ao limitado 
conceito de um hédonismo revoltante, egoista, ín- 
dice bem caracterisco de decadência! Decadência 
da Ideia e da Forma! 



28 



CHRONICAS DE ARTE 



Abramos com uncção as paginas d’esse evoca- 
dor que é Péladan e veremos toda a edade antiga! 
A Terra da Esphynge e a Terra de Orpheu são 
livros de consagração ao periodo dos mythos. Pé- 
ladan dedica á alma pagã um preito immenso: 
não vive d’hoje, vive de hontem. 

Os gregos crearam a superioridade da Arte, e 
é essa superioridade que eu aqui rapidamente quero 
caracterisar. 

O theatro antigo era a expressão ao mesmo 
tempo humanissima e transcendente da vida. Hu- 
maníssima, porque a paixão, a dor e a alegria eram 
os themas predilectos; transcendente, porque ella 
traduzia e erguia depois em conceito metaphysico 
o ethos do trágico quotidiano. 

Taine teve bem razão quando escrevia que o 
artista era por assim dizer a synthese do meio. 

Na Grécia assim o podemos considerar, mas 
hoje entre a alma do artista e a multidão ha uma 
scisão que na verdade se impõe. 

O povo sentirá a dramatisação musical de 
Wagner? O theatro de Maeterlink? As creações de 
Rodin? A resposta é clara e não admite duvidas: 
existe a aristocracia da arte. Ella viverá hoje, sendo 
um privilegio esotérico, por uma incompatibilidade 
com o psychismo inferior e degradante da multi- 
dão. Multidão apenas absorvida pelo ideal político, 
desprezando todo o resto. 

No theatro hellenico podemos encontrar as 
origens, do theatro moderno, não d’esse, observa- 



A PROPOSITO DO THEATRO DA NATUREZA 



29 



ção reduzida e mesquinha da vida d’hoje, mas do 
drama de Wagner em que concorrem numa syner- 
gia integral os principaes ramos da arte. 

Nietzsche foi um dos que melhor interpretou 
a philosophia da arte grega, fazendo-a derivar do 
conceito pessimista do mundo, isto no que diz 
respeito muito especialmente á tragédia : « O ser 
absoluto traz em si uma guerra sem limites. A tor- 
tura infinita da sua indeterminação é por si uma 
própria força que obriga o Sêr a determinar-se 
em seres finitos. D’ahi o mundo que tem por mãe 
a dor. » 

Para comprehender o theatro antigo integre- 
mo-nos na vida hellenica e façamos com que o 
nosso espirito recorde, como que evocando, as 
imagens leves de um sonho todo feito de luz. 
Transpcrtemo-nos á edade antiga e como um 
atheniense, com a sua toga branca, assistamos ao 
esplendor das festas hellenicas. Levemos comnosco 
palmas recortadas em homenagem aos divinos my- 
thos, e vamos com a multidão levados n’essa 
embriaguez dionysiaca . . . 

Cippos occultos de flores, aras acariciadas pelo 
perfume estonteante das plantas orientaes, esta- 
tuas olympicas de deuses a sorrirem serenas ante 
o sol que as beija lubricamente ! Hymnos entoa- 
dos no delirio por milhares de boccas ; invocações 
homéricas ao Zeus doirado da acropole, prote- 
gida pelo escudo de Palias! 

A multidão passa por entre as columnas dos 



30 



CHRONICAS DE ARTE 



templos, comprime-se . . . visita o sanctuario, cur- 
va-se nas libações sagradas. Os sacerdotes lá estão 
perto do grande mytho fazendo os sacrifícios ; os 
thuriferarios espalham no ambiente o aroma per- 
turbante das cinzas d’onde se erguem columnas 
espiraladas de fumo ! 

Não longe da mansão sagrada está o amphi- 
theatro ... A tragédia começou com o canto das 
citharas. Todo o povo alli está absorvido a sentir: 
o poema que elle vê e ouve é o seu também. Nas 
scenas cruéis ha gritos, ha crispações, tudo se 
enerva depois, sobrevindo a analgesia. O pathe- 
tico pondo em actividade a alma educa-a, eleva-a. 

O côro é a humanidade saudando o heroísmo, 
lamentando o infortúnio. 

As tragédias de Eschylo, Sophocles e Euripe- 
des teem em si a essencia do drama : a dolorosa 
impressão do mysterio do Destino. 

Hoje ellas serão sentidas por muitos, não por 
todos. Serão apanagio e o orgulho dos que as 
comprehenderem. 

O Bello sendo o mysterio das Formas precisa 
para se sentir de uma iniciação, iniciação que só 
encontra echo nas almas onde habita uma ele- 
vada sensibilidade. 



Coimbra — 911. 



SOBRE O THEATRO HELLENICO 



IMPRESSÕES DA TRAGÉDIA « ORESTES * 



í I grande Pan morreu ! Grito soltado n’uma 
^ imprecação dolorosa das praias do Egeu . . . 
A lenda conta que a este grito responderam cla- 
mores, esvahidos depois, pouco a pouco, na ago- 
nia. Mas do passado hellenico muito nos ficou : 
arreigada lembrança que se traduz na admiração 
fanatica das suas producções estheticas e no pre- 
tendido esforço de fazer d’ellas a reviviscencia. 
A obra póde resurgir mas incompleta, sem aquelle 
cunho que a caracterisava — o ser sentida pelo 
povo ! Arte contendo em si a mais profunda inter- 
pretação da vida, ella é a alma-mater de tudo o 
que se fez depois de magnifico e de divino ! Refi- 
ro-me a Beethoven e a Wagner, e muito especial- 
mente a este, que, na sua clarividência de genio, 
imprimiu ao drama a verdadeira e nobre feição, 
deitando por terra, aniquilando a superficiali- 
dade do que então se intitulava opera , conjuncto 
de harmonias adaptadas a um texto poético sem 
significação : o enredo era o pretexto adoptado 



32 



CHRONICAS DE ARTE 



para os devaneios musicaes. Ricardo Wagner e, 
precedentemente, Schopenhauer lançaram a ideia : 
este na Metaphysica e Esthetica, aquelle nos 
poemas e nas doutrinas que traçou. 

A tragédia grega traz comsigo a fusão das 
artes : musica, poesia e dança. Era um conjuncto 
novo que reunia alma, descriptivo e attitudes. 
A poesia pela voz exprimia o drama ; a musica, 
utilisada n’um dos seus elementos, o rythmo, era 
o complemento indispensável da dança e, assim, 
enleadas, traduziam a Fórma, o Caracter e a Bel- 
leza. Para que a arte grega attingisse a perfeição 
assumida no apogeu do século de Pericles, foi 
preciso que, por uma especie de estratificação, se 
disposessem motivos primeiramente dispersos. 
A religião elevadíssima dos hellenos foi o grande 
factor que impulsionou o progresso das Ideias e 
das Fôrmas : as cerimonias sagradas chamavam a 
si tudo que havia de espiritual e materialmente 
superior; houve depois a desintegração, não direi 
completa, d’esses vários elementos para se con- 
substanciarem n’uma fórma nova. Primeiro dá-se a 
concepção do mysterio e a lucta titanica para o 
adivinhar desenrola-se a seguir. 

O deus é o super-homem, é o heroe vidente 
e illuminado. Procura-se e encontra-se n’elle a 
perfeição : o crente precisando de materialisar a 
ideia, a crença concebida, modela na pedra a su- 
prema Belleza ! 

No esboçado, no vago, na sombra vão-se ge- 




Electra» na Comédie Française 



A PROPOSITO DO THEATRO DA NATUREZA 



33 



rando symbolismos : nascem os poemas baseados 
nos mythos. Junto das aras votivas apparecem as 
estatuas na plasticidade dos bronzes e dos mar- 
mores corinthios. 

A Venus é a deíficação da curva ; Hermes a 
força e a serenidade ; a Victoria de Samothracia o 
genio alado insufflador da epopeia ; Apollo e Dio - 
nysos, um poesia e luz, outro creador da emana- 
ção transcendente — a musica. 

A tragédia é a mais alta expressão do helle- 
nismo e para a comprehendermos eu direi, com 
Eduardo Schuré, ser necessário uma intuição se- 
creta, um augusto presentimento dos mysterios 
sagrados. 

Envolve-a o espirito dionysiaco ; ella nasceu 
do coro dithyrambico, dos diálogos entre o cory- 
pheu e os proselytos. 

Eschylo e Sophocles são os maiores trágicos 
da Hellada ! Inebriados pelo philtro sagrado da 
inspiração escrevem paginas heroicas, de uma 
infinita belleza. 

A lenda do Edipo surge-nos esplendidamente 
traçada por Sophocles : nunca mais esquecem 
estas paginas pelo fatalismo que d’ellas se ergue, 
pela sua ingente synthese da vida ! . . . 

A Orestes que hontem alguns espectadores 
ouviram, pertence á celebre trilogia de Eschylo, 
Orestia. O distincto escriptor Dr. Coelho de Car- 
valho adaptou á scena portugueza a tragédia 
Choéphoras , subordinando-a ao titulo acima dito. 

3 



34 



CHRONICAS DE ARTE 



Se bem que importantes elementos faltassem, 
as impressões colhidas d’esta tentativa entre nós, 
são as mais favoráveis aos artistas interpretes 
d’esta missão tão elevada. 

Difficuldades appareceram certamente, mas os 
intelligentes organisadores não desanimaram, le- 
vando a effeito uma empreza que eu julguei 
nunca se realisasse. 

Alexandre de Azevedo, hoje actor em destaque 
na scena portugueza, é dos que mais merece o meu 
applauso. O papel de Orestes a elle confiado teve 
uma excellente interpretação. No ultimo acto, a 
scena do remorso, a visão das Fúrias foram mo- 
mentos de consagração para o talento de Alexan- 
dre de Azevedo. 

A declamação, um dos requisitos mais exigidos 
na tragédia, era por vezes apressada : a cadencia 
deve sublinhar bem a phrase que deve ser acom- 
panhada sempre do gesto e da attitude. A tragé- 
dia classica tem hoje uma das suas maiores inter- 
pretações na Comédie Française e é exactamente 
na sua declamação que reside o realce. 

Adelina Abranches, no papel de Electra, soube 
mostrar-se digna do seu nome, tendo scenas em 
que foi bastante feliz. Os restantes personagens 
contribuiram, tanto quanto poderam, e d’elles não 
posso deixar de mencionar Luz Velloso que n’uma 
das falas do penúltimo acto mostrou largos re- 
cursos. 

Pena é que este grupo de artistas encontre á 



A PROPOSITO DO THEATRO DA NATUREZA 



35 



sua volta um ambiente tão ingrato, tão mesquinho. 
Precisava de grandes auxilios para que o exito 
fosse completo. 

Os meios materiaes de que dispõe são bastante 
reduzidos: o conjuncto scenico apresenta-se pobre 
e despido. O côro, parte imprescindivel da tragé- 
dia, queria-se augmentado : os personagens que 
d’elle hontem faziam parte assistiam banalmente 
ao desenrolar das scenas mais terríveis. Não tinham 
gesto, não accusavam o menor jogo physionomico. 

O côro na Comédie , quando se pronuncia, é 
acompanhado de sons cavos, mysteriosos que dei- 
xam radicada uma enorme impressão: tem-se a 
illusão de se escutarem crotalos e sistros. 

Tudo isto é conjugado harmonicamente. 

O elemento musical nunca devemos esque- 
cel-o, muito especialmente nas tragédias de So- 
phocles e Eschylo. E não cito Euripedes, por este 
já representar a phase decadente do theatro hel- 
lenico. 

Euripedes é já considerado um sophista, im- 
pregnado de doutrinas, próprias do homem theorico 
a quem Nietzsche attribue o desapparecimento da 
arte grega. 

Euripedes é um demolidor e um demagogo : o 
seu theatro resente-se d’estas perniciosas qualidades. 

Eschylo e Sophocles viram a humanidade atra- 
vez da lenda heroica e sublime. 



Agosto, 911. 



36 



CHRONICAS DE ARTE 



— 

NOTA. — Cito esta representação na Comédie Française 
por ella constituir um esplendido successo artístico no mundo 
theatral. A Electra de Sophocles era uma das mais emocio- 
nantes obras que conhecia apenas de leitura. Nunca a julguei 
realisavel, todavia tive a felicidade de a vêr mais tarde em 
toda a sua pungente dramatisação. Os papeis do protagonista, 
do deuteragonista e do tritagonista foram interpretados sem 
a mais pequena falta. Luisa Silvain fez-me visionar o sombrio 
quadro dos anathemas e conjuras, a religião hellenica, a tem- 
pera dos heroes lendários ... a alma antiga na sua mais dio- 
nysiaca expressão. 

A tentativa portugueza sossobrou, como não podia dei- 
xar de ser; o contrario seria para commentar e admirar. O 
Porto acolheu-a com frieza e ironia. O publico que assistiu 
á representação, levada a effeito no jardim doPalacio de Cristal, 
ouviu-a com bocejos e apartes despropositados e falhos de 
espirito. Como havia de ser differente a sua attitude? Se o 
seu enthusiasmo só casquinava com as insolências grotescas 
de qualquer revistola popular? 



A NOVA PEÇA DE D’ANNUNZIO 



« Les vérités mystiques ont sur les 
vérités ordinaires un privilége étrange ; 
elles ne peuvent ni vieillir ni mourir. * 

Maurice Maeterlinck. — Le Trésor des 
Humbles. 



N ão ha muito que um dos aspectos mais cara- 
cterísticos pelo sabor antigo resurgiu vindo 
recordar as passadas celebrações mysticas de uma 
idade em que eram sentidas com enlevo e paixão. 

O primitivo christianismo apparece como fonte 
inexgotavel de inspiração, de motivos, e o que 
era olhado, ha bem pouco tempo, como anachro- 
nico e incompatível com a ideia moderna, é hoje 
por uma grande maioria considerado superior sob 
um ponto de vista exclusivamente esthetico. A re- 
ligião, analysada no seu despontar, apresenta, 
especialmente na thaumaturgia, um sem numero 
de inéditos encantos em que, a par da ingenui- 
dade, ha o sentir de uma vida elevada na sua 
transcendência. No momento d’hoje as scenas 
religiosas são procuradas e reveladas a quem até 



38 



CHRONICAS DE ARTE 



alli as olhava com desdem : as parabolas, as lendas 
santas e os trechos bíblicos, vistos no seu intimo 
dizer, constituem scenas humaníssimas, ao mesmo 
tempo imbuídas de um perfume supra-terrestre. 

A iniciação Occidental, seguindo as palavras de 
Redolpho Steiner, precisa, para se realisar, d’essa 
vontade primitiva, attributo dos martyres e dos 
heroes da divina corrente. O mundo laico sente-se 
pouco a pouco invadir do vago idealismo que, 
indubitavelmente, se apresenta como reacção con- 
tra o positivismo exagerado que n’uma não dis- 
tante epocha dominou quasi despoticamente. É na 
philosophia que tal ataque mais asperamente se 
dirige contra os que pretendiam tudo desvendar 
por meio de um empirismo, simples analyse do 
mundo das apparencias. 

Ao homem theorico foram-lhe marcados limites 
além dos quaes não podia passar: o resto seria 
presentido pelas crenças, pelos poetas e pelos 
artistas. Estes teriam o privilegio para traduzir em 
poema o enigma eterno da existência : Ricardo 
Wagner, na dramatização musical, n’uma intensi- 
ficação de genio; Maeterlinck, na sua vasta obra, 
d’Annunzio e Rodin, dão-nos a noção bem nítida 
da nossa alma. 

Gabriel d’Annunzio descreve no Fogo pela 
bocca do poeta Stelio, n’essa conferencia feita no 
Palacio dos Doges, em Veneza, o apostolado da 
arte, dignificando-a como religião de belleza. Re- 
buscando sentimentos, procurando exprimir as 



A NOVA PEÇA DE D’ANNUNZIO 



39 



grandes paixões, d’Annunzio incute no que escreve 
um cunho essencialmente philosophico. 

Agora apparece o auctor das Victorias Muti- 
ladas com o seu mysterio todo penetrado de espi- 
rito medieval, a lembrar as devoções tanto em 
voga nos seus séculos xm e xiv. Levado por um 
culto de juvende, em que a educação humanista 
predominou, dWnnunzio resurge o androgyno 
christão, procurando reconstituir o mysticismo dos 
primitivos crentes, enaltecendo o poder dominador 
da fé, realçando a lucta travada entre o paga- 
nismo e o evangelho, descrevendo o occaso lento 
dos deuses, o desabar sempre crescente dos my- 
thos orientaes. Elle faz apparecer os convertidos 
perante a abnegação dos martyres, e a catechiza- 
ção dos illuminados arrastando a turba. 

D’Annunzio parece ter vivido n’este tempo em 
que as consciências anciosas se voltavam para a 
simplicidade egualitaria do grande iniciado que 
foi Christo 



Douces gens, un peu de silence! 
Soyez recueillis en présence 
de Dieu, comme dans la prière: 
car vous connaitrez, par mystére, 
ici la trés sainte souf ftance 
de ce Martyr adolescent 
qui a jamais sa jouvence 
dans la fontaine de son sang 



40 



CHRONICAS DE ARTE 



Ante o altar de mármore, consagrado aos 
deuses, o povo olha os dois irmãos cingidos aos 
postes da tortura. Inebriados fitam o ceu azul, 
orando, proferindo palavras. Junto dos archeiros 
de Emeso, Sebastião, o seu chefe, olha os sacrifi- 
cados, e no extase fere sem sentir a mão onde 
appoia o arco. O sangue corre, a voz fala-lhe de 
longe. Debalde os companheiros procuram des- 
perta-lo : 



La fleur de ta veine est plus belle 
que Vanèmone d’ Adónis 



Tu es beau. 



Tudo isto é julgado sortilégio dos mágicos. 
A Mãe dolorosa vem procurar os filhos, aconselhan- 
do-os a seguirem o culto antigo. Marcos responde, 
dizendo ser a morte a vida. O outro irmão mais 
suggestionado implora para que ouçam os ro- 
gos maternos; a lucta é então mais accentuada 
quando as cinco irmãs apparecem a recordar o 
lar. O prefeito, cheio de clemencia, quer conceder 
o perdão, exigindo dos sacrificados o preito ao 
Imperador e ás divindades de Roma. 

Sebastião, o santo, grita — athletas de Christo, 
respondei ... Os dois irmãos n’uma só voz pro- 
clamam o seu culto. A turba agita-se pela invoca- 
ção da Cruz e a profissão de fé é lançada pelo 
amigo de Cesar; curva-se a Mãe dolorosa, ou- 



A NOVA PEÇA DE D’ANNUNZIO 



41 



vem-se gritos angustiosos, imprecações, amea- 
ças, tecem-se prophecias . . . e o santo olha o 
tumulto depois do milagre da flecha despedida. 

A voz continua a perceber-se, mysteriosa e 
occulta como até ali. Os milagres sempre a fasci- 
narem. Sebastião entra no parallelogrammo de 
fogo. Ha a dança extatica, sentindo-se a vertigem. 

Cantam as virgens; a tarde cahe sobre os 
jardins que se tornam azues. Melodias suspiram 
do além e o côro seraphico irrompe com a sau- 
dação á luz, abrindo-se o portico do Novo Dia: 



Voici les sept Témoins de Dieu, 
les Chefs de la Milice ardente. 



Tout le ciei chante 

Atravez de todo esse symbolismo oriental, que 
offerece a segunda mansão, a pessoa christianis- 
sima do Sagittario, aureolada de sobrenatural, 
domina sempre. As sacerdotisas dos idolos e dos 
astros sentem empallidecer na alma o culto dos 
mythos e desfallecem junto dos cippos sagrados. 
O momento apaixonado de iconoclastia impera. 
Os libertos lembram as riquezas perdidas : clamo- 
res de gente vêm pedir clemencia ao androgyno. 
Na evocação esplendida de Lazaro, Sebastião 
ergue a visão espectral e branca da figura biblica 
e a multidão horrorisada espraia o seu olhar pelo 



42 



CHRONICAS DE ARTE 



vago. Os catechumenos começam a experimentar 
a beatitude feliz, a adoração pelo Homem que se 
sacrificou pelas creaturas. 

O martyrio de Golgotha faz soluçar Sebastião : 



Je tremble parce quen mon âme 
Je porte le poids de iopprobre. 



A physionomia tragica da doente das febres 
ostenta no delirio um mysterio e a presença do 
Calvario sente-se em toda agonia que a historia 
santa do evangelho relembra. 

Sacerdotisas, escravos, destruidores de idolos, 
olham como que tomados de vesania: «a luz é 
natividade, beatitude e musica. » 

No Concilio dos Falsos Deuses elevam-se as 
acclamações rythmadas da assistência fanatica ao 
Imperator, acompanhadas de invectivas contra os 
christãos : 



— César Auguste, que les dieux 
te conservent ! 

— César Auguste , 
Empereur trés saint, que les dieux 
te gardent éternellement ! 



— Trés saint Empereur, 
mais délivre-nous des chrétiens! 

— Venge nos dieux! 

— Venge nos feux 

— Venge nos temples! 



A NOVA PEÇA DE D’ANNUNZIO 



43 



O Imperador saúda Sebastião, o sagittario com- 
mandante da cohorte de Emeso: 



Je veux quon facclame. Voustous 
à la louange infatigable , 
criez en rythme: « Que les dieux 
justes conservent ta beauté 
pour VEmpereur, Sébastien /» 

Criez en rythme. 



O santo envolve-se na chlamyde como que 
procurando esconder-se, occultar-se longe daquella 
crença que era a negação da sua. Mas o Imperador 
continua : 



Oú sont-ils les magiciens 
qui faident dans tes artífices 
et qui Venseigent tes prestiges? 

Sebastião invoca o seu deus 



Seul le Christ rayonne VUnique! 



Entre vous et le jour, II est. 
Entre vous et le soleil mort , 
II est Unique. 



O Sagittario quebra a cithara que celebrava a 
embriaguez pagã e nem mesmo o sacrilégio o con- 



44 



CHRONICAS D’ARTE 



demna: as mulheres de Byblos olham a belleza 
androgyna : 

— Son regard est comme Teffluve 
du sommeil, la nue du benjoin. 



— Tu es beau, tu es beau, Seigneur, 
semblable à Tanénione en fleur, 



A lucta dos espiritos mythico e christão des- 
encadeia-se. Augusto quer deíficar o corpo de Se- 
bastião e concede-lhe a estatua da victoria que elle 
arremessa ao mosaico, exaltado de fé : 



fai brisé ton idole, j’ai 
brisé ton or, comme toi même 
tu seras brisé, tu seras 
foulé 

O insulto aos deuses é a condemnação fatal 
do Sagittario que o proprio Imperator não póde 
salvar : 



Ne le touchez plus de vos doigts ! 
L‘art de sa démence est sublime. 
Le son de sa faute est divin. 



II meurt dans le mode dorique 
Ne le touchez plus de vos doigts! 
Ne touchez pas à sa pâleur. 



A NOVA PEÇA DE D’ANNUNZIO 



45 



Etouffez-le sous les couronnes, 
étouffez-le sous les colliers, 
sous les fleurs, Vor et la musique , 
sous les songes , Vor et les plaintes, 
car il est beau. 



Na penúltima mansão, no loureiro ferido , o 
santo vae soffrer o martyrio. 

Sanaé, súbdito do androgyno, procura salval-o. 
Os sagittarios de Emeso dominados curvam-se, in- 
censam-no. A apparição do Crucificado envolve o 
loureiro do sacrificio. Os archeiros desfecham os 
golpes, e as flechas passam rapidas no ar em direc- 
ção ao martyr. Maintenant le soir est céruléen 
comme le verre de Phénicie colore par Vocre bleu 
de Chypre. Choram as mulheres de Byblos. As 
settas, quando o androgyno inerte é desligado do 
loureiro, fogem das chagas, cravando-se na arvore. 
Levado entre litanias envolvem-no na purpura de 
um manto. 

Au delà de la colline sainte, dans la profon- 
deur du soir, une clarté de perle se répand, sem- 
blable à celle qui précède le lever de la pleine lune. 

Depara-se-nos o Paraiso como uma apparição: 
é o jardim das claridades e das beatitudes. 

O canto dos martyres, das virgens, dos apos- 
tolos e dos anjos é um coral á belleza animica de 
Sebastião : 



46 



CHRONICAS D’ARTE 



Louez le Seigneur dans Vimmensité de sa force 
Louez le Seigneur sur le tympanon et sur iorgue. 
Louez le Seigneur sur le sistre et sur cymbale. 
Louez le Seigneur sur la flâte et sur cithare. 
Alleluia. 



A espiritualidade que parece erguer-se como 
um aroma do mysterio de Gabriel d’Annunzio, 
lembra-me as creações de Guido da Vicchio, o 
pintor florentino, luarisadas de pureza : são os 
mesmos tons e as mesmas auras doiradas a ro- 
dear as cabelleiras castas das virgens e dos bam- 
binos. 



Julho, 911. 



UM CITHAREDO 



P elas ruas e callejas tortuosas da velha Coim- 
bra passam e vivem tipos curiosissimos, que 
a observação não póde descurar pelo immenso 
descriptivo que apresentam: creaturas a viverem de 
braço dado com a miséria que as obriga aos mais 
ridiculos vexames, ás maiores torturas de apparen- 
tarem ser o que não são aos olhos dos outros, 
ávidos de titerismo para sorrirem e escarnecer. E 
que vida bohemia têm estes aventureiros já anes- 
thesiados para as maiores dores, habituados como 
estão a um crudelissimo passadio, angariado ainda 
pela esmola humilhante, que tanto offende intimos 
orgulhos. 

Mas por vezes essa insensibilidade cynica des- 
apparece momentaneamente, e o choro convulso 
turva-lhes de lagrimas o olhar; a dôr então é cru- 
ciante, e o aventureiro soffre a impressão d’uma 
nuvem pesada, que passa a escurecer-lhe o atalho 
ingreme que trilha. 

O grito desesperado, soltado pela alma revol- 



48 



• CHRONICAS D’ARTE 



tada, esváhe-se e o peito, de offegante que estava, 
volta a descançar n’essa serenidade que acompa- 
nha sempre os heroes no martyrio! E affronta-se 
assim com altivez a ingratidão das circunstancias, 
que formam o «fatum» de uma creatura, que rea- 
lisadas são o trágico quotidiano de que nos fala o 
Thesouro dos Humildes. E são estes desconheci- 
dos que, levando a vida n’uma apparente bonho- 
mia, escondem almas cheias de nobreza, imrnacu- 
ladas na sua mais intima essencia. 



Feriu-me a attenção um velho tocador de ci- 
thara que ha dias passava por mim quando eu, 
de companhia, descia a Couraça dos Apostolos. 
Chamei-o. Perto d’elle, e á sua volta, grupos de 
garotitos sublinhavam, com risadinhas mordazes 
e algazarra, as palavras aportuguezadas ditas pelo 
pobre homem. 

— Olhe, amanhã á noite, appareça no meu 
quarto. Palacios Confusos, sabe? 

Despediu-se de mim com muitas vénias e lá 
foi seguido pelos motetes do rapazio. 

Ao anoitecer do*dia seguinte o citharedo appa- 
receu-me de rosto alegre e feliz : parecia esquecer 
o livro trágico que eu presentia ser toda a sua 
vida. Apenas entrou, lançou rapidamente os olhos 
para as paredes ornadas com os retratos de alguns 
músicos, e disse-me n’um incisivo tom de since- 
ridade: 

Ah ! Wagner ! Sim, esteve em minha casa, na 



UM CITHAREDO 



— 



49 



Suissa allemã! E apontando depois para um nu- 
mero da «Musica» que inseria a photographia de 
Liszt : — ah ! Vi-o em Roma. Que musico, que mu- 
sico ! Comecei de interrogal-o na sua vida cheia de 
aventuras, que dariam um poema. Foi viver com 
sua mãe para Innsbruck; aqui trabalhou no atelier 
do pintor Bachomid, indo depois como operário 
para uma grande fabrica de cristaes. — Ah! meu 
amigo, nunca fui um musico, eu era pintor. E com 
que orgulho affirmava isto, o desgraçado ! Trieste 
acolheu-o em seguida com sua mãe, a querida 
companheira. Viveu n’esta cidade algum tempo, 
deixando-a para se asylar primeiro em Vilach e 
depois em Carência. Trabalhou um anno no 
atelier de Bruch, vindo de novo refugiar-se em 
Trieste e, desalentado pela falta de trabalho, pro- 
curou Roma, onde exerceu o seu mister de pintor 
n’um convento e na egreja de S. Paulo. Alistou-se 
no exercito austríaco, entrando na guerra entre a 
Áustria e a Turquia. E ao referir-se a estes episó- 
dios da sua vida, o caminheiro descreve-me as 
batalhas mais impressionantes. 

Exaltado e n’um mesclado de varias linguas 
procura exprimir-se. Parece estar a vêr a refrega 
dos dois exercitos, tal o colorido com que elle 
pinta as scenas guerreiras... Extenuado, pede-me 
que o deixe descançar por momentos. 

Deixou a vida militar e regressou a Trieste. 
Sua mãe estava á morte com um cancro no peito, 
vindo a morrer decorridos alguns mezes. Começa 

4 



50 



CHRONICAS D’ARTE 



Gustav a entristecer — fazia-lhe falta a unica crea- 
tura que tinha no mundo. Recordava-a sempre, e 
com os olhos marejados de lagrimas o cami- 
nheiro lembrava a sua meninice e ficava-se deli- 
ciosamente, momentos seguidos, a pensar no que 
não voltava mais. Via o recanto florido da sua 
patria longínqua, e uma sombra amiga a estender- 
lhe, na immaterialidade do sonho, mãos transpa- 
rentes, que o acarinhavam. 

O citharedo desperta e conta-me de novo a 
a sua peregrinação por terras remotas: As viagens 
fazia-as sempre a pé ; não conhecera nunca outro 
meio de transporte : umas sandalias de madeira 
poupavam-lhe os rudes golpes das pedras e das 
silvas dos caminhos. 

Foi ao Tyrol e a München, onde esteve num 
atelier a retocar antigos quadros : seguiu para Co- 
blenz, Berlim, S. Petersburgo e Odessa. Veio para 
Constantinopla e aqui trabalhou n’uma egreja de 
missionários. Voltou para a Áustria, percorrendo 
depois a Italia, vindo a Marselha, depois a Pau, 
Bayona, Irun, Barcelona e Gibraltar. D’aqui a 
Bayona, Bilbao, Santander e também algumas ci- 
dades da Galliza, recolhendo a Portugal, não sem 
transpor novamente as fronteiras. Esteve no Porto, 
em Lisboa e agora Coimbra parece que o aco- 
lhe. O ter falado de Wagner obrigou-me a per- 
guntar-lhe se alguma vez ouviu a sua misica. — Oh, 
sim, em Bayreuth. Ouvi o « Gõtterdãmmerung», e 
n’um expressivo laconismo de adjectivos seguidos, 



UM CITHAREDO 



51 



manifestava a sua admiração por Wagner. Com 
que exactidão Gustav Marek esboçava n’um rápido 
schema o theatro wagneriano ! Não se esqueceu de 
me citar Perosi — que ouvira em Roma. Tinha 
visto Mascagni, Leoncavallo. Germanisava a pro- 
nuncia d’estes nomes, arrastando-a, demorando-a 
nas syllabas claras. Vira em Roma Liszt, um lindo 
velho de cabe lios grandes . . . 

E, a proposito de anecdotas de músicos, refe- 
riu-se a uma questão curiosa entre Mascagni e um 
outro maestro, de cujo nome se não lembrava. 

O caminheiro pôz-se a trautear uns compassos 
da « Cavallaria » e pegando na cithara percorreu 
sentidamente as poucas cordas que lhe restavam 
— os sons suspiravam com tristeza. 

— Ah ! Não tenho alegria! Etoda a gente julga 
que sou alegre por tocar cithara ! Esta foi sempre 
a minha companheira: c'est ma femme! 

Gustav Marek despediu-se de mim com a alma 
cheia de enternecimento . . . 

Coimbra adormecida estende-se pela collina 
agora envolta de treva. Murmuram as aguas can- 
ções de amor aos choupos, que se curvam para 
as ouvir, e a voz confusa das coisas passa múr- 
mura pelo ar. Parece-me escutar o citharedo cantar 
uma velha canção do seu paiz. As notas dolentes 
perdem-se arrastadas pelo vento que as leva. 

Pobre rhapsódo, como tu choras a cantar ! 



Coimbra, Palacios Confusos —911. 



A ALMA DAS PEDRAS 






0 templo ergue-se como monumento santo da 
Historia, e ao passar por elle sinto a alma 
invadida de saudades por tempos que a imaginação 
apenas pode evocar. E’ da Sé Velha que vos quero 
falar, leitor amigo, com esse fanatismo despertado 
sempre pelas coisas que nos lembram eras já cor- 
ridas, e nenhum templo como este radicou em 
mim mais profunda impressão de resurgidora anti- 
guidade! As pedras dizem muito no seu silencio, 
acordam em nós o preito devido aos heróis, e fa- 
zem com que o nosso espirito devotamente lhes 
reze: resumbra d’ellas o perfume dos velinos e dos 
in-folios antigos. 

Para comprehender o estylo da Sé Velha é pre- 
ciso sentir a melancholia religiosa do seu interior 
acariciado por uma luz branda e coada. Logo ao 
entrar, sob as archivoltas sobrepostas, levantando 
o velario, se começa a experimentar uma vaga e 
inexplicável tristeza. O mundo fica-nos para traz 
e o mortal sente-se com o infinito a desvendar 



54 



CRÔNICAS D’ARTE 



mysterios. O velario cái de novo occultando-nos 
o sol que inunda tudo n’um mar de coruscante 
luz. Emoção, muita emoção banha a alma que se 
sente alli bem. Erguem-se os olhos e a doçura im- 
bebe-os, imbebendo o coração de nostalgia! Nada 
se ouve senão os proprios passos que echoam pe- 
las naves. Sempre o mesmo silencio ascético . . . 
sempre ! 

O templo vive abandonado, sem os monges 
que antes lhe cantavam sob as naves aromatisa- 
das de incenso; e fazem falta os monges para nos 
entoarem os hymnos sagrados de louvor ao seu 
Deus. 

D’um lado e d’outro da egreja destacam-se os 
tumulos de creaturas que a alma revive : a tradição 
contou-lhe o Passado e tudo ficou indelevel no 
seu intimo. Dizem os chronistas que n’um d’elles 
repousa D. Vetaça, aia da rainha Santa Izabel e, 
segundo Rezende, conquistadora de uma villa, to- 
mada em dia de Sanflago ao rei Casse. D. Vetaça 
era neta do imperador da Grécia e filha de Gui- 
lhelmo, conde de Veiente-Milha. A figura valorosa 
d’esta mulher, relembrada pela lenda, descançava 
sob a pedra pesada que a cobria. E só vos falo, 
leitor amigo, d’este tumulo : os outros são demais 
conhecidos, lembrando-nos, porém, ainda a campa 
do bispo D. João Mendes de Tavora, onde se notam 
ainda vestígios dos seus escudos picados na época 
de D. José I, pouco depois da «pavorosa» do at- 
tentado. 



A ALMA DAS PEDRAS 



55 



E já que recordei, da minha romagem ao tem- 
plo, figuras passadas, também ao de leve vos 
quero contar scenas queridas da nossa historia alli 
decorridas sob aquellas mesmas pedras que me 
abrigavam: pelo bispo D. Martinho foram n’esta 
Sé coroados D. Sancho I e D. Dulce e mais tarde, 
em 1385, o Mestre de Aviz era aqui recebido com 
as honras de rei. D. João fora esperado em Coim- 
bra pelos bispos do reino, grandes da corte e de- 
putados de quasi todas as villas e cidades. Em 3 
março do anno de 1385 o Mestre de Aviz entrou 
na cidade em procissão. E contam mais as «Me- 
mórias» que a uma legua de Coimbra, uma cam- 
panha de rapazes com o seu pendão á frente, e 
montados em canas, o foi esperar também. A’s 
saudações e ao grito enthusiasmado do povo D. 
João entrava na Sé Velha, sendo aqui aguardado 
pelo bispo de Lamego, D. Lourenço, seguido do 
deão e cabido de cruz alçada. Foi cantado um so- 
lemne Te-Deiim, e feita a oração o Mestre d’Aviz, 
rodeado pelos seus homens de armas, e acompa- 
nhado em cortejo por toda a gente, dirigiu-se para 
os Paços de Alcaçova. Reunidas depois as cortes, 
a voz eloquente e incisiva de João das Regras, 
proclamando a soberania do povo, erguia-se por 
D. João, legitimo successor. 

No dia 6 de maio de 1449, antes da batalha de 
Alfarrobeira, o infante D. Pedro fora também alli 
orar, e mais tarde o príncipe da lenda, o Desejado, 
que o messianismo atavico fazia surgir n’uma 



56 



CHRONICAS D’ARTE 



certa manhã de nevoeiro, ia rezar humildemente 
ao mesmo sanctuario! 

A lenda tudo aqui envolve n’esta velha cidade 
de escolares! 

O estylo do templo de que vos falo é bem a 
traducção inspirada de uma phase caracteristica- 
mente religiosa da antiguidade : o românico é essa 
vida interior symbolisada; é a crença primitiva dos 
anachoretas erguida no hieratismo das pedras. Das 
sombras das catacumbas, interrompidas por sus- 
piros de lampadas, lentamente se passou ao «tem- 
plo» edificado em plena luz mas guardando no seu 
interior o ascético silencio. E tudo então nos fala 
de prece, de arrependimento e de vagos myste- 
rios. 

Olhando o «triforium», a imaginação vê nelle 
perfis castos de virgens que oram, e a destacar-se 
a imagem linda de Mecia de Haro olhando devo- 
tamente um martyr agonisante ! . . . 

Os claustros estão desertos. Apenas uma fonte 
se ouve a chorar lagrimas de saudade! 



Coimbra, Palacios Confusos — 911. 



IBSEN E GRIEG 



PEER GYNT 



I bsen na sua mocidade tivera um sonho que lhe 
déra uma sabbatica impressão da vida, e 
nunca um estado onirico creára assim um tão 
grande quadro : levado por um anjo o poeta 
vê desenrolado ante os seus olhos o espectáculo 
da existência. Do alto da collina o super-homem 
divisa uma grande cidade extincta donde se er- 
guem flatulências de podridão ; milhares de cor- 
pos jazem inertes pelo solo. Uma luz pallida e 
diffusa incide sobre as coisas. A alma atemorisada 
sente-se perseguida. O anjo fala na vaidade dos 
homens. Ha um ruido de tempestade. Os mor- 
tos erguem-se em horripilantes attitudes agitando 
os braços, erguendo-os para o poeta ! Jamais se es- 
quecia uma visão assim, e o espirito genial do dra- 
maturgo imbuiu-se bem d’ella, querendo ao mesmo 
tempo com o seu esforço desvanece-la, procurando 
catechisar e evangelisar os homens pela sua obra 
cheia de caracter e de significado moral. As peças 



58 



CHR0N1CAS D’ARTE 



de Ibsen são livros philosophicos ; formam só por 
si uma detalhada e profunda dissecação do corpo 
social ; attestando defeitos moralisam ; creando 
personagens que são encarnações de virtudes, in- 
cutem exemplos a seguir, e com o sentido destes 
ergue preceitos de purissima bondade. Ibsen, 
perscruta genialmente os movimentos da alma, as 
suas crises dolorosas de incerteza, as masculas e 
viris paixões que nella tumultuam, e lido o seu 
theatro tem-se immediatamente adquirido um alto 
conceito do que devia ser a vida. , 

A sua obra é um systema de ideas, traduzindo 
principalmente, o antagonismo radical entre 
indivíduo e o meio ambiente — a sociedade: vive 
só e serás um forte ! Lida esta phrase que se não 
veja n’ella uma profissão de antipathico egoismo, 
de desprezo pelos outros, mas sim a idéa incisiva- 
mente radicada da individualidade. Henrique Ibsen 
procura caracterisar a lucta entre o ideal e o real, 
querendo envolver este por aquelle, procurando 
dignificar a vida numa aspiração esthetica, aspi- 
ração que não vive na mediocridade das multi- 
dões, sáfaras e indignas de comprehender os elei- 
tos, os isolados, os fortes encerrados com o seu 
pensamento, base vital indestructivel. E quantas 
vezes o poeta não exprimiu nas cartas intimas que 
escrevera o absoluto desdem pelo espirito grega- 
rio; «o barulho da multidão intimida-me, quero 
acautelar as minhas roupas da lama das ruas . . . » 
«não tenho illusões sobre os homens e, para os 



1BSEN E GRIEG 



59 



não odiar, desprezo-os.» Incrédulo da sua amizade 
tinha sempre perante si o fratricídio da Biblia com 
estas poucas palavras a sublinhal-o : «Homo ho- 
mini lupus». 

Não podemos considerar a obra de Ibsen 
como inteiramente pessimista, parecendo á pri- 
meira vista sel-o, pela maneira acerba e mordaz 
com que critica a instituições de hoje; mas demo- 
rando mais a attenção pelas suas paginas, veremos 
a esperança numa longínqua rehabilitação levada 
a effeito pelo Amor; e mais adeante, falando eu do 
Peer Gynt, terei occasião de me referir a isto 
mesmo. 

O Amôr purifica o coração de Peer que sente, 
ao aproximar-se de Solveig, depois de longos an- 
nos de aventura, um rejuvenescimento de alma. 

Ibsen queria mostrar um futuro melhor inspi- 
rando ao homem a vontade de o realisar : «Victo- 
ria e luz sobre aquelle que quer». 

A civiiisação será uma promessa a levar a ef- 
feito e apparecerá pouco a pouco parallelamente 
ao crescente desenvolvimento da consciência indi- 
vidual. 

Henrique Ibsen apotheisou a dor, tornou-a 
companheira inseparável das creaturas predestina- 
das. A dôr ennobrece o caracter e o caracter faz 
viver a belleza ! Ibsen considerava-a uma funcção 
intellectual e olhava a grandeza e nobreza das al- 
mas graduadas pela sua dôr. 

A Dôr acompanha o Amôr, segue-o sempre 



60 



CHRONICAS D’ARTE 



abraçada a elle numa intima communhão. O beijo 
da Dôr tem de acarinhar sempre a fronte dos pre- 
destinados ! 



* 



O poema dramatico Peer Gynt foi escripto por 
Ibsen em 1869, quando da sua estada em Ischia e 
Sorrento, na Italia meridional, e não em 1868, 
segundo a affirmação de Prozor no prefacio da 
sua traducção franceza. De passagem direi que 
não conheço a sua pequena monographia, esgo- 
tada actualmente, em que o erudito traductor e 
critico mais detalhadamente se havia de referir á 
génese e ideias dominantes no Peer Gynt; umas 
cartas de Ibsen, porém, elucidaram-me bastante 
sobre este ponto e acho interessante, das que li, 
principalmente a dirigida a Eduardo Grieg que 
contem revelações curiosissimas a que mais 
adeante me referirei. 

Ibsen escrevendo ao conselheiro Hegel dizia- 
lhe que o seu heroe Peer Gynt vivera no Gud- 
brandsdal, região da Noruega, no começo do 
século xix ; mais dizia ser o seu nome bem conhe- 
cido entre os habitantes dalli que contavam a seu 
respeito algumas lendas, não sabendo estes de 
Peer mais do que o contido nos Contos Phantas- 
ticos de Asbjõrnsen. 

Outra carta dirigida a Bjõrnson refere-se a uma 
critica injusta do Peer Gynt feita por Clemente 



IBSEN E GRIEG 



61 



Petersen que accusava a obra falha de poesia e 
de conter enigmas insolúveis. Segue-se outra carta 
a Edmundo Gosse em que Ibsen considera Peer 
Gynt a perfeita antithese de Brand, escripto aquelle 
num tom selvagem e ousado: «era preciso que 
estivesse longe da minha patria para me atrever a 
fazel-o tal como o fiz.» 

Dos escriptos intimos de Ibsen aos seus ami- 
gos que mais interessam é sem duvida a carta 
dirigida em 1874 ao musico norueguez Eduardo 
Grieg, a propôr-lhe a composição de uma opera 
sobre o poema do Peer Gynt, áparte algumas im- 
portantes modificações referentes a córtes de sce- 
nas secundarias, a diminuição de outras, etc.. 

Desejava Ibsen que o primeiro acto subsistisse 
quasi inteiramente, salvo ligeiras suppressões pra- 
ticadas no dialogo ; que o monologo de Peer 
fosse acompanhado por orchestra ou então con- 
vertido parcialmente em recitativo ; que a scena 
do noivado fosse realçada por um bailado com 
uma musica propositadamente escripta para este 
fim. No segundo acto Grieg comporia uma scena 
musical para as tres camponezas; esta musica 
devia ter qualquer coisa de diabolico. A orchestra 
deveria sublinhar por accordes o monologo, assim 
como a scena entre Peer e a Mulher de verde. 
Uma especie de acompanhamento era necessário 
ainda no episodio do velho da montanha. A scena 
intacta do faial teria a sua illustração melódica : 
gorgeios de aves, sinos e cânticos ao longe. 



62 



CHRONICAS D’ ARTE 



No acto ui seriam precisos alguns accordes na 
scena entre Peer, a mulher e o gnomo. 

Faz umas leves referencias ás paginas 109 e 
112 da edição noruegueza, desejando que o iv 
acto fosse supprimido e substituido por uma sym- 
phonia descriptiva que traduzisse a vida errante de 
Peer Gynt. O canto de Anitra e das dansarinas 
entoar-se-hia com o panno baixado. Seguir-se-hia 
a visão de Solveig cantando deante da sua cabana 
beijada de sol; o panno desceria lentamente co- 
meçando a orchestra nos compassos da tempes- 
tade. Poucas mais indicações terá a carta de Ibsen 
a Grieg, mas as citadas são já de per si impor- 
tantíssimas. 

Seria interessante conhecer os autographos de 
Grieg sobre esta proposta que afinal não foi levada 
a effeito, senão em parte. 

Eduardo Grieg, com a sua requintada com- 
pleição de musico, compôs duas suites bem co- 
nhecidas entre nós (especialmente a primeira, 
agora tantas vezes executada em Lisboa pela 
orchestra dirigida por Pedro Blanch). 

Pouco divulgado está entre nós o estudo pon- 
derado da obra musical de Grieg que, com o seu 
compatriota Svendsen, creou na Noruega uma 
situação notável pela profunda influencia que 
exerceram na arte scandinava. Eduardo Grieg 
estylisou as canções do seu paiz, espalhou-as 
incutindo ao cunho da raça que nellas vivia a 
forte impressão esthetica, subjectiva, do seu genio. 



IBSEN E GRIEG 



63 



As Dansas Nomeguezas são o exemplo bem fri- 
zante e a destacar d’entre as suas outras muitas com- 
posições. 

Falemos agora propriamente do Peer Gynt, 
citando ao lado das scenas dramaticas as scenas 
musicaes de Eduardo Grieg. 

O entrecho dramatico de Ibsen é quasi igno- 
rado pela maior parte daquelles que ouvem e 
applaudem as suites de Grieg intimamente rela- 
cionadas com o poema: não ligam pois significa- 
ção verdadeira aos quadros musicaes interpre- 
tados. 



* 



Peer Gynt é um typo lendário de Scandinavia, 
symbolo do egotismo, heroe e degenerado com 
facetas accentuadas de genio. Filho dum alcoolico 
e de uma creatura nervosa, Aase, Peer traz com- 
sigo uma tara hereditária que o arrasta á perpetra- 
ção de certos crimes. 

De grandes faculdades ideativas, o heroe de 
Ibsen, inventa as mais bizarras historias que são 
ouvidas supersticiosamente por todos. Crente fer- 
voroso no triumpho do seu eu, julga-se um futuro 
rei ou imperador: «nasci para os mais altos des- 
tinos !» No seu delirio de grandeza imagina-se co- 
roado, seguido por uma escolta toda equipada de 
oiro ; as mulheres curvam-se ante a sua belleza. 

Apesar de Aase lhe prohibir a ida ás núpcias 



64 



CHRONICAS D’ARTE 



de Ingrid, Peer não se importa e vae assistir ás 
bodas. Quando entra na casa dos noivos todos os 
convidados começam a protestar contra a vinda 
daquelle intruso ; as raparigas solteiras fogem-lhe. 
Peer quer dansar e não encontra par, mas eis que 
apparece Solveig e Helga, filhas de dois campo- 
nezes immigrados. Peer fica enthusiasmado com a 
belleza simples e ingênua de Solveig com quem 
troca algumas palavras. A scena é constantemente 
interrompida pelo noivo que se vem queixar da 
frieza de Ingrid, a ponto de pedir o auxilio de 
Peer junto delia. Peer, seu antigo apaixonado, foge 
com Ingrid para longe. Na ultima scena do pri- 
meiro acto os inimigos de Peer vêm perseguil-o. 
Aase apparece e diz a Aslak que se se atreves- 
sem a agredir o filho «a velha Aase ainda tinha 
bico e garras para ferir!» O noivo vem espavorido 
á procura de Ingrid e isto mais exacerba a multi- 
dão. Aase procura salvar o filho depois de o in- 
sultar ! 

Num estreito atalho da montanha Peer Gynt 
anda apressadamente perseguido por Ingrid ainda 
vestida de noiva. 

Peer Gynt repelle-a falando numa affeição 
maior. Ingrid lembra-lhe que estão ligados por um 
crime! Lamenta-se, pede a Peer que pense bem 
na sua sorte. Abandonada, passa-lhe em todo o 
seu corpo um frêmito de revolta ; mordida de des- 
peito e de dôr sente o desespero de se vêr insul- 
tada como uma adultera. 




GRIEG 



IBSEN E GRIEG 



65 



O Lamento de Ingrid, de Grieg, começa por 
um allegro furioso : notas que exprimem momen- 
tos de cólera e de suffocação ; no andante ha o ac- 
corde que significa bem o luto duma alma envol- 
vida de treva para sempre. Depois segue-se um 
canto repassado de tristeza, de melancholia. Ingrid 
supplica ! 

A melodia repete-se, succedendo-se depois no- 
tas que exprimem lagrimas. 

Vem novamente o allegro , terminando por fim 
em sons que se perdem num doloroso pia- 
níssimo. 

Ingrid e Peer Gynt afastam-se cada um para 
seu lado. Aase, Solveig e Helga vêm procural-o. 
Solveig pede a Aase que lhe fale do filho ! 

Ao longe píncaros nevados. 

As sombras começam a estender-se sobre a 
terra. 

O dia morre. 

Peer solta a imprecação do revoltado : «arrastar, 
lutar, nadar contra a corrente ! Fustigar ! Demo- 
lir! Desenraizar arvores! Eis o que se chama 
viver ! » ( ] ) 

Peer Gynt encontra-se n’uma floresta. Por en- 
tre as folhas das arvores scintillam as estrellas. A 
Mulher de verde, filha do rei Dovre, vem ao seu 

í 1 ) Não nos podemos referir a cada uma das scenas do 
Peer Gynt, limitando o nosso estudo critico apenas áquellas 
que para o caso nos interessam. 



5 



66 



CHRONICAS D’ARTE 



encontro e leva-o n’um suino gigantesco para a 
montanha phantástica. 

Ibsen faz intervir aqui o maravilhoso para ca- 
racterisar bem a imaginação exaltadissima de Peer 
Gynt. 

O aventureiro entra no castello do velho Do- 
vre, Rei das montanhas. Difficil é reproduzir as 
falas dos differentes personagens. 

No recinto do castello celebram-se danças. 
Trava-se um interessante dialogo entre o rei e 
Peer Gynt. 

Aquelle tem a sobranceria dum deus, dum 
immortal que pronuncia maximas sobre os homens. 
Dovre deseja prender Peer nos seus domínios, 
mas este não quer alienar a sua liberdade. O mo* 
narcha, exasperado, condemna-o, e Peer vê-se ro- 
deado de pequenos seres que se agitam á sua 
volta, fustigando-o e irritando-o. Peer Gynt grita 
por soccorro, ouvindo-se ao longe o soar plan- 
gente mas amortecido dos sinos da egreja. 

Erguem-se gritos e tumulto. 

Tudo foge e desapparece. 

O castello abre ficando em ruinas. 

Aqui se insere o terceiro trecho de Grieg, In 
der Halle des Bergkõnigs, ultima composição da 
primeira suite. 

Em pianíssimo ouve-se o primeiro compasso, 
rompendo depois as notas num sempre staccato 
que augmenta progressivamente num crescendo 
e mudança de tons expressivos. Vae appare- 



IBSEN E GRIEG 



67 



cendo pouco a pouco a complexidade orchestral, 
os desenhos chromaticos vão-se tornando cada 
vez mais nitidos, deixando de ser esquisses apa- 
gadas de sons. A seguir um fortíssimo grandioso 
em oitava alta vem-nos sugerir a epopeia mythica 
de Prometheu libertado ! 

As notas finaes são indescriptiveis : dissonân- 
cias que traduzem gritos e esgares. 

Peer Gynt, após a desapparição brusca do 
reino de Dovre, fala com a Grande Curva, perso- 
nagem lendaria, em quem Ibsen personifica a 
hypocrisia. A Grande Curva triumpha sem comba- 
ter . . . Passam aves no ar. Ouvem-se sinos e cân- 
ticos ao longe. 

Inicia-se nesta altura a primeira suite de Grieg 
com a Morgenstimmung. 

É a madrugada que começa a romper. Um 
allegretto pastoral dá-nos a impressão do raiar da 
aurora. 

As notas leves dos primeiros compassos expri- 
mem o levantar das névoas, o rufiar de azas que 
singram o ceu. Das folhas dos arbustos cahem 
gottas de rócio. A musica lembra olaias floridas. 
Os sons accentuam-se em continuo crescendo: 
é a transição da noite para o dia. Os compas- 
sos últimos annunciam a despedida da estrelia de 
alba e os accordes finaes a serenidade duma ma- 
drugada extasiante, de luz puríssima ! 

Peer dorme. Desperta e vê Helga que, enviada 
pela irmã, lhe vem trazer mantimentos. 



68 



CHRONICAS D’ARTE 



Solveig occulta atraz da cabana é vista por 
Peer; este persegue-a, ella affasta-se com a com- 
panheira. 

Numa outra scena seguinte Aase lamenta-se 
de ter perdido tudo : os tribunaes arrestaram-lhe, 
pelos crimes do filho, os poucos bens que pos- 
suía. Mas Aase tem sempre saudades do querido 
aventureiro. 

Peer Gynt continua a viver só na floresta. Elle 
proprio construiu a sua cabana. Trabalha e ri! 
Solveig vem visita-lo e abençoa a sua canceira. 
Helga transmittira-lhe um pedido, o vento e o silen- 
cio levaram-lhe outros. Tudo dizia para ella vir 
alli : Aase sempre a falar do seu filho ; as longas 
noites e os dias solitários . . . Vinha ve-lo! Peer per- 
gunta-lhe o que diria seu pae se soubesse desta 
visita . . . Solveig responde que sobre a vasta terra, 
sob o ceu de Deus, não existia mais para ella nem 
pae, nem mãe; não havia ninguém senão elle! — 
Uma benção desce sobre esta cabana onde tu vens 
habitar com o pobre caçador, Solveig! Deixa-me 
contemplar-te! Sem me approximar de ti, olhar 
sómente. — 

Ibsen mostra bem aqui a superioridade de Peer 
Gynt: serão estas palavras o seu proprio conceito 
sobre o amor despido de mácula ! 

Os remorsos passam muitas vezes pelo espirito 
visionário de Peer, concretisados em imagens que 
só elle vê e ouve e com quem fala. 

Solveig retira-se por momentos para dentro da 



IBSEN E GRIEG 



69 



cabana. Volta de novo a apparecer, perguntando 
ao companheiro para onde tenciona ir. Peer Gynt 
a meia voz relembra a fala da Grande Curva, e 
responde a Solveig que tem um pesado fardo a 
transportar. Despede-se e Solveig espera du- 
rante muitos annos o amante que parece nunca 
mais voltar ! 

Peer por um presentimento vem a casa de sua 
mãe que se encontra agonisante. Grieg compôs 
sobre este thema uma das suas mais notáveis mu- 
sicas : a Morte de Aase. 

A pobre velha vae morrer descançada com a 
vinda do filho. Pôde partir em paz. Peer pergun- 
ta-lhe se tem frio nos pés ou nas mãos. Aase res- 
ponde que sim, que sente a vida a esvahir-se-lhe, 
e fala num mau presagio acontecido durante a 
noite. Peer Gynt vê a mãe estendida no seu pe- 
queno leito de creança: Aase recordava assim a 
meninice do filho ! As scenas da sua infancia lem- 
bra-as com saudades. Peer por seu lado também 
lhe evoca o passado. 

— Sim Peer, tudo findou . . . Quando vires os 
meus olhos extinguirem-se, é preciso fechal-os do- 
cemente ! 

Aase vive os últimos momentos a relembrar: 
quando o marido partia para as longas aventuras, 
os dois, á tarde, brincavam no trenó com a manta 
da pequena cama a servir de capota e o soalho a 
fingir uma planura coberta de neve. Peer Gynt e 
Aase abalavam para o castello de Soria-Maria, a 



70 



CHRONICAS D’ARTE 



oeste da lua e a este do sol . . . e a moribunda 
no delirio, prenuncio da morte, via toda esta evo- 
cação! Mas despede-se da vida pedindo ao filho 
o livro dos cânticos! Sente-se inquieta da alma. 
Parece divisar muitas luzes que Peer diz serem as 
janellas do lendário castello illuminadas. Aase vae 
fechar os olhos e entrega-se ao filho que sonha ! 

Kari penetra no quarto mortuário julgando que 
Aase dorme profundamente. Peer sente a fatal rea- 
lidade e foge para longe, para muito além do 
mar! 

Notas cavas de mysterio annunciam a despe- 
dida da vida. A alma chora ! A doçura da visão 
passa por nós também. Os compassos, primei- 
ramente em pianíssimo, distinguem-se mais e 
mais . . . depois uns accordes levíssimos sugerem 
imagens vagas do álem. Os sons, num diminuendo y 
vão-se extinguindo, apagando, na indecisão cin- 
zenta do infinito . . . 

Peer Gynt deixa o paiz onde nascera com uma 
forte esperança no triumpho do seu eu. No prin- 
cipio do acto IV do poema encontra-se numa 
costa a suduéste de Marrocos, acompanhado de 
amigos desleaes. No banquete todos conversam 
acaloradamente, dissertando Peer Gynt sobre a 
conducta dum homem na vida. Conta como ga- 
nhára a sua fortuna á custa do trafico dos negros 
na Califórnia e da exportação de idolos para a 
China : todas as primaveras continuava a fornecer 
idolos; mas quando vinha o outomno embarcava 



IBSEN E GRIEG 



71 



para a costa chineza uma carregação de sacerdo- 
tes, munidos de biblias, bentos, arroz e rhum ! 
O aventureiro arrependera-se das suas faltas e re- 
miu-as, fazendo bem aos escravos que tinha ainda 
depois de abandonar este baixo commercio. Es- 
tava rico; agora a sua ambição era ter sempre 
perto de si um coro de amigos dançando em volta 
do seu /élo d'oiro. Exaltado pelo vinho, acom- 
mette-o o delirio da grandeza: quer ser imperador 
do mundo com o dinheiro omnipotente! Sonha 
com uma grande victoria soccorrer a Grécia victima 
da Turquia. Peer separa-se dos companheiros que 
resolvem fugir com o seu navio carregado de di- 
nheiro. 

Sob o luar, Peer Gynt divisa no horisonte um 
yacht que se affasta: era a sua fortuna de Nababo 
que lhe fugia para sempre ! De cólera arranca os 
cabelos e pede a Deus o castigo para aquelles que 
extorquiram o seu immenso thesouro. A impreca- 
ção é ouvida e o navio envolvido de chammas e 
fumo afunda-se nas aguas. Peer Gynt cahe exte- 
nuado sobre a areia. Levanta-se de novo cheio de 
esperança em si : — um nobre pensamento vale 
mais do que todas as riquezas do mundo. De aven- 
tura em aventura vamos encontral-o num oásis, sob a 
tenda dum scheik arabe, rodeado de raparigas que 
com Anitra cantam e dançam em honra do propheta : 

Flautas, entoae vossas arias de festa, 

Em honra do divino Propheta ! 



72 



CHRONICAS D ARTE 



Incluirei nesta scena a Dança arabe da 2. a 
suite e a Dança de Anitra da l. a suite. 

A primeira começa por um allegretto vivace 
em pianíssimo. Ouve-se o tilintar de pulseiras e 
o agitar de lentejoilas. È a impressão da ronda 
de sulamites lindas! Ouve-se a melodia do oásis, 
symbolo do prazer a entrecortar a dôr! Peer sen- 
te-se acalentado pelo cálido ambiente oriental. 
(Eduardo Grieg tem umas notas características de 
festa, de alegria communicativa: refiro-me ao com- 
passo n.° 20; são notas parecidissimas com as 
contidas nos compassos dos Dias de Noivado que 
precedem a pagina da cavalgada — comp. 10, una 
corda). 

A Dança de Anitra deve ser tocada em sur- 
dina; ns notas levemente feridas que se ouçam 
límpidas, marcadas e rythmicas. Segue-se um 
canto repassado de melancholia que novamente 
deriva nas phrases características do principio, 
tecidas em diversos tons. 

Peer Gynt segue com o olhar Anitra que 
dança. Peer chama-a para junto de si e diz que- 
rel-a fazer entrar no seu paraizo. Mas Anitra não 
tem alma. O Propheta concede-lh’a; ella todavia 
prefere a opala que lhe brilha no turbante. Peer 
Gynt dá-lhe a joia com enthusiasmo — Anitra! 
Verdadeira filha de Eva! Soffro o teu magnético 
encanto. Sim, porque eu sou um homem, apesar 
de tudo, e como diz um apreciado auctor, «o 
eterno feminino attrahe-me» . . . 



IBSEN E GRIEG 



73 



Anitra foge, afinal, um dia porque Peer, o 
Propheta, perdera o seu aspecto de sacerdote 
para se transformar no homem que era! 

O heroe continua a vida de sempre e mais tarde, 
fatigado, recolhe á patria donde partira. 

Peer Gynt descobre da amurada do navio que 
o traz terras suas conhecidas. Esta scena é uma 
das mais bellas do poema. Peer falando com o 
capitão, pretende dar o pouco dinheiro que lhe 
resta á equipagem. O capitão agradece, dizendo 
que quasi todos aquelles marinheiros são pobres 
e têm mulheres e filhos a sustentar. 

Peer Gynt, o isolado de sempre e tão abando- 
nado agora, inveja os felizes que vão encontrar 
o seu lar animado pelos sorrisos auroraes das 
creanças, acarinhados pelos abraços das mulheres 
que os esperam! 

Como o aventureiro ambicionaria ter alguém 
á sua espera! 

Peer Gynt interroga com insistência o capitão: 
o que se passará á chegada dos marinheiros? 
Terão luz sobre a meza? Agrupar-se-hão á volta 
da lareira? E neste momento Peer encolerisa-se: 
pois havia de dar o seu ouro para os outros que 
têm a felicidade á sua espera? 

Começa a tempestade. O ceu escurece e a 
bordo accendem-se luzes. Nuvens espessas pas- 
sam no ar. O navio açoitado pelas ondas põe em 
sobresalto os homens do mar; só Peer Gynt pa- 
rece olhar cynica e impavidamente o proximo 



74 



CHONICAS D’ARTE 



naufragio. Um vulto desconhecido apparece e fa- 
la-lhe na morte; pergunta Peer quem elle é e nin- 
guém sabe responder. 

Esta apparição atemorisa-o. O mysterioso per- 
sonagem pedia-lhe o seu cadaver para experiên- 
cias scientificas; queria conhecer a região onde se 
localisa o sonho! 

O navio bate fortemente num rochedo e afun- 
da-se nas aguas tumultuosas. 

A Tempestade de Grieg descreve esta gran- 
diosa scena do poema: os sons ligam-se e con- 
fundem-se numa extraordinária intensificação dra- 
matica; atravez de todo o trecho passa uma phrase 
musical predominante, phrase esta interrompida 
por corridas precipitadas e fortes de notas; é o 
murulho do mar revolto confundido com o rugido 
do trovão; algumas notas, tal é o seu brilho, lem- 
bram scintillações a cruzar-se no ceu brumoso. 
Os últimos compassos são accordes de paz: Peer 
Gynt vê a ambicionada patria! 

Salvo do naufragio, onde algumas vidas lhe 
pediram inultimente auxilio, o aventureiro procura 
a terra onde nascera. 

Num cemiterio entre montanhas, Peer ass ; ste 
ao enterro dum homem obscuro durante toda a 
sua vida, mas que teve a qualidade de ser de si 
mesmo. 

O sacerdote que o acompanhou á cova frizava 
estas palavras, e Peer teve a impressão que o 
morto era um seu alter-ego! 



1BSEN E GRIEG 



75 



As vidas quasi que se igualavam! Peer Gynt 
sentia-se agora um justo: «o velho Peer Gynt não 
seguirá menos o seu proprio caminho e ficará 
sempre o que é: pobre, mas honesto.» Voltando 
á patria, Peer, ouviu contar historias a seu 
respeito: todos citavam passagens da sua vida 
exagerada pela phantasia da lenda. Julgavam-no 
morto em África! Peer affirmava existir ainda, e 
nesta mesma scena conta uma historia interes- 
sante dum caso que succedeu em S. Francisco 
da Califórnia: o diabo apresentara-se em publico, 
occultando sob os trajes de saltimbanco um au- 
thentico porco. Depois de exibir a sua falsa habi- 
lidade, começaram os espectadores a discutir o 
grunhido do suino. 

Achavam-no artificial! 

Peer Gynt retira-se e a multidão conserva-se 
pasmada num inquieto silencio. 

O aventureiro caminha pelo bosque e pára 
deante duma cabana. A voz de Solveig entoa de 
dentro uma canção de esperança: «esperarei fiel, 
o meu querido amo». 

Peer Gynt foge! Nasce a noite: vê-se uma cla- 
reira de arvores devastadas pelo incêndio; mais 
álem troncos calcinados. Peer Gynt atravessa a 
correr a clareira. Vozes occultas falam-lhe de to- 
dos os lados. Os novelos de pensamentos rolam 
aos seus pés; depois as folhas seccas, palavras do 
velho mysterio, cahem também; suspiros passam 
no ar, canções inexprimíveis que o amaldiçoam; 



76 



CHRONICAS D’ARTE 



gottas de orvalho despedindo-se dos ramos a sym- 
bolisar lagrimas que não foram choradas; hastes 
seccas de palha significando actos sonhados mas 
não realisados pelo homem sem fé e enregelado 
pelo frio da duvida. De muito longe ouve-se a 
voz de Aase maldizendo o filho e Peer Gynt, 
horrorisado, ante as sombras dos remorsos, foge 
e occulta-se. Figuras passadas reapparecem-lhe: 
o velho Dovre surge, mas já decadente e apa- 
gado. Peer Gynt, no seu bom humor, diz-lhe que 
vae escrever uma farça ao mesmo tempo profunda 
e alegre com o titulo Sic transit gloria mundi. 
Debalde se lhe offerece um fundidor para o der- 
reter e moldar de novo: Peer quer viver ainda 
como tem vivido até ahi; todavia numa próxima 
encruzilhada promette entregar-se. O aventureiro 
trava depois conversa com a pessoa magra , sym- 
bolisação do sacerdote salvador de almas. A pes- 
soa magra apresenta a Peer Gynt uma compara- 
ção interessante baseada nas provas negativa e 
positiva da photographia; assim nas almas: ha 
muitas negativas mas que por meio de reagentes 
e outras substancias se transformam em positivas. 
Se a imagem está quasi apagada, diz a pessoa 
magra a Peer, como a tua, nada, neste caso serve 
para a tornar positiva. 

De novo se lhe depara o fundidor que vem 
reclamar o seu corpo, mas Peer Gynt affasta-se e 
vae para junto da cabana de Solveig que o espera 
anciosa! «Oh tu que da minha vida fizeste um 



IBSEN E GRIEG 



77 



canto de amor!» Existiu sempre a imagem que- 
rida na sua fé, na sua esperança e no seu amor 
e o velho aventureiro volta-se em extase, illu- 
minado: 

«Minha mãe! minha esposa! Oh Virgem sem 
mácula! Occulta-me, occulta-me no teu seio!» 

Peer Gynt encosta a cabeça coberta de cans 
ao collo arquejante de Solveig. O sol levanta-se 
a inundar tudo de luz. Solveig canta-lhe para 
adormecer. 

Eduardo Grieg traduziu em musica esta huma- 
nissima passagem do drama: as notas desenham 
um embalar dulcisono 



Dorme em paz meu filhinho 
Vou-te embalar docemente 



A creança encostou a cabeça fatigada 
Sobre o meu coração. Assim a vida passou. 



Ouve-se de novo o fundidor: 
«Encontrar-nos-hemos na próxima encruzi- 
lhada, Peer, . . . 

Solveig canta mais alto ainda, banhada de 
sol, embalando Peer Gynt sobre o coração que 
repousa sonhando! Como os sons significam cari- 
cias e beijos! Ha o afago das mãos engelhadi- 



78 



CHRONICAS D’ARTE 



nhas de Solveig sobre as barbas prateadas de 
Gynt. A canção extingue-se e ficam os dois a 
sonhar!... Amor! Sol que vivificas e que ennobre- 
ces! Como elle, illuminando, fez resurgir deante de 
Peer a sua maior Saudade. Saudade, essencia 
condensada no corpinho frágil de Solveig! 



Coimbra — 912. 



MANUEL LARANJEIRA 



Q uasi ninguém já se lembrará, decerto, neste 
momento em que escrevo, d’essa soífredora 
figura de poeta que foi Manuel Laranjeira. Pou- 
cas vidas tiveram como a d’elle um tão trágico 
fim: no suicidio buscára uma ultima affirmação 
de vitalidade, imprimindo n’um sanguinolento 
arranco ao seu ultimo momento a pouca e toda 
energia que lhe restava do combate que, durante 
uma existência martyrisante, travára com o des- 
tino. Não foi creatura que passivamente olhasse 
a injustiça, mas um revoltado que sempre quanto 
podia procurava espalhar uma doutrina santa de 
fraternidade sonhada pelo seu espirito ingénuo. 
Pouco a pouco a desillusão tremenda foi sali- 
trando, destruindo o que a alma idealisára, e uma 
tristeza começara de ennegrecer-lhe tudo: 



«Pobre alma desiiludida 
teu mal é não esquecer 
que tudo falha na vida . . .» 



80 



CHRONICAS D’ARTE 



O poeta foi vivendo a morte 

«como aquella folha verde 
que a ventania arrastou, 

— vai sem destino e se perde. 



Manuel Laranjeira, nos seus últimos tempos, 
era o isolado que só comsigo falava, que ouvia á 
sua própria alma os lamentos sentidos de uma 
cruciantissima dôr que o definhava na lenta ago- 
nia da desesperança! O pessimismo havia de fa- 
talmente inspirar as suas ultimas palavras tecidas 
no rythmo litanico dos seus versos amargurados. 
A leitura do Commigo communica-nos a expres- 
são agonica com que fôra escripto, e a sensibili- 
dade acurada d’um artista não poderá fugir, ao 
lêl-o, de soffrer também a oppressão da vida sen- 
tida pelo poeta: 



«Só se vive de illusão: 
a verdade é venenosa, 
envenena o coração. 

E, se a vida nunca dá 
quanto o desejo lhe pede, 
p’ra que viver? não será 
bem melhor morrer á sede?» 

Encarada assim a existência, sem um balsamo 
a suavisal-a, Manuel Laranjeira com o espirito 
mergulhado na treva torturava-se, soffria uma 



MANUEL LARANGEIRA 



81 



constante crispação dolorosa, de ingente isola- 
mento, por se tornar o incomprehendido da maior 
parte que ria! A doçura d’essa tarde que elle nos 
descreve é de uma melancholia venenosa: ha uma 
luz de cinza pelo espaço a envolver as coisas de 
um tom fuhereo. A dôr nascida bem no fundo 
da alma vai subindo 

«aos olhos que a reflectem, reflectindo 
na nossa dôr a dôr de todo o mundo». 

E o poeta conhece que é de si proprio, do 
seu temperamento abatido e gasto pela irrealisa- 
ção do sonho, que o mundo assim lhe apparece 
occulto por pesado negrume de nuvens brumosas: 

«Sim, nós! quem soffre e chora, somos nós! 
um chôro de cobardes e vencidos, 
n’essa hora de sombra em que, tranzidos, 
olhamos em redor . . . e estamos sós!» 

O desanimo dita a tristeza de viver: 

Mas ess’hora suprema em que se vive 
quanto possa sonhar-se de ventura, 
oh vida mentirosa, oh vida impura, 
esperei-a, esperei-a, e nunca a tive! 

Procurava reagir, luctar contra si proprio, fa- 
zer nascer uma nova aspiração de amor que tor- 
nasse a vida alegre, povoada de esperanças, mas 

esta força de vontade, este desejo de realisar, 

6 



82 



CHRONICAS D’ARTE 



esmaeciam, diluídos na dor que era maior e 
dominava mais. E exausto accusa-se de não ter 
sabido viver. 



E a Vida passa, e a Morte 
é que responde em vez d’ella : 

Mas que culpa tem a vida 
de não saberem vivel-a? 

Pisando a senda escura que sempre deante de 
si os olhos avistavam, o poeta, a soluçar, lá se ia 
encaminhando, entrevadinho da alma, ancioso 
por chegar ao fim que a sua sybillina voz deixava 
presentir, . . . e incomprehendido dizia no Dialogo 
com um phantasma: 

Agora que tu amas, é que a vida 
te dirá como é van e aborrecida, 
sem ninguém que nos possa comprehender . . . 

A febre visionaria fizera surgir a illusão; ho- 
ras de delirio que rapidamente passaram ao des- 
engano terrível do irrealisavel! 

Ser desamado custa; mas peor 
é sempre o desengano . . . 

A alma tem de abandonar o que desejava 
n’uma renuncia de vencida, pelo isolamento a 
que a condemnaram cruelmente. Pouco sentida 
pelos outros, ella ambicionava ascender para as 
regiões mais puras, e erguer-se muito alto como 
as aguias dominadoras e fortes que altivamente 



MANUEL LARANGEIRA 



83 



olham da immensidade azul! Faltava-lhe esse ru- 
tilo brilhante facetado por onde os olhos costu- 
mam ver a vida irisada de cores; esse prisma en- 
cantado que (põe nas coisas a phantasia da Visão 
e faz erguer um conceito feliz do mundo. 

Alquebrado, de olhos mortiços, o poeta inve- 
java já e abençoava ao mesmo tempo rezando 
uma prece desesperada e triste: 

Bemdita seja a illusão, 
e bemaventurados ... os que crêm n’ella. 



E eis aqui por que sou tão desgraçado: 

— porque não posso amar nem posso crer . . . 

Que remedio senão desesperar, 

se tudo quanto existe é imperfeito? 

Descança coração insatisfeito! 

Dormi olhos cançados de velar 

. . . e a vida é triste, 

porque é feita de sonhos desmanchados. 

O poeta ergue ainda as mãos, agita-as pelo 
espaço em busca de astros que irradiem e jorrem 
esperanças, mas os braços caem esfalfados. Tudo 
escurece e a alma já não procura as estrellas: co- 
meça a vêr a morte em phantastica attitude: 

Em tudo vejo a morte ! 



E não me assusta a morte! Sô me assusta 
ter tido tanta fé na vida injusta 
. . . e não saber sequer p’ra que a vivi! . . . 



84 



CHRONICAS D’ARTE 



São estas as ultimas palavras dos versos de um 
solitário! Dias depois de eu as lêr, uma tragica 
noticia viera ferir o coração de todos: Manuel 
Laranjeira aniquilára a sua vida que o destino já 
tinha condemnado . . . 

Ao lado do seu livro appareceu ao mesmo 
tempo um outro illuminado de fé e dedicado 
áquelles que sabem e querem amar o futuro: o 
Anteu do poeta João de Barros, a alma alegre 
que ha annos escrevera, n'uma ideação feliz, cheia 
de luz — a Terra florida. 

Manuel Laranjeira nunca dissera estas pala- 
vras como o poeta do Anteu disse: 

E as horas correm, tão vertiginosas, 

Que mal as vemos, no seu turbilhão. 

Umas dão sonho. N’outras nascem rosas. 

Sonhos e rosas — porque nascerão? 

Como a volúpia incerta que tu gosas 

Deixam saudades só, meu coração. 

O poeta do Commígo sonhára com um cami- 
nho interminável. Os homens passavam por elle 
como sombras silenciosas. Foi também na cara- 
vana lastimosa em busca da Terra da Promissão. 
Em vão, perdido, interrogou as sombras dos ho- 
mens! 

. . . Caminhava para um deserto arido, sem 
miragens, sequer, a povoal-o. 



Coimbra— 912. 



O ORPHEON ACADÊMICO DO PORTO 



Je me sens pris cTamour pour tout ce que je vois. 
L’art, c’est de Ia tendresse. 



(Les vers d’un philosophe, Guyau). 



ma crescente actividade artística gerada na as- 
^ piração generosa da gente nova, vae con- 
tribuir poderosamente para realçar e vincar mais 
fundo os traços predominantes que distinguem o 
nosso temperamento, que caracterisam as suas 
qualidades emotivas e creadoras, fazendo assim 
uma obra de grande alcance digna de registo 
n’este periodo de reconstrucção por que se passa 
presentemente. 

Será esta crescente actividade a reacção forte 
e decisiva contra esse mal-estar oppressivo, que 
traz lamentavelmente comsigo a dizimação de 
energias e a sua morte, obstando a que sejamos 
envolvidos de um torpor ou quasi anemia mental, 
prenuncio de agonia ou de desapparição. Envol- 



86 



CHRONICAS D’ARTE 



vidos na mesma ancia de viver, os espiritos de 
acção congregam á sua volta forças que dia a dia 
vão augmentando e contribuindo para a effectua- 
ção do desejo por elles formado. 

Na propaganda de paz que comsigo levam, 
arrastam a multidão, fazem-n’a compartilhar nes- 
sas esperanças que alimentam e insuflam vigor e 
desejo de viver. A era nova tem o seu inicio 
agora em que, inconscientemente, sem sequer se 
presentir, começam a desabrochar para a luz von- 
tades que insistentemente querem realisar alguma 
cousa de destacável, que se imponha e cale as 
imprecações e os lamentos dos desesperados. 

Apontar, mesmo ao de leve, o que se tem feito 
seria difficil; encarar pois, ainda que esboçada- 
mente, alguns aspectos d’essa energia constru- 
ctiva, tal o fim das palavras do breve artigo critico 
que escrevo. 



* 



A litteratura e a musica serão os dois aspectos 
preferidos. A notável geração dos poetas que hoje 
Portugal possue é de per si bastante para cara- 
cterisar um momento artístico de excepcional va- 
lor; é n’ella que fundamentalmente se deve filiar 
a renascença da alma lusitana, é d’ella que parte 
a iniciativa audaz de, perante insuperáveis obstá- 
culos, caminhar, caminhar sempre no impeto he- 



O ORPHEON ACADÊMICO DO PORTO 



87 



roico de vencer. Os poetas da terra portugueza, 
auscultando o coração da raça, communicam-nos 
a expressiva e grandiosa impressão do que n’ella 
intensamente vibra e tumultua: os coloridos scin- 
tillantes da paizagem, a soberania prometheica 
das montanhas, o marulhar dos rios, o cachoar 
limpido e cristalino das fontes; ambição de almas, 
conceitos metaphysicos do mundo, visõe sinteriores, 
incertezas, preconceitos e superstições— tudo isto 
os poetas vêm e transmittem, coado pelos mais 
diversos prismas correspondentes aos modos sub- 
jectivos de aperceber. 

È o aspecto principal do nosso ethos: o poé- 
tico; é aquelle em que o temperamento lusitano 
mais cria e mais produz; a distincção é notável e 
impõe-se como conclusão esthetica a nosso res- 
peito formulada. 

O povo começou a ser olhado, de ha muitos 
annos para cá, por uma fórma bem diversa da 
de então: foi o artista de sensibilidade acurada 
que principiou a distinguir ângulos dominantes e, 
n’um rápido relance, intelligente e perscrutador, 
desbanca um obsolêto conceito para erguer outro 
bem differente e bem mais elevado. Era a fluên- 
cia democrática que fazia voltar a analyse para 
o que até ali passára desconhecido e imperce- 
ptível. A poesia popular, rythmada nas suas 
trovas, profunda nos adagios que dita, cantante 
nas imagens que a povoam, não merecia da 
parte, principalmente d’aquelles que pretendiam 



88 



CHRONICAS D’ARTE 



escrever paginas sãs, bem nossas, o esqueci- 
mento. Os poetas, n’um hymno pantheista, cele- 
braram a terra, os symbolos que os filhos d’ella 
consideravam, os utensílios caseiros do lar sim- 
ples onde passa a vida pura da familia. Não é o 
snobismo exageradameute requintado a cantar as 
pastorinhas e os seus amores, é um sentir muito 
sentido, muito profundo e muito intimo; é esse 
sentir que o «Auto das Quatro Estações», o «Pão 
e as Rosas» e o «Luar de Janeiro» delicadamente 
traduzem. Gostaria de falar demoradamente no 
poema «Marános», de Teixeira de Pascoaes, para 
mostrar quanto este poeta pretendeu imbuir-se do 
espirito da raça, mas limitar-me-hei á simples cita- 
ção do seu grande nome. 

Os músicos, principalmente os críticos, come- 
çaram de analysar o importante folk-lore portu- 
guez e d’esta observação, a principio pouco cui- 
dada, conclusões resultaram valiosissimas. 

A canção, nos seus variados estylos, desde o 
do litoral, embalante como a vaga, até ao do inte- 
rior, exprimindo a paizagem característica onde 
nasceu, foi também ouvida n’um sentido assom- 
bro, e eis poetas e músicos encantados com a 
ingenuidade das melodias populares: accorreram 
a escutal-as. Colhido o modo intimo de ser, come- 
çam sobre os seus themas a crear, e surge uma 
nova fórma moldada na ethnica que em pouco ou 
nada, afinal, se distingue d’ella. 

Inicia-se em Lisboa a «Canção portugueza»; 



O ORPHEON ACADÊMICO DO PORTO 



89 



os nossos compositores e poetas collaboram n’ella ; 
é uma tentativa por emquanto, mas digna de re- 
paro pela importância que reveste. O «Canto in- 
fantil», de Tomaz Borba e Affonso Lopes Vieira, 
apresenta-se-nos também, em algumas das suas 
composições, como factor registavel no movimento 
que aponto. 

Não são pequenos grupos coraes os que de- 
vem, a meu vêr, interpretar a Canção portugueza; 
este papel deve-se reservar para os orpheons. 
Estes realçarão com a sua potencialidade de som 
a belleza da musica; darão os effeitos desejados; 
impôr-se-hão pela solemnidade do numero, po- 
der-se-hão ouvir nos grandes recintos; e n’esta 
qualidade insisto para que ás audições assista o 
povo, orgulhado de ouvir ou vêr alli a sua inspi- 
ração cantada. 

Nenhum orpheon, porém, até agora teve a ori- 
ginalidade de interpretar sómente canções portu- 
guezas; só parcialmente o grande grupo coral de 
Coimbra realisou esta ideia. É o Porto que n’este 
momento procura levar a effeito a obra completa. 
Um núcleo de estudantes lançou as bases do Or- 
pheon Acadêmico e convidou para a dirigir o 
compositor Fernando Moutinho. A este artista se 
deve a originalidade que vae revestir este grupo 
coral: apenas a canção portugueza será entoada 
pelas duzentas vozes que o formam. 

Surge d’esta maneira o verdadeiro Orpheon 
Nacional, cantando apenas o que os nossos com- 



90 



CHONICAS D’ARTE 



positores escreverem, inspirados também em escri- 
ptores portuguezes. 

Os músicos Oscar da Silva, João Arroio, Luiz 
Costa, Dubini e outros deram já a sua adhesão. 
Os poetas Affonso Lopes Vieira, Correia d’01i- 
veira, Antonio de Monforte, etc., enviaram versos. 

As bases estão lançadas por um temperamento 
cheio de tenacidade e de talento: oxalá que a 
volubilidade tão vulgar nos rapazes se extinga, 
para dar logar ao cumprimento d’uma missão tão 
elevada como esta. Elles já se reuniram e este 
facto é já uma grande esperança a sentir. 

A arte precisa de um élo formado pela solida- 
riedade de consciências que a comprehendam e 
realisem: uma radicada cenesthesia propulsora 
que anime e espalhe um evangelho de luz. 

O bello, sendo a fórma superior do sentimento 
da vida, merece a religião intensa, o fervor mys- 
tico, apaixonado dos espíritos. 



Coimbra — 912. 




A PROPOSITO DAS DANÇAS GREGAS 
DE NAPIERKOWSKA 



ias antigas florestas da Phrygia ouvem-se echos 
^ do ultimo sacrifício. Resuscitam aos meus 
olhos essas figuras immensamente tragicas, arras- 
tando-se, na agonia, pelo chão marchetado de 
gottas de sangue. Almas exasperadas procuram 
o intimo da terra, e na loucura visionaria dos úl- 
timos momentos erguem á deusa fatídica da treva 
uma hossana heroica. O enthusiasmo da morte é o 
prenuncio da iniciação! 

Réa Kibele sente em volta do seu altar o ru- 
mor das danças. Rondas loucas voltejam illumi- 
nadas pelo fogo dos archotes . . . 

Era assim um dos cultos antigos, e a contras- 
tar com elle apparece-nos a religião de Zeus, im- 
pregnada de uma elevadíssima arte, trazendo com- 
sigo elementos antagônicos que pelos extremos se 
ligam para a realisação esthetica. Escusado será 



92 



CHRONICAS D’ARTE 



aqui desenvolver a admiravel concepção de Nietz- 
sche a este respeito, por ser demais conhecida. 

A arte hellenica é a que mais traduz a fórma: 
a plastica tem o rythmo a acompanhal-a sempre, e 
d’esta união intima surgem obras de incomparável 
belleza animica. Praxiteles, Scopas e Lysippo dão- 
nos a expressão da alma grega, do instincto apol- 
lineo que n’ella vivia. A tragédia com Eschylo, 
Sophocles e Euripedes diz-nos o que é o mysterio 
religioso que pairava sròbre tudo, e o mytho d’este 
mysterio viveu no symbolo Dionysos. 

Estudar a evolução da dança é estudar a evo- 
lução da mimica. Na Grécia os dançarinos come- 
çaram por imitar os animaes e lentamente o ele- 
mento humano principiou de ser adoptado como 
thema favorito: os deuses da vegetação appareciam 
tratados de uma maneira um tanto satyrica. O 
caracter salico das representações predominava. 
Acco, Mormo e Alphito, deusas da fecundidade, sur- 
giram a cada passo como personagens da mimica. 
Os dançarinos, sob a direcção de um chefe, entoa- 
vam em unisono os coros, ao mesmo tempo que 
executavam harmônicos movimentos de conjuncto. 
Dos grupos choregraphicos começavam a desta- 
car-se figuras que chamavam a si toda a funcção 
mimica, livre de regras impostas, mantendo toda- 
via a exigida eurythmia. 

Dançarinos profissionaes vieram demonstrar 
depois que taes danças deixaram de ter o caracter 
exclusivamente religioso que no principio assumi- 



AS DANÇAS DE NAPIERKOWSKA 



93 



ram. Duas escolas bem differenciadas existiram 
nos séculos VIII e IX antes de Christo: os artistas 
lyricos localisaram-se principalmente nos paizes 
jonicos: lembravam os errantes rhapsodos. São os 
creadores do mimo versificado e cantado — mimo- 
dia . D’aqui derivam duas especies: a magodia , 
que tratava dos heroes e se cantava acompanhada 
de cymbalos e timbales, e a hilarodia , notável pela 
admiravel caricatura que traçava dos personagens 
mythologicos. 

Como transição da escola jónica para a dorica 
apparece a jonicologia, de inspiração lúbrica, 
misto de prosa e verso, metade cantada e metade 
falada. 

A escola dorica é essencialmente dramatica, 
constituindo a logomimica , com uma feição etho- 
logica por vezes. Na Grécia a orchestica reali- 
sou o equilibrio entre a dança e a musica. Os 
movimentos e os sons na sua harmoniosa juncção 
fazem da dança uma arte puramente synesthesica 
Para a definir lembrarei o que a seu respeito disse 
Theofilo Gautier: a dança é uma musica que se vê! 
Citarei aqui algumas palavras de Felix Le Dantec: 
«quando executamos gestos, sentimos o que exe- 
cutamos. Dá-se nos centros nervosos uma repre- 
sentação dos nossos movimentos pessoaes. Pierre 
Bonnier deu o nome de sentido das attitudes se- 
gmentares á faculdade que nos permitte conhecer 
em cada momento as disposições relativas dos 
segmentos moveis no nosso corpo. Justifica-se 



94 



CHRONICAS D’ARTE 



assim a sequencia lógica das attitudes acadêmi- 
cas. 

É curiosa a these de Udine: toda a melodia 
é uma serie de attitudes. Para a demonstrar, o 
grande critico, cita o nome de Jacques-Dalcroze, 
como se sabe, o inventor da gymnastica rythmica. 
Dalcroze, querendo dar aos seu alumnos uma no- 
ção perfeita do solfejo, obriga-os, juntamente com 
a marcação do compasso, á realisação de rythmos 
plásticos, estabelecendo d’esta fórma a intima con- 
nexão dos rythmos musculares e dos rythmos 
musicaes. 

Falei só nas danças gregas não procurando 
traçar a historia da dança: referi-me a um dos 
seus períodos principaes, periodo a que succedeu 
com o christianismo a sua decadência e com a 
renascença o apparecimento do antigo brilho. 
As phases que atravessa depois são inferiores e 
mesmo as que se superiorisam é devido á imita- 
ção hellenica. Ultimamente são grandes os pro- 
gressos realisados com o resurgimento das danças 
gregas e com adaptação das danças orientaes. 
Isadora Duncan, Tereza Cerutti, a notável recons- 
tituidora da Dança bysantina, Rita Saccheto e 
outras são as dançarinas consagradas. A chore- 
graphia russa marca no seu paiz uma phase nota- 
bilíssima, e não esquecerei de falar n’um dos seus 
maiores triumphos, ha annos na Opera, com a 
execução do bailado Giselle pelos artistas Nijinski 
Kassavina e Lopoukhova. O bailado inspira-se 



AS DANÇAS DE NAPIERKOWSKA 



95 



n’uma lenda slava: Giselle é uma aldeã apaixo- 
nada pela dança e que se enamora do príncipe 
Loys, disfarçado em pobre vinhateiro. A princeza 
Mathilde, primeira noiva do príncipe, fala a Gi- 
selle no fatal engano que a perde: louca, a deli- 
rar, dança até cair morta. Loys, desesperado, vem 
desde a primeira noite orar no tumulo da aldeã. 
 imagem de Giselle ergue-se n’uma transparên- 
cia de sonho. Visões brancas surgem ao lado 
d’ella: são as noivas mortas que não puderam 
realisar o ideal! A ronda branca quer arrastar 
Loys para as aguas geladas, mas Giselle salva-o. 
Com a aurora desapparecem os phantasmas da 
saudade! 



Napierkowska esteve entre nós e as suas dan- 
ças gregas causaram em mim um sincero enthu- 
siasmo. O publico na sua irritante indifferença, eu 
julgarei antes falta de cultura ou insensibilidade 
esthetica, não acolheu essa artista como devia. 

A dançarina, envolta n’uma túnica alvíssima e 
cingida amorosamente ao corpo, appareceu n’uma 
attitude divina! O culto da flor foi o motivo da 
dança: erguido o chrysanthemo aos seus olhos o 



96 



CHRONICAS D’ARTE 



corpo alou-se religiosamente para elle e quasi que 
voava tal a leveza dos seus passos rythmicos. Foi 
depois buscar a amphora das libações: voltou-a 
sobre a ara sagrada! 

Napierkowska resurgia uma d’essas figuras 
esculpidas nos tympanos dos templos helleni- 
cos. Era a imagem da Aphrodite divina, cheia de 
magia e de encanto! 



Porto— 912. 




NAPIERKOWSKA 



3 




















O PRAGMATISMO 



Esphynge, symbolo eterno! 



N a philosophia contemporânea nitidamente se 
destaca, como corrente de ideias dominan- 
tes, o systema, dito pragmatista. O pragmatismo, 
com os seus innumeros adeptos, e doutrinas deri- 
vantes, tem, de ha annos para cá, exercido forte 
e decisiva influencia, imbuindo lentameníe os 
campos mais vastos da especulação. Estudar este 
movimento é pôr em relevo um dos mais interes- 
santes aspectos da actualidade, é traçar muito 
principalmente o ethos de uma raça superiorisada 
pela sua energia, pela sua lucta titanica de vencer 
e de se impôr : é na America que o pragmatismo 
nasce. 

Pierce, em 1878, na Popular Science , inicia o 
apostolado, inventando simultaneamente o termo 
adequado ás suas doutrinas, vinte annos mais 
tarde renovadas pelo philosopho psychologo Wil- 
liam James, seguido também por Dewey em Nova 
York, e Schiller em Oxford. 



98 



CHRONICAS D’ARTE 



Procurarei traçar em poucas palavras o systema 
pragmatista, fugindo o mais possivel a considera- 
ções que exigiriam do leitor grande esforço men- 
tal: é pois este meu artigo destinado mais a 
divulgar conhecimentos do que a. discutil-os. 

O pragmatismo, nascido como reacção contra 
a philosophia intellectualista, tira á intelligencia o 
poder do verdadeiro conhecimento objectivo, utili- 
sando-a apenas como instrumento util nas opera- 
ções que procura realisar. Isto é novo? Doutrinas 
antigas já assim nos falavam e o pragmatismo 
reviveu-as com excepcional brilho. As concepções 
praticas do mundo serão as bases onde assentam 
as concepções theoricas. 

Schiller diz-nos claramente o que é o pragma- 
tismo : este consiste em reconhecer absolutamente 
que o caracter finalista da vida mental, em geral, 
deve influenciar e mesmo penetrar as nossas acti- 
vidades cognitivas mais intimas. É um movimento 
que aproveita de Kant a sua razão pratica, que sus- 
tenta os princípios basilares do utilitarismo inglez. 
Achada uma concepção, o pragmatismo pergunta : 
que significa ella para mim? qual a utilidade que 
d’ahi deriva? O falar em pragmatismo é lembrar 
utilidade: que tudo tenha um certo fim — abstrac- 
ções de nada servem. O critério da verdade é 
notável segundo este modo de ver : ella deixa de 
viver sob um critério intellectual ou racional para 
ir viver sob uma philosophia compatível com as 
necessidades e aspirações A verdade é o oppor- 



O PRAGMATISMO 



99 



tuno na nossa maneira de pensar. O verdadeiro é 
o que produz resultados e assim, como dizem os 
anti-pragmatistas, o falso póde ser o verdadeiro, 
critério accentuadamente inspirado no utilitarismo. 

O conceito pessoal ou individual é importan- 
tíssimo para o systema : o homem é a medida das 
coisas — Schiller resurge esta phrase de Protagoras 
estabelecendo o Humanismo. O facto de ligar 
tudo ao indivíduo faz-nos pensar no nominalismo, 
e o desprezo pelas soluções puramente verbaes 
que trazem comsigo polemicas ociosas e abstrac- 
ções conduz-nos ao positivismo levado ao transe: 
as razões praticas inspiram as nossas concepções 
— empirismo radical — experiencia — acção. 

E com a acção apparece implicitamente a pre- 
dominância das nossas preferencias e interesses 
subjectivos a tudo guiar: o temperamento tem 
pois um largo papel a desempenhar — as verdades 
que mais nos convem conhecer são aquellas que 
foram sentidas e vividas antes de serem pensadas. 
Ao pensamento oppõe o pragmatismo a visão 
interior e o sentimento ou a emoção. A fcrça de 
uma ideia tem de exprimir uma verdade interior — 
o poder do eu para se dominar e transformar», e 
daqui surgiu, já com Protagoras, este principio : 
deve ser rejeitado todo o valor intrínseco, toda a 
relação que o pensamento possa estabelecer entre 
as coisas independentemente do homem. A crença 
acompanha a acção e precede a experiencia exterior. 

O pragmatismo sustenta a contingência, e já 



100 



CHRONICAS D’ARTE 



Lotze a affirmava também. Peirce fala-nos no pre- 
domínio universal do acáso e da contingência 
produzindo apparencias de leis que não passam de 
regularidades provisórias. 

Se encararmos uma lei particular qualquer, 
vemos que ella não pode ser senão aproximativa 
(Poincaré — A Sciencia e a Realidade). As formulas 
são sempre, sempre imperfeitas : medidas mais 
precisas devem-se-lhes accrescentar. O enunciado 
de uma lei é sempre incompleto : este enunciado 
deveria comprehender a enumeração de todos os 
antecedentes em virtude dos quaes um conse- 
quente dado houvesse de produzir-se. Deveriamos 
seguir então um methodo : descrever primeiro 
todas as condições da experiencia a effectuar e a 
lei diria: — se todas as condições são satisfeitas 
tal phenomeno terá logar. Se taes e taes condi- 
ções se realisam é provável que tal phenomeno se 
produzirá approximadamente. São nos sempre 
desconhecidas as grandes acções — calculamol-as 
por tendências. «Quando o mesmo antecedente se 
reproduz, o mesmo consequente deve reprodu- 
zir-se egualmente.» Este enunciado deve modifi- 
car-se, visto as circunstancias, sob cuja dependen- 
cia o phenomeno teve logar, não se reproduzirem 
totalmente. Assim deve-se dizer: se um antece- 
dente, A, produziu uma vez um consequente, B, 
um antecedente A' , produzirá um consequente B' 
pouco differente de B. Como regra pratica surge 
o direito de interpolação. O philosopho da Scien- 



O PRAGMATISMO 



101 



cia e Hypothese escreve desta forma: a lei pro- 
curada pode-se representar por uma curva — a 
experiencia tem feito conhecer certos pontos delia. 
Em virtude do principio enunciado por Poincaré, 
estes pontos podem ser ligados por um traço con- 
tinuo. Novas experiencias fornecerão depois novos 
pontos da curva. Se estes pontos se encontrarem 
fóra do primeiro traço teremos de modificar a 
curva, mas não abandonar o nosso principio. Por 
muito numerosos que os pontos sejam pode-se 
sempre fazer passar uma curva continua. É notá- 
vel depois a affirmação do auctor do Calculo das 
Probabilidades. 

Vem com o pragmatismo o agnosticismo já 
sentido por Kant e Spencer: o homem é incapaz 
de comprehender a natureza das coisas, a sua 
natureza ultima. São as primeiras paginas da 
Evolução Creadora de Henri Bergson a dizer: 

«L’essence des choses nous èchappe et nous 
échappera toujours, nous nous mouvons parmi 
des relations, 1’absolu n’est pas de notre ressort, 
arretons-nous devant VInconnaissable . » 

O valor de uma proposição, dizem os pragma- 
tistas, consiste no facto de que ella nos ajuda a 
viver, e citam uma proposição biologicamente util : 
os judeus, por exemplo, escreve um discípulo, 
acreditaram com persistência na vinda do Messias 
libertador. Considerada esta crença biologicamente, 
vê-se que teve uma prodigiosa efficacia porque 
contribuiu para a persistência do typo judaico. 



102 



CHRONICAS D’ARTE 



O pragmatista, tem tão acendradamente vin- 
cada em si a utilidade, que sustenta a acção bené- 
fica dalguns erros uteis á vida, dalgumas illusões 
fecundas pelos resultados que produzem, e con- 
demna verdades que, levadas a effeito, são preju- 
diciaes. 

Fouillée, metaphysico idealista, vibra incisivos 
golpes no pragmatismo que condemna em grande 
parte a lógica, e diz no La Pensée que a verifica- 
ção, apezar da sua apparencia pratica, é essencial- 
mente theorica, feita segundo uma theoría, condu- 
zida por leis ainda por descobrir, e segundo outras 
já formuladas. 

Fouillée sustenta haver um conjuncto de leis 
affirmativas, intelligiveis, verdadeiras, fóra das 
nossas necessidades, e na sua exaltação anti-prag- 
matista diz que o verdadeiro pragmatista não 
passará de um surdo-mudo que, delirante, agitasse 
os braços e as pernas sem saber o que fazia, nem 
porque o fazia. Nestas palavras de Fouillée de- 
duz-se a antipathia pela acção pura liberta de 
todo o conceito anterior formulado pela intelli- 
gencia. 

Um outro ponto, e importante, do pragmatismo 
é a chamada experiencia religiosa, intimamente 
ligada com a philosophia da acção. William James 
sobre o problema religioso utilisa-se, para as suas 
affirmações, de uma vasta documentação biogra- 
phica e auto-biographica. James faz a distincção 
entre a religião pessoal e a estabelecida: esta 



O PRAGMATISMO 



103 



exige theologia e uma organisação ecclesiastica, 
portanto condemnavel. A religião pessoal é um 
derivativo de estados interiores do indivíduo sobre 
a angustia ou imperfeição do homem. 

Sob a experiencia subjectiva funda William 
James a religião, e defende a sua acção util, 
dizendo : a sciencia deu á humanidade a telegra- 
phia, a electricidade, a diagnose e a cura dalgumas 
doenças; a religião dá a certos homens a sereni- 
dade, a paz, a força moral, a cura dos males 
mesmo physicos, rebeldes ao tratamento scientifico; 
ou bem ainda uma fé, um ardor, um enthusiasmo, 
que transformam a personalidade, até no seu 
intimo, e lhe conferem um poder extraordinário 
sobre si e sobre a alma dos outros homens. Wil- 
liam James chega a collocar a experiencia religiosa 
acima da experiencia scientifica. 

William James vem, afinal, a conciliar o methodo 
experimental e as tendências espiritualistas: é o 
estudo da experiencia religiosa e da actividade 
subconsciente um dos pontos mais interessantes 
da doutrina de James. 



Coimbra-912. 



A PROPOSITO DAS « CANÇÕES PORTUGUEZAS» 
DE ERNESTO MAIA 

I 



O lhada a arte popular na sua exuberantissima 
emoção, desde logo concluímos a sua supe- 
rioridade como manifestação estetica do povo que 
a produziu, manifestação directa da alma da raça, 
reveladora das paixões que n’ella intimamente 
vivem acompanhando-a no seu destino. Percebida 
esta, aprofunda-se mais entranhadamente em nós 
o sentimento de patria, apparecem mais vivas as 
aspirações de independencia, radicam-se mais os 
laços de fraternal sympathia entre as creaturas que 
passam a sua existência sob o mesmo ceu. E 
quantos ignoram a belleza delicadíssima d’essa 
arte, inspiração profunda do genio nacional ! 
Ainda ha bem pouco a arte portugueza era quasi 
desconhecida nas suas múltiplas producções, vo- 
tando-se ao esquecimento tudo que com ella se 
prendesse. Competia aos críticos, na sua missão 
de creadores de valores, revelar aos outros o que 



106 



CHRONICAS D’ ARTE 



lamentavelmente era desconhecido ; mas a verdade 
é que a critica e as sciencias de investigação his- 
tórica são de formação relativamente recente entre 
nós, e d’ahi haver uma pobreza de trabalhos que 
procurassem desvendar esses filões sepultos, d’uma 
incalculável riqueza. 

O estudo da feição litteraria teve em Theophilo 
Braga, principalmente, um notável cultor. Apezar 
dos innumeros ataques á sua obra, antes de tudo, 
temos de reconhecer n’ella a originalidade da ini- 
ciativa : rebuscar na tradição simples do povo os 
elementos ethnicos da sua formação e assim apro- 
veitar lendas dispersas, symbolos, allegorias littera- 
rias, traduzidas sobretudo no verso ingênuo e 
simples, para sobre estes alicerces constituir a 
individualidade lusitana. Theophilo soffreu grandes 
reparos pelas conclusões arrojadas que formulava 
e sem desanimar, sustentando polemicas intermi- 
náveis, foi caminhando sempre, podendo-se dizer 
que a historia da litteratura portugueza se hoje 
existe deve muitíssimo a este espirito incansável. O 
problema foi lançado e bastaria isto para se reco- 
nhecer a superioridade de quem o formulou. Em 
quasi todos os seus livros Theophilo Braga apre- 
senta-nos preciosas indicações sobre a poesia do 
povo, citando exemplos de um incomparável en- 
canto que servem para realçar a ideação que os 
ditou. O Cancioneiro encontrou n’elle um cari- 
nhoso colleccionador que eruditamente ia acumu- 
lando trovas dispersas para as citar integralmente 



A PROPOSITO DAS «CANÇÕES PORTUGUEZAS* 



107 



na sua obra. O trabalho principal está feito, e 
agora resta comprovar as deducções que d’elle 
derivaram, deducções que hão-de ser profunda- 
mente discutidas por creaturas que, como o seu 
auctor, tenham consciência do que sabem. 

Quem pretender estudar a musica popular 
portugueza tem de forçosamente iniciar essa ana- 
lyse pela nossa litteratura : é uma fonte abundante 
que traz comsigo preciosíssimos elementos. Des- 
taca-se a formação da lenda, a sua filiação ethnica, 
o verso que a estylisou, e por fim a musica delica- 
damente bordada sobre ella. A poesia amorosa 
faz nascer uma melodia de linhas simples, límpida, 
que corre de bocca em bocca, entoada com a 
mesma emoção apaixonada. O temperamento 
affectivo, meridional do povo, tem iVesses poemas 
de inéditas revelações o que a sua alma de mais 
elevado possue. Lido, o verso sugere immediata- 
mente a musica no tom triste e elegíaco que 
quasi sempre nas quadras predomina. São cora- 
ções que supplicam, que tecem uma endeixa toda 
envolvida de lirial pureza, que cantam uma prece 
satisfeita. E a paizagem transmitte impressões 
fortes e tão indeleveis que a arte tem de se sugei- 
tar á sua influencia poderosa, e não ha melhor 
traductora d’esse regionalismo que a musica po- 
pular. A canção da montanha differe da canção da 
planície. Na primeira reflectem-se contrastes; a 
sua linha melódica segue vigorosa, cheia de alento. 
Na segunda o canto é repassado de tristeza e de 



108 



CHRONICAS D’ ARTE 



dolência, dando toda a impressão dos aspectos 
melancholicos da região onde se entoa. Não quero 
com isto affirmar a alegria da canção que nasce 
na montanha : não, quasi toda a canção portugueza 
é nostálgica, envolvida de saudade. Vive n’ella o 
sentimento da ausência, a magua carinhosa d’uma 
aspiração eterna e irrealisada : 



«Tens nos lábios o beijo que se chora, 
E a lagrima infinita que se beija 
Nos olhos . . . 



És o Estigma da Raça, seu perfeito 
E limpido Signal de Santidade . . . 



Ó Saudade ! Ó Saudade ! Ó Virgem Mãi, 

Que sobre a terra santa portugueza, 

Conceberás isenta de pecado, 

O Cristo da Esperança e da Belleza!» 

Marános — Teixeira de Pascoaes. 



Estes versos eternisam a attitude do portuguez 
ao olhar e ao sentir a paizagem do seu paiz: 
choupos erguidos sob o luar murmurando noctur- 
nos, montanhas extasiadas pela luz mysteriosa dos 
crepúsculos, rios de sonho passando para o 
mar . . . 



A PROPOSITO DAS «CANÇÕES PORTUGUEZAS: 



109 



II 



Falando da canção portugueza, lembro-me 
sempre das palavras que Antonio Arroyo, o grande 
estheta, lhe dedicou n’uma festa brilhantíssima 
organisada pelo Orpheon Acadêmico de Coim- 
bra. A musica nacional teve n’aquella noite a sua 
glorificação, e todos que a ouviram trouxeram 
dentro do peito um culto entranhado e profundo 
pela arte que tão grandes emoções tinha despertado. 

O conferente, tratando eruditamente do canto 
coral e da sua função social, aconselhou os estu- 
dantes a contribuir cada um de per si para a 
formação do Folklore artístico. De regiões distan- 
tes elles trariam para Coimbra as canções desco- 
nhecidas que, convenientemente tratadas para a 
entoação orpheonica, dariam a mais alta revelação 
da alma da raça : «... a colheita e o inquérito 
devem ser dirigidos pelo critério de que a canção 
popular é a mais immediata e sincera expressão 
da alma dos povos, que é como que o perfume 
ideal que envolve o solo da patria, e que ella deve 
penetrar fundamente as nossas almas para nos 
fazer amar com ternura, de uma fórma superior a 
terra onde nascemos.» A rhapsodia de cantos po- 
pulares portuguezes composta por Antonio Joyce 



110 



CHRONICAS D’ARTE 



foi pouco depois d’estas palavras acolhida com 
um enthusiasmo invulgar. Que grande noite para 
todos nós, alli ligados por uma communhão in- 
tensa ! Recordo com saudades este concerto tão 
intimamente nosso ! Começou pouco a pouco a 
accentuar-se a significação da arte popular: poetas 
e músicos sentiram essa inspiração ignorada de 
tantos, e o culto por ella propagou-se fervorosa- 
mente. 

A acrescentar á iniciativa do Orpheon de Coim- 
bra, notabilíssima na historia da musica portu- 
gueza, vem a ideia de Alexandre d’Azevedo, que, 
auxiliado por espíritos cultos, quiz formar a can- 
ção nacional, filiada directamente na motivação 
popular. Affonso Lopes Vieira, o poeta querido do 
Pão e das Rosas, e o professor do Conservatorio, 
Thomaz Borba, envolveram-se n‘este movimento, 
auxiliando-o com a sua valiosa acção. 

Alexandre d’Azevedo veio a esta cidade e logo 
encontrou um nome que o coadjuvasse : Fernando 
Moutinho, então director do Orpheon Acadêmico do 
Porto, agremiação artística a elie principalmente 
devida. Alexandre d’Azevedo organisou a festa da 
Canção Portugueza no Teatro Sá da Bandeira, em 
que teve como collaboradores o poeta e conferente 
Jayme Cortesão e o Orpheon Acadêmico do Porto. 
Cantaram-se unica e exclusivamente musicas por- 
tuguezas e o exito foi brilhante, como era de 
esperar. A iniciativa, depois d’isto, decahiu muito : 
a canção foi substituída pela cançoneta brejeira e 



A PROPOSITO DAS «CANÇÕES PORTUGUEZAS» 



111 



por outras musicas que nada tinham de portu- 
guezas, verdade se diga. Alguma coisa ficou, que 
foi a ideia, e essa é preciso aproveital-a com os 
esplendidos nomes de que dispomos ainda no 
nosso meio artístico. 

Appareceram agora as Canções Portuguezas, 
do compositor e critico Ernesto. Maia, e sobre 
ellas não podemos deixar de dizer as impressões 
merecidas. Seria imperdoável esquecer este musico 
no movimento que rapidamente esboçamos. Os 
compositores de Lisboa fizeram muito, mas a ideia 
foi mais propriamente aqui lançada e ainda n’um 
momento bastante refractario. Ernesto Maia desde 
1900 que vem trabalhando na introducção de 
cantos portuguezes nas escolas e em todas as 
festas e concertos. A publicação das suas Canções , 
bellamente editada pela casa Eduardo da Fonseca, 
constitue um facto artístico digno de registo n’um 
paiz em que a producção musical se resume a 
quatro ou cinco nomes, excluindo os novos de 
cujas intenções não duvidamos, mas que desco- 
nhecemos quasi inteiramente. 

Ouvimol-as ao proprio auctore algumas cumpre 
caracterisar como sendo de inspiração genuina- 
mente portugueza. Logo no primeiro volume en- 
contramos a Fonte dos Amores, versos de Julio 
Brandão. O musico comprehendeu e sentiu o poeta. 
As notas do principio dão a tristeza do verso : 



« O agua triste não chores 



112 



CHRONICAS D’ARTE 



O pianíssimo com melancolia, o rallentando e 
a interpretação da phrase 



«Ai não soluces tão alto» 



com o crescendo 



« Agua chorosa e romantica» 



são passagens bem portuguezas. A Estrella, ver- 
sos de João de Deus, tocada no seu andamento ex- 
pressivo, já representa uma estylisação da melodia 
simples; e a Primavera, a tres vozes, versos de 
Joaquim de Lemos, tem em si a deliciosa inspira- 
ção dos tercettos antigos. 

No segundo volume destacamos os Dizeres do 
Povo, versos de A. Correia d’01iveira, e a Novella, 
versos de Julio Brandão. Na primeira ha a nostal- 
gia da montanha. Ernesto Maia faz aqui um con- 
traste curioso com o allegretto : 



« Linda a cara é meio dote 
Diz o rifão lisonjeiro . » 



Os Cantares Portuguezes, no seu tom mages- 
toso, merecem também uma referencia especial : é 
uma composição para ser entoada por grandes 
massas coraes. Tem duas expressões que reflectem 



A PROPOSITO DAS «CANÇÕES PORTUGUEZAS» 



113 



o nosso temperamento : a esfusiante de enthu- 
siasmo e a dolente de saudade : 



Doces canções portuguezas, 
Só vós sabeis espelhar 



As ondas do mar salgado 
Ás vezes no seu gemer, 

Lembram o adeus soluçado 
De quem se não torna a vêr. 

(Julio Brandão.) 



Preterimos ás suas canções alegres as canções 
tristes: dão mais a alma do povo. 

A arte popular póde, pois, considerar-se um 
motivo inspirador de primeira plana : d’ella se 
deve partir para a arte mais complexa e requin- 
tada. A canção do povo póde dar origem ao lied 
portuguez, ainda por fazer. Hiller, o auctor do 
Singspiel, Zelter, Mozart, Beethoven e Schubert, 
escreveram phrases admiráveis onde de longe se 
projecta o intimo elevado do povo. 



8 



A OPERA SYMPHONICA 



RICARDO WAGNER 



“Wagner est Dionysos lui même” 
Péladan — (Origine et 
Esthetique de la Tragédie) 



“Und mich ergreift ein lãngst entwõhntes Sehnen 
Nach jenem stillen, ernsten Geisterreich ” 



Was ich besitze seh ich wie im Weiten, 

Und was verschwand, wird mir zu Wirklichkeiten. ” 

Goethe — Fausto — Dedicatória 



U M graiíde espirito do século XVII veiu definir 
claramente a acção expressiva da musica e 
tão superiormente a encarou que os esthetas não 
podem, falando de Wagner, esquecer o seu nome 
como um dos verdadeiros precursores da opera 
symphonica. Este grande espirito que presentiu 



116 



CHRONICAS D’ARTE 



em si esse genio poderoso que mais tarde havia 
de revolucionar o mundo musical foi Cláudio 
Monteverde, auctor do Orpheu e da Ariana. 

As suas ideias sobre arte musical representam 
para aquelle tempo profundos golpes na rotina 
seguida; a musica deixava de ser para elle só- 
mente musica, considerando-a um meio de expres- 
são de estados de alma, das suas agitações, dos 
seus desesperos e das suas esperanças. 

A partitura do seu Orpheu legou-nos precio- 
sas indicações relativas á formação da orchestra 
que se devia compor de 36 instrumentos, numero 
extraordinário para a epocha, agrupados methodi- 
camente para determinadas situações ou persona- 
gens. Bastava só este ponto para o nome de 
Monteverde se impôr, mas outros ha que mais 
ainda põem em relevo o significado da sua obra : 
é o emprego do genero concitato que vem alterar 
profundamente o uso dos rythmos sempre regula- 
res e calmos, e, segundo alguns, a creação do 
tremolo para exprimir momentos patheticos de 
indole accentuadamente sentimental. Reformou 
muito a technica musical de construcção, po- 
dendo dizer-se que o systema tonal de hoje foi 
preparado por elle, e que os accordes também fo- 
ram empregados peio seu genio como elementos 
emotivos. 

A analogia entre Monteverde e Wagner é fri- 
zante ; o primeiro já sustentava que a orchestra 
para produzir mais altos effeitos devia estar 



A OPERA SYMPHONICA 



117 



occulta, para não desviar a attenção do publico 
e, sobretudo, para não diminuir, pela sua in- 
tensidade sonora, os papeis das vozes! Wagner 
em Bayreuth teve esta mesma ideia realisada : a 
orchestra ouve-se mysteriosamente : não se vê, 
sente-se. 

Depois Monteverde e Wagner tiveram con- 
cepções estheticas semelhantes que offenderam 
sempre os espíritos tradicionaes dos contempo- 
râneos habituados a certos processos e refractarios 
aos novos que surgissem. Mas nem em tudo 
Monteverde e Wagner são analogos : os tempera- 
mentos dos dois músicos differem essencialmente. 
Emquanto que o primeiro se affastava do symbo- 
lismo o segundo foi d’elle um grande cultor. 
A tragédia para Monteverde tinha de ser essen- 
cialmente humana, despida de allegorias metaphy- 
sicas e de intenções philosophicas, e podemos 
dizer que n’este ponto não desmentiu a patria 
espiritual a que pertencia : os italianos foram sem- 
pre contrários á expressão elevada do sobrenatural 
na musica — vendo a sua tão decantada opera 
tem-se a confirmação d’esta verdade. 

Lulli e Rameau por seu lado constituem pon- 
tos importantes da linha evolutiva que desde 
Cláudio Monteverde tinha sido definitivamente 
começada, mas é claro que estes dois músicos 
estiveram longe de realisar os preceitos estheticos 
do grande artista italiano. Ambos têm a sua arte 
viciada pela exigencia superficial do meio em que 



118 



CHRONICAS D’ARTE 



nasceram, e d’ahi a sua obra representar um de- 
terminado momento traduzindo-lhe os gostos, as 
preferencias, os coquettismos perniciosos e contrá- 
rios a manifestações estheticas perennes. Lulli tem 
paradoxos inadmissíveis nas expressões, ou antes 
nos meios de as traduzir. Nos trechos em que se 
narrava uma angustia, um soffrimento, Lulli em- 
pregava uma phrase musical graciosa, cheia de 
symetria, muito rythmica e antagônica, portanto, 
com o thema litterario que a inspirava. 

Depois, tinha mais de raciocínio do que de 
sentimento o que fatalmente havia de contribuir 
para um mau juizo critico sobre a obra que 
deixou. Rameau, notável theorico, continua o ca- 
minho encetado por Lulli, olhando a musica como 
auxiliar descriptivo de primeira ordem, designan- 
do-lhe quasi que sómente o papel interpretativo 
dos concertos naturaes. Tanto o primeiro como o 
segundo careciam de qualidades próprias para 
realisarem o que a theoria lhes aconselhava a 
realisar: não eram coloristas espontâneos; falta- 
va-lhes esse poder de apprehensão que consiste 
em ouvir a voz das coisas e das creaturas e expri- 
mir depois o que a alma sente n’esses estados 
derivados das sensações recebidas: sensação de 
luz, de côr e de som. Rameau queria ser um 
naturalista mas não o foi por deficiência de qua- 
lidades; queria ser pittoresco e não o foi por lhe 
faltarem nas suas obras requisitos picturaes inten- 
sivos que suggerissem aspectos. Victima de uma 



A OPERA SYMPHONICA 



119 



entonrage que o arrastava para os mais banaes 
caprichos, Rameau teve de ser o seu interprete, 
sacrificando o genio,. sujeitando-o a um papel 
mesquinho. Gluck é o nome que depois de Cláu- 
dio Monteverde mais se destaca pelo caracter 
profundamente passional, sentimental do que dei- 
xou. 

Differe immenso de Lulli e de Rameau que 
estiveram sempre longe de levar a effeito o que 
Gluck conseguiu realisar. O Orpheu tem bellissi- 
mas paginas, repassadas de emoção onde se vêem 
definidas, intenções dramaticas de relevo. Appare- 
cem com elle mais esboçados os motivos conduc- 
tores, esses que Wagner mais tarde havia de 
utilisar ou para a definição plastica, para a repre- 
sentação de protagonistas, ou para a traducção de 
conceitos, de phrases que trouxessem em si fata- 
lismos, sentenças do destino, sentimentos de dôr 
ou alegria . . . Gluck foi com Mozart um dos ini- 
ciadores da ouverture, especie de introducção que 
precede as operas e onde se procura synthetica- 
mente caracterisar a acção. 

A ouverture é uma forma derivada dos pro- 
logos das antigas peças theatraes. Logo que estas 
foram transformadas pela intervenção da musica 
o prologo começou a ser um mixto de declama- 
ção e canto para depois ser sómente musica com 
a ouverture, ultimo e culminante termo da sua 
evolução. 

Inicialmente comprehende-se que os músicos 



120 



CHRONICAS D’ARTE 



não pretendessem satisfazer totalmente as condi- 
ções do antigo prologo, e isto por falta ainda de 
meios proprios. Com a perfeição crescente da 
musica instrumental a introducção começou de 
ter um caracter determinado, synthetico como 
acima dissemos. Ricardo Wagner considera a ou- 
verture da Iphigénie en Aulide a mais perfeita que 
Gluck escreveu, admirando-a pelos traços gran- 
diosos que n’ella exprimem a ideia principal do 
drama. 

N’esta ouverture vivem excellentemente tradu- 
zidos por Gluck dois contrastes que Wagner es- 
pecifica com enthusiasmo. 

Mozart é logo citado a seguir a Gluck. Repre- 
senta já uma phase avançada na historia da opera 
symphonica em relação a Monteverde e a Gluck. 
É um predecessor directo de Weber e de Ricardo 
Wagner. Julien Tiersot, notável critico, vê na 
Zauberflôte, tanto na musica como no poema, nas 
situações e nos caracteres, presentimentos wagne- 
rianos. 

Mozart conhecia perfeitamente a instrumenta- 
ção, sabia tirar d’ella os melhores effeitos sonicos, 
dando d’este modo um alto significado ao que 
compunha. 

Wagner diz: «depois de Gluck foi Mozart o 
primeiro que deu á ouverture o seu verdadeiro 
sentido.» A ideia conductora do drama era tratada 
musicalmente pela mais intensa traducção orches- 
tral. E depois de Mozart vem o grande genio da mu- 




WAGNER 





A OPERA SYMPHONICA 



121 



sica, Beethoven, que na ouverture da Leonor des- 
envolveu um thema emocionante e humaníssimo : 
«um coração esperando, a olhar a vida illuminada 
de crença . . . depois o mesmo coração desespe- 
rado, cahido inerte na solidão da treva. Nova- 
mente desperta e por um esforço consegue vêr 
outra vez a luz como um prenuncio alegre de 
liberdade». No Fidelio tudo é uma annunciação de 
Ricardo Wagner. Weber constitue com Berlioz a 
intima transição para Wagner. A sua orchestra 
tem colloridos vigorosos, tem sonoridades pode- 
rosíssimas no Freischiitz. Berlioz na Damnation 
du Faust e no Romeu e Julietta avulta como um 
symphonista dramatico de notável mérito. E Ri- 
cardo Wagner vem agora realisar a suprema 
aspiração, a grande tendencia do drama musical. 
Ninguém como elle, áparte o fanatismo religioso 
que pela sua memória tenho, soube escrever mais 
profundamente musica que traduzisse a natureza 
inteira, com os seus conflictos e paixões a desen- 
cadearem-se eternamente. Resumbra da sua obra 
um philosophico conceito da existência que nos 
prende e attrahe. 

As figuras tragicas, profundos symbolos, que 
singram atravez dos seus dramas, incutem-se em 
nós arreigadamente, enclavinham-se na alma que 
as olha, para mais não a deixarem, tão nossas 
ficam, tão intimas . . . 

Wagner foi o supremo realisador da opera 
symphonica. Beethoven previu propheticamente 



122 



CHRONICAS DARTE 



o futuro que estava destinado á musica e previu-o 
escrevendo paginas immorredoiras onde se encon- 
tra a eterna Dôr, a companheira das almas que 
soffrem, a alma-mater do pessimismo fecundo e 
creador. 

Wagner foi o continuador do novo Prometheu. 
O seu genio revolucionário comprehendeu, ape- 
zar de uma dissidência passageira, tudo o que 
Beethoven deixára de espiritualmente grande. 
A obra de Wagner, gerada lentamente, é uma 
ascensão crescente para a Belleza. N’ella tudo 
vive e palpita sob aspectos symbolicos super-hu- 
manos. 

As lendas servem-lhe para a plasticisação da 
vida. Os seus heroes passam uma soturna exis- 
tência. A tétralogia tem esses compassos de gran- 
deza sombria que desde o inicio do primeiro 
drama sibyllinamente annunciam a fatalidade do 
crepúsculo. A sua orchestração poderosamente 
edificante, irmanada com o poema que a fez nas- 
cer, exprime a agonia dos deuses que se extin- 
guem em sombras na memória dos homens. 



No horizonte, onde em noites lugubres as 
silhuetas das Walkyrias caminhavam, vêm-se as 
ruinas da habitação dos heroes mortos esboroa- 
rem-se pouco a pouco. O crepúsculo tinha descido, 



A OPERA SYMPHONICA 



123 



cobrindo depois a noite de escuridão os destroços 
do Walhall. 

Do reino das beatitudes ouve a alma maravi- 
lhada os accordes mysticos do Parsifal. Das altu- 
ras, do infinito azul, os harpejos extasiam. 

«Hõchsten Heiles Wunder! 



21 - 5 - 913 . 















>/• 




NOTAS BIBLIOGRAPHICAS 



NOVA SAPHO 



D 'entre as muitas obras litterarias dos últimos 
tempos uma das mais notáveis, pela eleva- 
díssima arte que revela, é sem duvida este romance 
de Villa-Moura. São paginas escriptas por um 
artistocrata dotado de um poder de ideação eleva- 
díssimo e requintado, paginas que o tornam um 
auctor querido de espíritos eleitos, como o d’elle, 
e só d’estes que bem poucos são mas que tudo 
valem. O romance na litteratura portugueza, aparte 
um ou dois escriptores, encontrava-se n’uma 
decadência manifesta de imitação e de rotina, 
sem feições novas que nos dessem um typo supe- 
rior e destacável, sem doutrina inspirada em cri- 
térios estheticos apreciáveis. 

Villa-Moura traça-nos um perfil invulgar de mu- 
lher, e é sua volta que outros surgem não menos 
dominantes. Maria Peregrina constitue essa obra de 
arte sonhada pela alma d’um profundo poeta que 
vê e sente a vida no que ella tem de mais interio- 
risado, de mais intimo e espiritual. Recordemos 



126 



CHRONICAS D’ARTE 



as paginas lidas e logo de principio se vê um 
talento vigoroso a impôr-se na maneira de des- 
crever a personagem principal : Peregrina é uma 
creatura dotada de uma sensibilidade para as coi- 
sas pequeníssimas, incompatível pelo seu feitio 
extranho com o ambiente banal que a rodeia, e 
d’ahi o violento conflicto com a moral média, bur- 
guezinha e baixa, que ella sustenta arrogante com 
a consciência de si e da ideia que propala aos 
seus admiradores preferidos. A sua vida é na ver- 
dade uma tragédia extranha e o livro que a conta 
é «a teia de sonhos e delírios d’uma grande ar- 
tista desvairando á mercê dos nervos.» «Era pela 
desenvoltura do seu corpo de garça, talhado em 
ambar macio e tostado, a expressão de um povo 
que vive na penumbra um eterno outomno de 
genio triste.» As próprias palavras do escriptor 
dirão o que vale o livro ; d’ahi a minha preferen- 
cia em transcrevel-as. 

Peregrina seguia a obra revolucionaria de Nie- 
tzsche e era n’algum dos seus conceitos que se 
apoiava para definir a vida; o seu amor exotico 
quasi o não revelava, tal a incompatibilidade que 
ella sentia existir entre si e o exterior que não 
vivia a Vida pelo espirito, n’essa «tenção firme de 
Belleza, mas a gosava bestialmente, numa funcção 
vegetativa e rude.» Erguia em culto o dominio do 
vicio, divinisava o amor lésbico e sentia-se dos 
seus ritos a sacerdotiza devotada. Sapho era a 
deusa da sua acariciante sensualidade: n’um poema 



NOTAS B1BLIOGRAPHICAS 



127 



a cantou celebrando o mundo feminino «numa 
demonstração de vicio e de genio». Os seus amo- 
res com Helen são a realisação do seu culto; nas- 
ceram n’um dia em que os os corpos sentiram 
um frémito apaixomado a enlaçal-os. Edgar, o 
lindo adolescente, debalde a amou; era enigmá- 
tica, incompiehensivel: «O que vês é o meu 
avêsso. Não me percebes». «Tenho a cabeça das 
mulheres de Granada — talhada em sombra e so- 
nho: o peito é portuguez; assento o busto no 
torso de Leão, que é do escudo das minhas armas 
e das armas da Península, a bravura do Occidente; 
as minhas azas são o genio judaico — a tara d’uma 
raça, perseguida, que ninguém acceita, que não 
acceita ninguém». Edgar diz-lhe que ha muito se 
procurava, que se perdera a sonhar: — «Os teus 
olhos são como o genio da aventura, reflectem 
amor, lucto, Belleza dolorosa . . . Ahi está a artista, 
uma Raça que vae chorar cantando; recemnascer 
o crepúsculo do grande povo, aquelle que viveu 
madrugadas e vae morrer Poeta, amortalhado 
na sua alma sombra». Julgou-a possuir e a reali- 
dade do engano foi fatal : — «a minha alma é 
doente, não perdoa a tua alegria em possuir-me á 
custa d’um prazer de que eu soffri o avêsso — on- 
das d’um horror que ha-de durar». Peregrina dei- 
xava-o cruelmente entregue a si e ia beijar numa 
lascívia louca o retrato de Helen, aquella que lhe 
dava a h^pérsensibilidade com a belleza plastica 
e androgyna do seu corpo colleante de meiguice. 



128 



CHRONICAS D’ARTE 



Edgar suicida-se pela esphynge perto da Fonte 
onde Peregrina o veiu encontrar. Despede-se di- 
zendo-lhe: <leio as nossas pazes na luz roxa do 
teu sorriso de morto. Parto contente. Adeus!» 
Helen foge-lhe também e a artista começa a sen- 
tir a fatalidade, o pezo da perseguição sobre si. 
Lembra-se desta phrase, a ultima que ouvira a seu 
pae : «Has-de ser como todos os nossos, infeliz». 
O seu brazão tinha a tarjal-o uma linha negra ! 

E soffria quando tudo estava alegre : a sua 
Arte era de todos os soffrimentos o mais volu- 
ptuoso. Não existiam para o seu evangelho crimi- 
nosos mas desgraçados. Procurava uma religião: 
«ando a procurar a minha religião e não encon- 
tro senão farrapos d’ella em credos oppostos». 

Peregrina deixou a Inglaterra e partiu para a 
Grécia. Não se esquecia de Helen, a creatura que 
lhe acceitava as perversões e lhe obedecia aos 
mais exquisitos prazeres : «era um abysmo de ale- 
gria— um côrpo de risos com nervos de sêda». 
Em Athenas ergueu o Templo d’Amor onde com- 
mungava sensualidades com adolescentes, ao som 
das harpas que tocavam o Canto de Sapho. Tudo 
isto passou. O seu temperamento tão unico tinha 
ingenuidades infantis, e nos momentos em que lhe 
passava na alma uma ternura de creança, escrevia 
contos duma simplicidade carinhosa — a Hóstia 
d’oiro : «o Sol que um negro do Senegal perse- 
guia no poente, andando de terra em terra a vêr 
se o colhia para commungar com os da sua tribu 



NOTAS BIBLIOGRAPHICAS 



129 



— caminhando por montes altos quando o sol 
tombava, até que morreu de desespero e sauda- 
des numa terra do Norte, deixando-se matar e en- 
terrar pela neve quando viu que depois de dois 
mezes a linda hóstia não apparecia. No dia se- 
guinte veiu o Sol a sorrir, desenterrando o negro, 
solvendo a neve, envolveu-o num resplendor de 
luz e fez d’elle uma estrella, que ficou no céo a 
velar a sua raça cor de fuligem e muito especial- 
mente aqueíla tribu.» 

Peregrina vem viver para Lisboa onde encontra 
D. Nuno de Villar e Ruy, o Vagabundo, pintor 
que creara uma arte sua, filha do seu tempera- 
mento. O dialogo de Nuno com o Vagabundo é 
notável pela revelação do espirito original do 
artista plástico. 

Peregrina entrega-se a Nuno : ambos vão para 
Viila-Feia, onde a paizagem tem um aspecto trá- 
gico. Passaram dias e Nuno ficou como que sa- 
ciado de Peregrina. A artista veiu para a Figueira 
depois de soffrer amargosas desillusões: só um 
companheiro leal lhe ficava, Monsenhor Andrada, 
um sacerdote que nas suas homilias fora conside- 
rado rebelde pela egreja. Acompanhou Peregrina á 
Figueira para onde também foi um anão comprado 
por ella a uma companhia de zíngaros, quando da 
sua viagem a Athenas. Julgava este gnomo extra- 
vagante, intelligente e velhaco: «não perdoa a 
altura e desenvolvimento dos outros» dizia Pere- 
grina para o caracterisar. A artista sente reflec- 

9 



130 



CHRONICAS DARTE 



tir-se em si a paizagem outomnal, a melancholia 
e o abandono. Vem a tristeza dos últimos tempos, 
e o espirito começa a erguer o culto da Morte. 
Uma carta de Nuno destroe-lhe a ultima esperança. 
Antes do suicidio fala a Monsenhor Andrada do 
seu testamento : entre as suas disposições havia 
uma cheia de belleza e que iria immortalisar a 
memória de Edgar e de Helen — em Coimbra 
edificar-se-hia o Parthenon do Occidente, uma 
escola de arte hellenica com prêmios annuaes para 
os seus mais bellos adolescentes. 

Quer deixar a vida pertendendo envolver o per- 
fil, já de sombra, na mascara de ether. O anão, po- 
rém, vem impedir a morte e conta a Peregrina o 
seu amor por ella e os ciúmes que vingára ma- 
tando Nuno cujo cadaver áquella hora jazia esten- 
dido na praia. A artista vem juntar-se-lhe e abraça 
o seu corpo inanimado e hirto. Uma onda maior 
assoma e leva os dois cingidos num ultimo abraço. 
O anão fica numa attitude sinistra. Ao raiar da 
aurora um marinheiro canta. 



Peregrina deixara um pergaminho que era a 
Elegia da Morte, um poema religioso, uma litania, 
sombria ! 

A Elegia da Morte é a consagração do livro 
de Villa-Moura : trechos de uma indizivel belleza 
que fazem ser o artista que os escreveu um dos 
vultos mais notáveis da litteratura portugueza 
contemporânea. 



O MYTHO TRÁGICO 



DIÓNYSOS 



Quem sabe perceber, lêr o sentido 
Das côres e da luz? da immensidade ? 
Dos symbolos na augusta escuridade 
O segredo das gerações perdido ? 

Visão dos tempos — A Linguagem 
dos Mythos, Theophilo Braga. 



O s oíhos voltam-se andados a interrogal-o e o 
sibyllino espirito debilmente responde aos 
que o sondam. Hora de agonia pareceu soar ha 
muito, hora de saudade em que a meditação 
resurge, em que a alma murmura sentida litania. 
No recolhimento profundo que o silencio gera 
a phantasia leva-nos comsigo, e lá vamos arras- 
tados na attrahente fascinação, vivendo o que 
não existe e que existiu ! Sente-se a revelação do 
segredo hellenico fazendo desfilar ante nós, uma 
a uma, as imagens d’essa religião feita de Arte e 
de Belleza, tecida em maravilhosos rythmos e 
harmonias. Atravez as edades que da Hellada nos 



132 



CHRONICAS D’ARTE 



separam apercebem-se muito a custo no longínquo 
indeciso sombras de Formas erguendo-se aladas 
e levíssimas. Primeiro o olhar mal distingue : uma 
neblina as cobre, mas depois esta desfaz-se em 
ogivados lances unindo-se amorosamente em 
archivoltas brancas. A luz astral, abençoada, inunda 
a terra que parece recebel-a no sensualismo apai- 
xonado de amante que se entrega. 

Fluctuam no ceu azul, claríssimo, as visões, 
carinhosos phantasmas de seres que morreram 
mas que a lembrança faz ressuscitar; lembrança 
viva na alma em extasis, sublimada, embebida no 
delicioso torpôr do encantamento e da vidência. 
E o espirito caminha assim na senda do sonho, 
da revelação do milagre que nem todos vêem, por- 
que nem todos o sentem. Pouco a pouco as ima- 
gens avultam e parecem realidades sendo apenas 
apparencias, mas a illusão é para nós uma certeza 
de momento, rápido momento em que a visão 
existe ... O perfil alvíssimo dos mármores divisa-se 
na sua opulência olympica. A cidade antiga, a 
preferida pelo requinte dos artistas, inundada de 
sol, apparece ao nosso olhar evocador. Tudo des- 
perta entoando o grande cântico a Zeus que da 
acrópole domina na fulgência do culto. A alma 
deslumbrada continua na peregrinação ! . . . 

* 

A mythologia grega encerra em si profundas 
concepções espirituaes, d’um raro symbolismo ; da 




VISÃO ANTIGA 



De Joâo Augusto Ribeiro 






X 



O MYTHO TRÁGICO 



133 



antiguidade ellas ficaram esculpidas para eterna- 
mente lembrar conceitos do mundo formados 
então. Os deuses são ideias tornadas vivas na 
imaginação que se encarnam n’uma forma finita, 
deixando de ser simples allegorias, creações arbi- 
trarias. Tem uma alta significação a sua existência 
que espíritos superficiaes estão muito longe de 
comprehender. O mundo antigo mostra-se para 
muitos simplesmente material. Os mythos são 
olhados como figuras vãs, sem nada mais que a 
eurhythmia das formas a destacar-se ; erradamente 
escreve quem assim os julga. Para combater tal 
apreciação o estheta-philosopho da Origem da 
Tragédia communicou aos que o quizessem lêr o 
segredo do milagre hellenico ; palavras que mere- 
cem ser meditadas religiosamente no silencio de 
noites de intensa lucubração. Nietzsche é o apos- 
tolo do hellenismo, e cital-o é lembrar as paginas 
que traçou a clarividência do seu genio sobre o 
mytho trágico, Diónysos. Merecem ser recordadas 
essas passagens do grande escriptor allemão : nin- 
guém como elle, a não ser Redolfo Steiner, de 
quem falarei depois, comprehendeu melhor o sen- 
tido do mundo pagão. A genese da arte é enca- 
rada sob um ponto de vista originalíssimo, e para 
a mostrarmos seguirei a Origem da Tragédia, obra 
desconhecida para muitos e querida para a mino- 
ria escolhida que a leu e pensou. 

Frederico Nietzsche começa por mostrar o an- 
tagonismo de dois princípios: um apollineo, outro 



134 









dionysiaco. Apesar de antagônicos, o seu conflicto 
eterno gera a obra de arte, uma manifestação 
altíssima de vida. De um lado o dominio do 
sonho onde os homens avistaram pela primeira 
vez os deuses e onde o artista plástico se inspirou 
para representar imagens de creaturas superhuma- 
nas. Do outro o dominio da embriaguez em que 
o homem se sentia divindade, se sentia não o ar- 
tista mas a própria obra d’arte. 

Apollo é o deus da apparencia, a divindade da 
luz, a personificação da serena sabedoria, tendo 
no olhar o brilho do sol. 

Diónysos é a própria alma, é o inconsciente 
creador, é o instincto, é uma emanação transcen- 
dente. Mas d’esta especie de antinomia nascia 
uma grande demonstração esthetica. Eduardo 
Schuré vê n’este conflicto, nas aproximações tem- 
poradas dos dois polos tão oppostos, nos seus 
encontros, a própria historia da alma grega, histo- 
ria que tem as suas epochas marcadas no orphismo 
primitivo, nos mysterios de Elêusis e na tragédia 
de Athenas. Mas não deixemos Nietzsche, trans- 
crevendo-lhe as suas ideias que outros apenas 
com o brilho de estylo reproduzem. Por um mila- 
gre metaphysico da vontade hellenica as duas 
correntes confundem-se dando logar a uma obra 
que participa d’ellas ambas: a tragédia, originada, 
segundo a tradição, no coro trágico. Aqui pergun- 
tar-se-ha como classificar o coro? Como na opi- 
nião de W. Schlegel: o espectador ideal? Como 



O MYTHO TRÁGICO 



135 



na opinião de Schiller: a muralha viva que pro- 
tegia a tragédia de toda ou qualquer profanação 
extranha, natural , terrena? Não o devemos con- 
siderar arbitrariamente ideal, anti-natural, mas 
sim um mundo dotado d’ uma realidade e verosi- 
milhança taes como o Olympo e seus habitantes 
possuiam aos olhos dos hellenos. Nietzsche insiste 
bem sobre a verdade frizante da tragédia, ou antes 
do seu elemento primordial, sustentando que o 
grego civilisado se transformava deante do coro 
dos satyros, que as instituições políticas e a socie- 
dade, em uma palavra, os abysmos que separam 
os homens uns dos outros, desappareciam ante 
um sentimento irresistível que os levava ao estado 
da identifienção primitiva da natureza. Ha então 
duas realidades bem distinctas: uma dionysiaca 
outra a vulgar. A primeira arreigada ao nosso eu: 
é o subconsciente de que nos fala Jastrow; a se- 
gunda é apparente, tem a volubilidade das cir- 
cumstancias e dos diversos momentos. Na Origem 
da Tragédia, Hamlet é admiravelmente comparado 
ao homem dionysiaco, e facilmente se comprehende 
este juizo sobre o vulto talvez mais impressionante 
da obra Shakspeare. O helleno tendo absorvido o 
narcotico que o fazia esquecer a apparencia trans- 
formava-se em satyro, companheiro do deus, va- 
gueando nas montanhas percorrendo as florestas. 
O côro é a imagem reflectida do proprio homem 
dionysiaco. Essa excitação produzida pela embria- 
guez sagrada tinha o poder de communicar á 



136 



CHRONICAS D’ARTE 



multidão esta faculdade artistica de se vêr rodeada 
de uma phalange aerea com a qual se confundia 
e identificava. Demais, o dithyrambo destaca-se de 
qualquer outro côro : as virgens que de ramos de 
loureiro na mão caminham solemnemente para o 
templo de Apollo, cantando hymnos, conservam a 
sua personalidade. Aquelles que entoam o dithy- 
rambico são uns metamorphoseados, e é esta me- 
tamorphose que Nietzsche considera uma condição 
basilar da arte dramatica. As effusões do côro 
dionysiaco vão se traduzir em imagens apollineas. 

É este um dos pontos mais notáveis, segundo 
a minha maneira de vêr, da these de Nietzsche. 
O drama é a representação apollinea de conceitos 
originados n’um estado dionysiaco profundo ; 
n’isto contrasta com a epopeia, pura manifestação 
apollinea. No principio, na génese da tragédia, 
Diónysos é o centro da acção ; se não existe real- 
mente suppõe-se-lhe a presença, e com uma lenta 
evolução o deus apparece, caracterisando-se por 
este facto o verdadeiro drama. 

Até a Euripedes o verdadeiro mytho trágico 
é Diónysos, e todas essas figuras extraordinárias 
que atravessam os palcos gregos, Prometheu, 
Edipo . . . não são mais do que mascaras do heroe 
original Diónysos. As apparencias symbolicas 
constituem um factor poderoso para tornar intelli- 
giveis os mysterios do deus que soffreu. Apollo 
vem assim contribuir com o seu mundo das appa- 
rencias. 



O MYTHO TRÁGICO 



137 



Frederico Nietzsche, na depreciação da obra de 
Euripedes, faz uma profissão de fé, £ com ella tão 
claramente definida torna-se um dos precursores 
mais notáveis do pragmatismo e das suas corren- 
tes derivantes, podendo collocar-se, como Ber- 
thelot o fez, ao lado de Poincaré, pragmatista 
scientifico, e de Bergson, o philosopho tão querido 
da nova geração. 

Euripedes é encarado na Origem da Tragédia 
como um demolidor do dionysismo. Guiado pelo 
socratismo tornava a belleza de uma obra d’arte 
dependente da sua conformidade com a razão. 
N’elle a factura dramatica decahe, como que se 
annulia. 

Não existe com o seu theatro a anciedade 
epica, o attractivo da incerteza a impulsionar o 
interesse, aquella grandeza emotiva que predomi- 
nava em Eskylo e Sophocles: o prologo dando o 
entrecho tirava o imprevisto, o inédito. Nietzsche 
faz de Euripedes o poeta do socratismo esthetico. 
Sócrates e Platão tornam-se, pela sua acção, dois 
vultos antipathicos na historia da tragédia. O pri- 
meiro é o homem theorico: dava á razão um 
papel creador e ao instincto uma funcção critica. 
O segundo deu á posterioridade o prototypo de 
uma obra arte nova, do romance que pode ser 
considerado como a fabula de Esopo infinitamente 
aperfeiçoada e na qual a poesia se encontra 
subordinada á philosophia dialectica, que com o 
seu caracter optimista, de certeza, de fria clareza, 



138 



CHR0N1CAS D’ARTE 



se contrapõe á tendencia agnóstica peculiar ao 
dionysismo. Com outras influencias prejudiciaes a 
tragédia decahiu : o côro diminuiu de importância 
considerando-se uma reminiscência inútil, deixando 
de ser um principio gerador para tomar uma atti- 
tude secundaria. 

Um sonho que Sócrates conta aos discipulos 
faz perguntar a Nietzsche se entre o socratismo e 
a arte haverá uma irreductivel antinomia. 

Uma sombra appareceu-lhe muitas vezes acon- 
selhando-o a dedicar-se á musica, e Sócrates sug- 
gestionado por esta visão escreve um hymno a 
Apollo e põe em verso fabulas de Esopo ! 

Schopenhauer já tinha falado na sua Metaphy- 
sica e Esthetica do mundo das apparencias e da 
coisa em si : o elemento physico e o elemento 
metaphysico — arte plastica, das formas, e arte dio- 
nysiaca. Frederico Nietzsche veiu desenvolver estes 
princípios de Schopenhauer tomando duas figuras 
mythologicas da Grécia e encarnando em cada 
uma d’ellas domínios e feições contrarias: Apollo 
é o genio do principio da individuação, Diónysos- 
quebra este jugo da individuação e pela sua ale- 
gria mystica abre o caminho para as causas gera- 
doras do Ser, para o amago mais secreto das 
coisas. A musica é a manifestação mais essencial- 
mente dionysiaca, como aquella que provem do 
inconsciente e não do mundo phenomenal. 

O philosopho vê na canção popular um espe- 
lho musical do mundo e diz: seria historicamente 



O MYTHO TRÁGICO 



139 



possível demonstrar que toda a epocha fecunda 
em canções populares foi também a mais fecunda 
em agitações e arrebatamentos dionysiacos. A can- 
ção contem em si não só o elemento dionysiaco 
mas um pouco também o apollineo — a melodia 
e o poema, sendo este gerado pela primeira. 
A poesia tende a integrar-se na cadencia da mu- 
sica. 

Nietzsche olha a opera como a expressão do 
dilettantismo na arte, dictando as suas regras com 
a serenidade optimista do homem theorico. A 
transformação do homem eskyliano em homem 
de serenidade alexandrina coincide, segundo elle, 
com a decadência da musica invadida pelo opti- 
mismo latente inherente á genese da opera e ao 
espirito da cultura. Ha todavia um despertar pro- 
gressivo do espirito dionysiaco : na musica de 
Bach a Beethoven e de Beethoven a Wagner. Na 
philosophia Kant e Schopenhauer realisaram a 
sabedoria dionysiaca expressa em idéias. N’esta 
convivência da musica e da philosophia vê Nie- 
tzsche o surgimento de uma nova existência inti- 
mamente ligada ao hellenismo. 

O espirito apollineo affasta-nos do estado dio- 
nysiaco suscitando o enthusiasmo pelos indiví- 
duos: o mundo dos sons, graças á sua illusão, 
parece dirigir-se para nós sob a forma de um 
mundo plástico ; mas o espirito dionysiaco não se 
extingue, antes pelo contrario, vive intensamente, e 
a alliança dos dois, parecendo irreductivel para- 



140 



CHRONICAS D’ARTE 



doxo, traduzido respectivamente no drama perfeito 
e na musica conjugados, géra uma inaccessivel 
manifestação esthetica. 

Veja-se, pois, a importância e a significação da 
mythologia hellenica pela admiravel these expressa 
na Origem da Tragédia. Redolfo Steiner encara o 
mytho Diónysos como nma revelação profunda. 
Diónysos é filho de Zeus e de Semeie. Sua mãe, 
que era mortal, cahe fulminada por uma faisca, e 
Zeus querendo salvar o filho arranca-o do ventre 
materno e occulta-o em si até ao seu nascimento. 
Héra, a mãe dos deuses, excita os Titans contra 
Diónysos. O perseguido soffre o martyrio por que 
também passou o divino Osiris. Palias Athéna vae 
procurar aos destroços sangrentos do corpo de 
Diónysos o coração, que, ainda palpitante de 
vida, leva a Zeus. O filho nasce pela segunda vez 
e torna-se Deus. Assim o divino se une á alma 
terrestre, ephemera, e desde que o elemento di- 
vino e dionysiaco vive em si ella sente uma nos- 
talgia violenta pela sua verdadeira imagem. A 
consciência ordinaria que apparece sob a forma 
de uma mulher, torna-se ciumenta de Deus por 
dar nascimento á consciência superior e impelle 
os Titans na sua vingança sinistra. Diónysos é 
despedaçado e nhsto vê a theosophia a presença 
do Divino no homem, com os sentidos e a scien- 
cia dividida. Mas a sabedoria superior encarnada 
em Zeus é bastante forte no homem para ser 
activa. Renascerá pela segunda vez o filho de 



O MYTHO TRÁGICO 



141 



Deus, Diónysos. Da sciencia que é o divino frac- 
cionado no homem, nasce a sabedoria que é o 
Logos, o filho de Deus e de uma mortal. 

Diónysos iniciou-se pelo martyrio soffrido e 
tornou-se a divindade tragica do pessimismo 
creador. 



Das florestas ouve-se o cântico de Pan entoado 
na syringe á nympha, filha do Deus das Aguas, 
que lhe fugira para sempre. 

— Attende a supplica, Deus da verdade occulta! 
E Diónysos não esconde a face onde scintillam os 
olhos de vidente ... Os sistros symbolicos er- 
guem-se bem alto retinidos pelos dedos das 
bacchantes que no desvario divino rondam á volta 
das aras sagradas. O évohé estridente echoa nas 
montanhas onde Prometheu habita. Os echos res- 
pondem ás vozes que o silencio interrompem. 

A alma do passado foi procurar o seu templo 
no corpo de uma ondina, corpo ondeante, dúctil 
e transparente como a vaga que o creou. 



ARTE ROMANICA 



A PROPOSITO DA EXPOSIÇÃO MARQUES D’ABREU 



D ia a dia o inéditismo que envolve as manifes- 
tações artisticas do nosso paiz vae desappa- 
recendo com os esforços dos poucos que têm 
votado a este resurgimento uma dedicação pro- 
funda e uma abnegação desinteressada. 

A archeoiogia foi sciencia que tarde appareceu 
entre nós, e d’ahi o ignorar-se, ainda ha menos 
de meio século, grande parte de monumentos 
hoje considerados notabilíssimos e indispensáveis 
para a formação da nossa historia d’arte. 

As palavras do conde de Raczynski mostram a 
sua admiração pela pequena anthologia portugueza 
que lhe foi dado conhecer. Da sua observação 
resultou um modo de vêr que nos orgulha, modo 
de vêr este que elle deixou expresso nas obras 
que escreveu. A architectura foi o ramo em que 
os portuguezes, no seu entender, deixaram provas 
d'uma tendencia frizante: «a perfeição dos seus 
monumentos, sob o ponto de vista da execução, 
bem prova que esta arte é verdadeiramente nacio- 



144 



GHRONICAS D’ARTE 



nal.» E Raczynski não conhecia ainda ps bellos 
documentos d’um estylo que na Hespanha, França, 
Inglaterra, Allemanha e Italia tinha tão larga re- 
presentação e que entre nós permanecia ignorado 
por circumstancias explicáveis. 

Garrett fala-nos d’elle, quando se refere a um 
genero architectonico «especial nosso», adaptan- 
do-lhe a designação de mosarabe, resultado de 
uma filiação ethnica. 

Theophiio Braga, em 1870, anno em que come- 
çou a esboçar-se o estudo do estylo, escrevia: 
«O norte de Portugal abunda em excellente pedra 
para construcções grandiosas, tem o granito duro, 
para as formas eternas, apto para reproduzir a 
rudeza byzantina ; de facto, é ao norte de Portugal 
aonde se encontram os primeiros e mais veneran- 
dos trabalhos de architectura, não tão delicados 
como os rendilhados lavores da pedra calcarea do 
sul, mas em maior numero e em todas as edades 
como productos de uma necessidade vital.» Theo- 
philo refere-se claramente aos monumentos româ- 
nicos em que se notavam influencias apenas by- 
zantinas. 

Os trabalhos de investigação archeologica rea- 
lisados em frança, principalmente por Gerville e 
A. de Caumont, despertaram quatorze annos mais 
tarde em Portugal um dos mais cultos espíritos 
que a sciencia portugueza tem possuído : Dr. Au- 
gusto Filippe Simões, auctor das Relíquias da 
architectura romano-byzantina em Portugal, livro 




JANELLA DE CERZEDELO 





ARTE ROMANICA 



145 



onde os característicos do estylo românico se en- 
contram exemplificados com monumentos verná- 
culos. A cidade de Coimbra tem n’este trabalho 
especiaes e detalhadas referencias, ao falar-se da 
Sé Velha, das egrejas de S. Christovam, hoje 
desapparecida, de S. Salvador e de S. Thiago. 

Lêem-se devotamente estas paginas eruditas, 
onde a belleza d’essas pedras amarellecidas avulta 
mais aos nossos olhos. Falo d’elle com especial 
carinho, porque me evoca um ambiente querido 
que merecia a alma de um Ruskin para o descre- 
ver sentindo-o ! 

Filippe Simões foi o principal iniciador. D’en- 
tão para cá, teem contribuído para o conciso inven- 
tario e identificação dos monumentos românicos em 
Portugal nomes como os de Augusto Fuschini, 
já fallecido, os professores Joaquim de Vasconcel- 
los, D. José Pessanha, Teixeira de Carvalho, Anto- 
nio Augusto Gonçalves, Dr. Manuel Monteiro, Vir- 
gílio Correia e outros de que muito ha a esperar. 

Propositadamente deixamos de incluir entre 
elles o nome de Marques d’Abreu, que hoje se 
pode considerar como um dos que mais teem tra- 
balhado no estudo do românico entre nós. A confe- 
rencia que o sabio archeologo Joaquim de Vascon- 
cellos realisou no Atheneu Commercial do Porto, 
por occasião da abertura da exposição da Archite- 
ctura Romanica em Portugal, veiu mostrar o quanto 
attingiu a iniciativa de Marques d’Abreu, creatura 

que se não tem poupado aos maiores sacrifícios 

10 



146 



CHRONICAS D’ARTE 



para realisar o seu sonho, apenas conhecido dal- 
guns amigos espirituaes com quem conversa. Vive 
recolhido dentro de si, trabalhando sempre na arte 
a que se dedicou e onde occupa logar proemi- 
nente. O seu atelier de photogravura é conside- 
rado entre os primeiros do país, e só de lá po- 
diam sahir trabalhos como os publicados na extincta 
A Arte , por elle fundada e ultimamente dirigida 
pela esclarecida orientação do professor e artista 
João Augusto Ribeiro. Bastaria só a publicação da 
Arte para Marques d’Abreu merecer louvores ; mas 
a accrescentar a isto existe a acção tenaz que tem 
exercido para a descoberta de elementos e para o 
complemento dos estudos feitos na archeologia 
monumental portugueza. 

Quem visitasse a sua exposição, ignorando a 
arte romanica, sahiria de lá elucidado com os exem- 
plos persuasivos do estylo inconfundível que a 
fórma. 

A arte romanica em nada nos desperta lenv 
branças do estylo hellenico ; vive liberta, na sua 
quasi totalidade, das tradições architecturaes clássi- 
cas, ergue-se como um symbolo da phase religiosa 
por que passou o christianismo. Apezar dos elemen- 
tos profanos que n’ella se distinguem, podemos 
consideral-a como um reflexo das crenças que 
tumultuavam nas almas mysticas dos séculos XI e 
XII. É uma architectura de monges que inspira 
recolhimento com os seus interiores sombrios mas 
suaves: luz branda e coada pelos templos onde o 



ARTE ROMANICA 



147 



cantochão se entoava sob as arcarias dos trifo 
rios! 

Vida do álêm no milagre da alma fugindo 
alada para Deus ! Lagrimas de martyres chorando 
felizes pelo soffrimento! Irmãos da Senhora Po- 
breza litaniando a paixão desenrolada na tragédia 
do Golgotha! Tudo isto a arte romanica resume 
significativamente ! A Sé Velha de Coimbra, para 
quem uma vez transpôs o seu portico, nunca mais 
esquece : as naves mergulham-nos no isolomento 
da paz tumular. Ha vozes esparsas cantando plan- 
gentemente em supplica as phrases votivas: « Deus 
meus ad te de luce vigilo /» 

Não terei a pretensão de neste curto artigo 
caracterisar o estylo românico com as suas escolas 
notabilíssimas de Auvergne, Poitou, Périgord, Pro- 
vença, Borgonha, Normandia, etc., e as suas simi- 
lares em Hespanha e Portugal. O leitor encontrará 
elementos nos escriptos dos auctores acima men- 
cionados e, principalmente, como ponto de partida 
e trabalho de synthese, na introducção á monogra- 
phia sobre S. Pedro de Rates, do Dr. Manuel 
Monteiro. Da sua leitura colhem-se bons princí- 
pios que servem de guia nos monumentos româ- 
nicos. Procurarei apenas traçar aqui as minhas 
impressões sobre os trabalhos que Marques d’Abreu 
expôs, detalhando, tanto quanto possível fôr, neste 
limitado espaço que me destinam, as particulari- 
dades observadas. 

Cumpre-me, em primeiro logar, citar as pho- 



148 



CHROMCAS D’ARTE 



tographias dos monumentos especialmente desco- 
bertos por Marques d’Abreu : a Egreja de Freixo 
de Baixo (concelho d’Amarante), com a sua torre 
lateral a dar-lhe o aspecto de fortaleza ; a Egreja 
de Villa Boa de Quires (concelho de Marco de 
Canavezes), transição do românico para o ogival 
nas archivoltas das portas lateral e da fachada, e 
na janella em que o mais pequeno arco é uma 
ogiva de terceiro ponto ; por ultimo a Egreja de 
Lourosa, estudada pelo prof. Joaquim de Vascon- 
cellos na revista A Arte e pelo archeologo Virgí- 
lio Correia, que a este respeito publicou uma 
monographia, absolutamente independente do tra- 
balho do primeiro. 

Na exposição viam-se partes de edifícios româ- 
nicos, em evidente passagem para o gothico; a 
janella da Egreja de Cerzedelo, a arcaria da Egreja 
de Travanca (arcos mítrados), os arcos das capel- 
las-móres das Egrejas de S. Miguel (Entre-os-Rios) 
e de Cette (concelho de Paredes), as archivoltas 
das Egrejas de Paço de Sousa e Aguas Santas. 

Só a parte que diz respeito a tympanos merecia 
referencias minuciosas: os tympanos das Egrejas de 
Rates, Rio Mau, Paço de Sousa, Travanca, Cedo- 
feita, Bravães, Aguas Santas, etc.. A ornamentação 
das archivoltas e das columnas que as sustentam 
também largamente se destaca nas photographias 
de Marques d’Abreu. Observando-as pode fazer-se 
um interessante estudo comparativo. Veja-se, por 
exemplo, a porta principal primitiva da egreja de 




PORTA PRINCIPAL 
DA EGREJA DE VILLAR DE FRADES 




ARTE ROMANICA 



149 



Villar de Frades: a iconographia da terceira ar- 
chivolta é notável pelas imagens que a ornam. 
Uma d’ellas, sita no lado direito, representa um 
musico tocando uma especie de crowth , antepas- 
sado do violino. As outras figuras são bispos, oran- 
tes e guerreiros, armados d’elmo e escudo. Cada 
uma das archivoltas tem motivos decorativos di- 
versos: na primeira, interior, interlaçados ; na se- 
gunda ornamentação animal e na terceira or- 
namentação humana e animal. Não podemos 
esquecer a porta principal da Egreja de Ferreira 
com as archivoltas delicadíssimas : é um trabalho 
em granito, cheio de harmonia. 

Queria ainda referir-me á ornamentação dos 
capiteis, a que parece presidir uma regra obriga- 
tória, ditada por crenças severas: n’alguns quasi 
que predomina a lei da frontalidade? 

Quanto á iconographia tumular, Marques de 
Abreu apresentou-nos os tumulos d’Egas Moniz, 
de D. Pedro, Conde de Barcellos, com a sua tão 
citada caçada ao javali representada n’uma das 
faces, e os sarcophagos românicos das Egrejas de 
Grijó e Pombeiro. Marques d’Abreu tinha na sua 
exposição muitos mais exemplares d’arte romanica, 
sobre que devia incidir uma critica conscienciosa, 
escripta vagarosamente: traçar-se-hia assim o maior 
elogio ao seu esforço. 



Jan. — 914. 




PORTA PRINCIPAL DA EGREJA DE FERREIRA 






(Concelho de Paços de Ferreira) 





TUMULO DE EGAS MONIZ 



TUMULO DE D. PEDRO — CONDE DE BARCELLOS 




A QUINTA SYMPHONIA DE BEETHOVEN 



«Para amarlo todo, para compade- 
cerlo todo, humano e extra-hu- 
mano, viviente y no viviente, 
es menester que lo sientas todo 
dentro de ti mismo, que lo 
personalises todo.» 

Del Sentimiento Trágico de la Vida 
— Miguel de Unamuno. 



r 

E uma obra d’arte vivendo a eternidade! N’ella 
se integra o genio d’um immorta! que é uma 
manifestação de Deus á face da terra ! Beethoven 
merece a consagração de crentes, os louvores sa- 
grados de uma litania e os cantos guerreiros que 
se entoam aos heroes coroados de louros! Na alma 
de todos que o escutarem fica vincado este preito 
de religiosidade pela dor que soffreu e pelo muito 
que sentiu. Até elle nunca na musica tinha appa- 
recido alguém que traduzisse a vida n’uma tão 
elevada expressão e a communicasse aos outros 
tão suggestivamente. Affastado do sentido plás- 
tico das coisas, da ideia formal, Beethoven não 



152 



CHRONICAS D’ ARTE 



fez uma arte de apparencias; creou a verdadeira 
musica dionysiaca, nascida directamente do incons- 
ciente, do eu instinctivo e liberto. 

Ricardo Wagner symbolisa bem esta interiori- 
sação n’uma passagem auto-biographica : em Ve- 
neza, á noite, debruçado da janella do seu quarto 
sobre o grande canal, ouviu a voz d’um gondo- 
leiro. A cidade descançava envolta de sombras. Á 
voz do barqueiro outra respondeu e pausas sole- 
mnes succederam a este dialogo que passado pouco 
tempo se animou de novo em sonoridades longin- 
quas que se fundiram. O fim da insomnia extin- 
guiu os sons . . . Pergunta Wagner se Veneza em 
plena luz lhe daria este intenso estado d’alma. A 
imaginação errava no vôo alto do sonho e os 
olhos nevrosados projectavam no diffuso as appa- 
rições ideadas. 



Haydn e Mozart são os predecessores de Beetho- 
ven na composição da fórma musical chamada 
Symphonia , derivada da Sonata. Considerações 
estheticas mereceria este ponto para devidamente 
se caracterisar, mostrando a evolução por que pas- 
sou a musica instrumental desde a simples sonata 
de Andréa Gabrieli, da canzone de Ludovico Via- 
dana, da sonata da chiesa, da sonata da camera, 
da pattita até ás paginas exuberantes de orches- 
tração dos compositores modernos e contemporâ- 
neos. Haydn e Mozart particularmente nos interes- 




Mascara de BEETHOVEN 




A QUINTA SYMPHONIA DE BEETHOVEN 



153 



sam hoje: as composições d’um e cToutro têm 
alta importância, tanto sob o ponto de vista his- 
tórico como sob o ponto de vista estrictamente 
musical. Falo das symphonias em que os dois 
mestres se destacaram como auctores cheios de 
inspiração innovadora. 

Vejamos Haydn : é um colorista feliz, escre- 
vendo com simplicidade motivos graciosos, desen- 
volvendo-os eruditamente na orientação da musica 
pura, e assim ouça-se qualquer das suas sympho- 
nias em que não ha lances dramáticos, phrases de 
grandeza espiritual e dizeres intimos. Aprecia-se 
mas não arrebata. Frederico Spigl caracteriza-as 
pelo humorismo, e outros criticos chegam, como 
Wagner, a olhal-o acerbamente a ponto de este o 
chamar um cortezão servil dos príncipes, uma crea- 
tura que fez musica para divertir os outros. Mo- 
zart tem mais do que Haydn a creação psychologica, 
mas grande parte das suas symphonias possue 
a simplicidade tão inherente ás composições dos pri- 
mitivos. Podia citar passagens em que ao lado de 
compassos já tecidos de uma fórma complexa, 
apparecem outros despidos de significação. Estas 
apreciações são feitas por mim n’um sentido rela- 
tivo, pondo como termo de comparação as sym- 
phonias de Beethoven, mais largamente represen- 
tativas do sentimento trágico. 

Beethoven augmentou o poder orchestral, pro- 
curou timbres e combinações de harmonia e con- 
traponto. As phrases musicaes não lhe sahem despi- 



154 



CHRONICAS D ARTE 



das, mas ornadas sempre por acompanhamentos 
que fazem avultar o conjuncto. Realisou, depois do 
conhecimento dos instrumentos, a divisão da or- 
chestra em grupos, a communhão dos timbres e a 
sua relação lógica. Cada instrumento tem indivi- 
dualidade expressiva, approveitada sempre genial- 
mente nos estados d’alma que a musica descreve. 

Pela segunda vez se executa na Sociedade de 
Concertos Symphonicos, sob a direcção de Ray- 
mundo de Macedo, uma das suas obras : a 
Quinta Symphonia. É uma das mais conhecidas 
do publico que a ouve sempre com o devido en- 
thusiasmo. Ella provará claramente as minhas pa- 
lavras acima escriptas. Beethoven possuia n’esta 
ultima toda a independencia do seu genio. Rompe 
com formalismos antiquados sem negar e esquecer 
o velho Bach, Haendel, Haydn e Mozart. Não é o 
Beethoven dos primeiros tempos: é a alma na 
verdadeira individuação, disciplinada mas não su- 
bordinada. 

Para se comprehender essa divisão, que Lenz 
traçou na obra do Mestre, era necessário prepa- 
rar-se uma audição unicamente com este fira : os 
tres estylos ou maneiras comprehender-se-hiam 
em persuasivos exemplos. A Quinta Symphonia 
poderia ser ouvida depois das precedentes, e só 
então se veria a distancia que a separa da primeira 
e da segunda. São differenças enormes e eviden- 
tes, taes como as notadas entre as primeiras sona- 
tas e a Appassionata . 



A QUINTA SYMPHONIA DE BEETHOVEN 



155 



A Quinta Symphonia é uma intensa tragédia 
sem palavras que resume a vida nos seus desespe- 
ros, nos triumphos momentâneos e na morte. 
« O destino batendo á porta do homem, » assim 
se intitula ella, e sempre que a ouço surgem 
dentro de mim scenas sombrias em que a creatura 
apparece luctando no desespero angustioso do 
irrealisavel. 

As primeiras notas! O espirito mergulha na 
noite silenciosa e a fatalidade vem chamal-o abru- 
ptamente. São compassos fatídicos sustados por 
uma communia inquietante e interrogativa . . . 




Novamente as pancadas sinistras resoam e o 
espirito fala ao destino. Os sons augmentam de 
intensidade, os tympanos vibram com mais côr e 
em fortíssimo a trompa relembra o determinismo 
que nos subjuga até ao anniquilamento da vida, 
mas bem depressa os violinos attenuam este effeito 
com um canto dulcíssimo de esperança . . . 




156 



CHRONICAS D’ARTE 



O thema dos primeiros compassos repete-se 
num rythmo energico, apresentando um aspecto 
mais imperativo quando os instrumentos de sopro 
e o guatuor o visam em menor 




Novamente a orchestra irrompe no poderoso 
crescendo, desenhando-se o dialogo entre os seus 
dois grupos 



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Dá-se o contraste entre este pianíssimo e o 
fortíssimo até a phrase do oboé, de transição para 
o adagio , onde o thema reapparece sempre domi- 
nante e esplendido. A orchestra ascende ao seu 
seu máximo de brilho. 

O andante é essencialmente beethoviano e 
constitue uma das passagens mais sentidas da 
symphonia : logo a primeira phrase nos dá o ca- 
racter inconfundível do genio de Beethoven . . . 




A QUINTA SYMPHONIA DE BEETHOVEN .157 



O espirito resignado ouve a fatalidade falar- 
lhe. . . 




A lucta ingente, exhaustante que sustenta con- 
tra ella surge, mas por momentos. A orchestra, 
umas vezes, diz em pianíssimo phrases dolorosas, 
e outras vezes rompe na heroicidade que suc- 
cumbe . . . 




E termina impressivamente com o espirito ven- 
cido ... a vontade parece agonisar ... ha um su- 
premo esforço e a vida continua tarjada de som- 
bras . . . 




CHRONICAS D’ARTE 



158 # 



O Scherzo inicia-se pelo thema da tristeza ex- 
presso n’estas notas pessimistas que uns accordés 
levemente illuminam de aura distante 




A trompa em pianissimo recorda o thema fun- 
damental numa reminiscência amargurada. 




Succedem-se uns compassos que nos desper- 
tam . . . 

A seguir a celebre passagem em que os con- 
trabassos e os violoncellos repetem tres vezes os 
mesmos compassos desorienta-nos bruscamente, 
tal o seu inesperado, passagem a que Schumann 
chamou a figura interrogativa = die fragende Fi- 
qur . . . 




A QUINTA SYMPHONIA DE BEETHOVEN 



159 



Desenvolve-se um crescendo magnifico . . . 




O allegro começa por accordes triumphaes : o 
espirito erguendo-se, acordando de novo para a 
vida, esquece a fatalidade e caminha sobranceiro, 
altivo, inebriado de si proprio . . . 




Beethoven descreve n’esta Symphonia a sua 
vida heroica, affrontando a dor que o destino im- 
placavelmente lhe lançou sobre o caminho. 

Nos seus últimos escriptos, dizia elle que dei- 
xara d’ouvir o som da alegria e no recolhimento 
do seu eu buscára a verdadeira vida. 

Beethoven teve um grito de desespero para 
Deus: oh tu, Inexprimivel, escuta a mais desgra- 
çada de todas as creaturas . . . ! 



160 



CHRONICAS D’ARTE 



A sua figura de heroe e de santo ha-de per- 
manecer eternamente ... A humanidade devia le- 
vantar-lhe um templo em cujo frontão fosse escri- 
pta, em lettras de bronze, a phrase dos martyres: 
Per aspera ad astra. 



Porto, dez. 913. 

/ 






A ACÇÃO EDUCATIVA DA RENASCENÇA PORTUGUEZA 



« Praza a Deus que todos de um 
impulso, de um accordo, de 
simultâneo e unido esforço, to- 
dos os portuguezes, sacrificadas 
opiniões, esquecidos odios, per- 
doadas injurias, ponhamos peito 
e mettamos hombros á difficil 
mas não impossível tarefa de 
salvar, de reconstituir a nossa 
perdida e desconjunctada Pa- 
tria, — de reequilibrar emfim 
Portugal na balança da Europa !» 

(« Portugal na Balança da Europa », pag. 
253 — Almeida Garrett). 

N a hora das dissenções que prejudicam a vida 
portugueza espíritos nobilíssimos procuram 
a effectuação do seu ideal de paz, não temendo 
os perigos da apologia abençoada que encetaram. 

As palavras de Garrett, escriptas na ultima pa- 
gina da obra que acima cito, têm agora, e mais do 
que nunca, verdadeira applicação : é um momento 
historico o que hoje atravessamos, perigoso pe- 
las antinomias violentas, nascidas de odios pro- 

ii 



162 



CHRONICAS D’ARTE 



fundamente entranhados, e, pelo seu caracter, noci- 
vos para o necessário equillibrio da nossa nacio- 
nalidade. A derrocada estará, pois, longe de se 
dar, evitada pelo despertar de novas energias 
ungidas de rehabilitadora esperança. 

ISPeste anceio enorme de resurgimento apparece 
como problema de capital importância a acção 
educativa do povo, sob um ponto de vista essen- 
cialmente nacional, com o fim de attingir a cons- 
cienciosa plenitude de sí proprio. Para realisar 
tão importante actividade não é de per si bastante 
a iniciativa do Estado, longe como está ainda de 
possuir os indispensáveis meios de propaganda 
intensiva. Outros elementos terão de auxilial-o 
desinteressadamente para que a cultura se torne 
efficaz no desapparecimento da atonia, causa mais 
forte do septicismo dominante. 

Na acção educativa destaca-se como instituição 
de primeira grandeza a «Renascença», e não estra- 
nhem esta minha affirmação baseada no mais 
sincero e imparcial critério. Passo a passo tenho 
seguido a sua evolução e no meu espirito a duvida 
que tinha sobre o seu triumpho desvaneceu-se com 
a realisação de factos excepcionalmente impor- 
tantes. Já em 1912, na resposta que dei ao inquérito 
á vida litteraria do jornal «Republica», eu vaticinei 
á «Renascença Portugueza» um enorme papel. 
O núcleo de creaturas decididas que então a for- 
mavam foi constantemente aumentando e hoje 
constitue um agrupamento intellectual digno de 



A ACÇÃO EDUCATIVA DA RENASCENÇA PORTUQUEZA 163 



si e dos nomes que o formam. A «Renascença» 
não guarda comsigo os materiaes de valor que 
possue, mas espalha-os sem olhar a proveitos, 
esperando apenas o successo dos fins a que teve 
em vista quando da sua fundação. Não quero 
referir-me hoje á sua attitude ideativa — esta será 
convenientemente estudada no trabalho que dedico 
á obra de Antonio Carneiro, o artista mais espi- 
ritual que de perto conheço. N’este momento limito 
as minhas considerações ao seu ensino. 

Em Portugal, com o problema educativo, im- 
põem-se soluções exageradamente unilateraes, 
pendendo a principal para a cultura technica, E’ 
um ponto discutivel pelos defeitos que intrinseca- 
mente apresenta. Tal orientação é mais ou menos 
inspirada no utilitarismo dos tempos que vão cor- 
rendo, onde até a crença religiosa encontra razão 
de ser como uma utilidade necessaría, revestindo 
o aspecto de experiencia na philosophia de William 
James. A mocidade d’hoje quer, acima de tudo, 
uma cultura immediatamente proveitosa, pratica 
no ensino e desde o inicio inspirada na lei da 
da divisão do trabalho para a formação de com- 
petências em determinadas especialidades. Temos, 
pois, a vida moderna transformando o homem 
com a extincção do espirito, e eil-o que se nos 
apresenta um simples instrumento auxiliar da 
machino-factura. A parte mais transcendente da 
sciencia, essa, fica abandonada como inutilidade 
perniciosa. 



164 



CHRONICAS D’ARTE 



Dizia-me outro dia um estudante da Universi- 
dade de Coimbra, criticando a reforma: imagine, 
nos proximos exames de estado não somos inter- 
rogados pelos professores, mas por funccionarios 
burocráticos, pessoal dos ministérios, secretarias, 
etc.! E ironicamente falou-me n’uma provável 
recepção festiva aos ditos examinadores com a 
indispensável charanga, foguetes e balões venezia- 
nos.. . E’ curioso e symptomatico! E pelas outras 
faculdades do paiz, além de officiaes de diligencia, 
teremos enfermeiros-cirurgiões, bons chefes de 
officina, etc.. A meu vêr, o alumno despreza a 
cultura philosophica, e tenho esta impressão porque 
conheci de perto os meios acadêmicos de Coimbra 
e do Porto. Responsáveis d’isto são em grande 
parte as reformas de ensino. No sexto e sétimo 
annos do lyceu só ha uma hora destinada ao ensino 
da philosophia e na Faculdade de Lettras o segundo 
anno da secção de philosophia apenas consagra o 
primeiro semestre ao principal objectivo da mesma 
secção, o resto são disciplinas communs aos outros 
bacharelatos. 

Ora isto não quer dizer que orientemos o 
ensino no sentido puramente especulativo; de 
forma nenhuma. A par do ensino technico deve 
existir o ensino especulativo. A seguir a educação 
pratica tem de haver a educação philosophica. E’ 
este o objectivo da Universidade Popular, cujas 
aulas a «Renascença» inaugura hoje solemnemente. 
E senão vejamos: foram organisados dois cursos 



A ACÇÃO EDUCATIVA DA RENASCENÇA PORTUGUEZA 165 



principaes — o de Commercio e o de Educação 
nacional. Tanto o primeiro como o segundo cor- 
respondem ao meu desideratum. O curso de 
educação nacional é de uma valiosa significação 
no presente momento: é o estudo da nacionali- 
dade portugueza nos variados aspectos da sua 
actividade. Além da historia, da litteratura e da 
economia nacional vêm, como elemento de ins- 
trucção integral, as sciencias naturaes e a philoso- 
phia. As figuras representativas da raça, o seu resur- 
gimento aos nossos olhos ergue-se acima de tudo. 
O problema economico assume, como se sabe, 
extraordinário vulto e não podia pela sua impor- 
tância deixar de ser uma das cadeiras mais em 
evidencia do curso. Vem finalmente as sciencias 
naturaes e a philosophia, sendo esta uma disciplina 
imprescindível. N’ella se debaterão os problemas 
do numero e da extensão, da matéria, da vida, 
do espirito e da moral. Do seu estudo nasce um 
mundo novo, de horizontes amplos e cheios de 
belleza. Liga-se com affinidade á litteratura, á 
historia e á sciencia economica. Recordemos a 
phrasede Taine: «Sans une philosophie le savant 
n’est qu’un manoeuvre, comme Tartiste n'est qu’un 
amuseur». E’ bem claro o sentido de Taine. E o 
philosoho allemão Redolpho Euken, que tantas 
vezes se insurge com o ensino técnico e milita- 
rista da Prússia, diz que transformar completamente 
a vida do espirito em movimento equivale a des- 
truil-a. 



166 



CHRONICAS D ARTE 



Concordo com Poinsart quando a respeito do 
nosso paiz escreve: «hoje em dia não é possível 
a qualquer povo voltar atraz e concentrar-se em 
si proprio. Todos são arrastados á força no turbi- 
lhão rápido das relações communs inevitáveis. 
Ora a educação portugueza actual não corres- 
ponde a esta nova organisação do mundo. » Isto, 
todavia, não combate o saudosismo que inspira a 
«Renascença». Mais do que tudo, as palavras de 
Teixeira de Pascoaes dirão: «Queremos a nossa 
Patria de accordo com o passado e o futuro, mer- 
gulhando as raizes na noite da recordação para 
florescer á luz da Esperança e criar a sua obra 
espiritual, religiosa, obra de amor e sacrifício.» 
Esta profissão de fé não é regressiva, é progres- 
siva; é um incentivo para o rejuvenescimento da 
vontade ethnica. 



Porto, novembro de 1914. 



SOBRE O «FREISCHÜTZ » DE WEBER 



C Arlos Maria von Weber representa um ponto no- 
tabilíssimo na curva evolutiva da historia mu- 
sical. É uma individualidade que imprimiu á sua arte 
feições geniaes, creando meios expressivos de ine- 
gualavel valor, aproveitando recursos dispersos e 
reformando o que tinha cahido n’um depressivo 
abandono. Cláudio Monteverde, Lulli e Rameau, 
Gluck, Mozart, Weber, Berlioz e Wagner, constituem 
esse movimento crescente da plena e perfeita for- 
mação do drama musical. Cada um d’estes repre- 
senta uma phase pronunciada que merece estudos de 
profundo detalhe, tal a importância da acção crea- 
dora que exerceram. Weber vem já n’um periodo 
adeantado, precede Ricardo Wagner preparando 
grandes emoções e fazendo-lhe surgir na alma o 
desejo intenso da ascensão para a Belleza : são os 
escriptos do auctor da Trilogia a confirmarem 
constantemente a fama justa que envolveu a obra 
de Weber. 



168 



CHRONICAS D’ARTE 



Executando-se na Sociedade de Concertos Sym- 
phonicos, sob a direcção de Raymundo de Mace- 
do, a ouverture do Frelschiitz , não podia deixar de 
dizer sobre ella algumas palavras que ajudarão a 
sentir mais a intensidade d’essas paginas, prede- 
cessoras d’um drama violento, vasado nos moldes 
do puro romantismo allemão. Escripto o libietto 
por Frederico Kind, Weber ideou sobre elle o 
poema musical, inspirando-se na alma da sua raça, 
no espirito das suas lendas de fadas e heroes. O 
Freischiitz é uma producção essencialmente ger- 
mânica, como o é o Fausto de Gcethe, como o 
é o Parsifal de Wagner; tem o sentido intimo que 
os artistas allemães incutem sempre ao que dei- 
xam e que passa nas suas nuances incomprehen- 
dido aos meridionaes de temperamento tão pouco 
tendente para generalisações metaphysicas. Só o 
allemão está apto por afinidades ancestraes a sen- 
tir completamente as manifestações dos seus gê- 
nios; póde a obra de Wagner ser saudada pelas éli- 
tes meridionaes, mas para estas ha-de sempre existir 
no que applaudem qualquer coisa de incommuni- 
cavel e transcendente que o espirito por entraves 
poderosas não consegue devassar. Ora o Freis- 
chiitz, como o diz Wagner, é a própria Allemanha. 
Não ha n’esta musica uma natureza ridente : por 
ella passam phantasmagorias diabólicas, espectros, 
visões de monstros temerosos. É o romantismo 
sombrio que fazia nascer a crença. nos duendes, 
nos bons e maus espíritos, e Weber tinha para 




WEBER 



SOBRE O «FREISCHUTZ» DE WEBER 



169 



este sobrenatural uma forte propensão, demons^ 
trada já n’essa tentativa de compor o Riibezahl , 
lenda dos Montes dos Gigantes, aproveitada mais 
tarde para a sua ouverture subordinada ao titulo 
de Beherrscher der Geister. No Freischütz ha remi- 
niscências do Volkslied , da canção do povo, o que 
torna mais nacional e ethnico o seu significado. 
Não foi musica logo acceite: teve grandes ataques 
dos críticos do tempo, no numero dos quaes se 
conta o escriptor Hoffmann que na «Gazeta de 
Voss» chegou a accusar Weber de plagiar a Vestal 
de Spontini ! ! E assim o poeta Tieck e Zelter, dire- 
ctor da Academia de Canto! Estas desagradaveis 
apreciações foram deitadas por terra: lá estava o 
valor intrinseco da musica a impôr-se, a conquistar 
dia a dia maior acolhimento. 

Gostaria de dar uma ideia geral do Freischütz , 
do libretto de King, das passagens principaes do 
drama, mas reservo-me por agora a escrever sobre 
a ouverture que se executa agora por inicitiava e 
direcção de Raymundo de Macedo. 

Precisamos primeiramente collocar o Freis- 
chütz como uma obra do tempo e não a analysar- 
mos erradamente comparando-a á musica moderna, 
tão rica de coloridos e de expressões. A musica 
dramatica, no sentido litteral, só nos nossos dias 
attingiu o seu auge de brilho: até cá o verso era 
difficilmente adaptavel á musica ou a musica ao 
verso. Os florentinos subordinavam aquella a este 
e Scarlatti, com os seus discípulos, seguiam o ca- 



170 



CHRONICAS D’ARTE 



minho absolutamente contrario. Tínhamos assim 
extremos, e só Cláudio Monteverde e Carlos Weber 
souberam introduzir nas suas obras o eclectismo 
das duas escolas adversarias. Wagner realisou a 
harmonia dos dois elementos, podendo-se até di- 
zer dos três: musica, poesia e dança — a ronda 
divina das tres artes, na phrase de Eduardo Schuré. 

Quanto ao emprego da ouverture, Weber con- 
tinuou também a linha evolutiva de que falei pre- 
cedentemente, e n’isto se póde collocar ao lado dos 
seus iniciadores Gluck e Mozart e dos continuadores 
Beethoven, Berlioz e Wagner, ponto culminante. 

Insisto n’esta parte: temos de ouvir a ouver- 
ture do Freischütz como uma producção relativa- 
mente antiga. Weber não podia de repente esque- 
cer normas estabelecidas; havia de seguir, apezar 
de o considerarem todos um innovador e um ini- 
migo da escola italiana, processos usados então 
como inabalaveis. Wagner foi o verdadeiro revo- 
lucionário: a evolução seguia lentamente, mas 
com o seu apparecimento houve — porque não hei 
dedizel-o — uma authentica mutação brusca, appli- 
cando as palavras do sabio De Vries. Assim, se 
Weber n’uns compassos é expressivo, n’outros 
cahe, porque não descreve e faz preciosismos. 

O Freischütz não é, pois, uma obra egual e a 
ouverture comprova esta minha opinião. Tem 
compassos que dizem tudo: o adagio nos seus 
contrastes: — pianíssimo e forte — o tremolo e o cres- 
cendo nas ultimas notas que precede o allegro vi - 



SOBRE O < FREISCHÜTZ > DE WEBER 



171 



vace. Mas vejam-se as notas finaes da ouverture 
com accordes repetidos e desnecessários que des- 
mancham o conjuncto! Weber terminou a opera 
d’esta fórma que nada tem de trágico, podendo o 
seu genio uitimal-a superiormente. Isto não quer 
dizer que não seja a sua obra a de um sympho- 
nista notável, como predecessor dos compositores 
que se lhe seguiram. O allegro vivace, com as 
suas dramaticas passagens, diz como synthese o 
poema que se vae desenrolar, animado sombria- 
mente pelo espirito de Samiel, demoniaca existência 
que apavora. Weber faz intervir o eterno feminino 
com uma passagem essencialmente melódica, muito 
limpida que se repete mais tarde, depois da arietta 
do segundo acto, a seguir a um vivace con fuoco. 

Weber marca com o Freischiitz um ponto de 
partida da musica romantica. È uma obra cheia 
de colorido orchestral, pela instrumentação em- 
pregada, original e inédita com o papel destinado 
aos instrumentos de sopro, principalmente. 

Ricardo Wagner escreveu sobre Weber o má- 
ximo que se podia dizer d’um musico. No Freis- 
chiitz vê elle a floresta, a noite estrellada e de 
luar, o tanger dos sinos das aldeias da sua patria, 
as lendas de monstros que dormem em lethargico 
somno. E um dos mestres contemporâneos, para 
mim querido, Cláudio Debussy, tem por esta obra 
de Weber uma grande predilecção: a sua luz len- 
dária, dizia Debussy a Alberto Carré, envolvia-o 
na tradição romantica. 



A PROPOSITO DE DUAS OBRAS DE ARTE 



O Sonho cresce em ondas de tormenta, 

O Delírio vae alto, enchendo o Mundo 
De gritos e visões ... Oh Mar, oh Mar profundo, 
Queda a tua alma, cala a voz sedenta! 

A Atlantica visão demanda em sua faina 
Outros climas c ceus : o vento amaina . . . 



Cruz de Christo a sagrar as caravelas : 

Sonho humano a varar nas praias do Outro Mundo! 



sonho aventureiro da peregrinação desco- 



bridora das regiões distantes, onde corre o 
filão do ouro e onde scintillam magicamente as 
pedrarias, não se extinguiu ainda na alma lusíada. 
O vulto nobre do Infante D. Henrique, iniciado 
nos mysterios dos Argonautas lendários, auscultou 
o coração do mar e recebeu o seu segredo. 
Inebriado pela chimera da própria alma lá foi, 
visionário, desvendar o enigma que as aguas 
occultavam no seu seio terrificante de monstruo- 
sidades. Na profundidade abyssal os encantos 
sinistros, pavorosos e diabólicos assomavam para 



Do «Ausente » — Mario Beirão 1 




174 



CHRONICAS D’ARTE 



os marinheiros peninsulares que olhavam a curvi- 
linea do horizonte marinho com a superstição 
perseguidora e nevrótica da existência de uma 
fauna demoníaca desafiando a bondade do pro- 
prio Deus. 

O Infante fitava o mar e sentia-se affagado 
pela caricia das ondas ... As tempestades mara- 
vilhavam a sua alma de heroe com o crescendo 
impetuoso do turbilhão das vagas que se erguiam 
magestosas para o ceu pluvioso . . . 

Pouco a pouco a distancia foi chamando a 
distancia, e os marinheiros, guiados pelos navega- 
dores cheios de crença e de saber, lá foram sin- 
grando as aguas intermináveis á procura do reino 
encantado onde as joias os chamavam fascinantes 
de brilho. O Príncipe Perfeito adivinhou o futuro 
esplendoroso que pairava sobre as naus que elle 
mandara fazer para a continuação do cyclo das 
descobertas d’além d’Africa. O Venturoso realisou 
a chimera do ouro e das pedrarias: do Tejo 
partiram os galeões em demanda do Velo encan- 
tado, levando comsigo a lembrança dos olhares 
saudosos das Tagides colleantes. 

A prophecia pessimista e agourenta do Velho 
do Restello, tecida na hora da abalada para os 
longes ignotos, não extinguiu a esperança des- 
lumbradora dos mareantes que procuravam o 
dominio dos thezouros orientaes visionados no 
seu espirito arrebatado pelo ideal imperialista. 
A noticia da descoberta de novas rotas chegou ao 



A PROPOSITO DE DUAS OBRAS DE ARTE 



175 



reino onde echoou triumphantemente: a cruz de 
Christo surgiu dominadora a realisar a victoria da 
fé e a conquista das riquezas fabulosas. O sonho 
dos guerreiros precisava de se immortalisar num 
grande monumento que revelasse a heroicidade 
deste povo fadado para os grandes destinos, e a 
crença fez erguer para o ceu, numa oração eterna, 
as ogivas do templo de Belem : deram-lhe o estylo 
que mais tarde Ruskin julgava privilegiado para 
dignificação dos feitos imorredouros inspirados no 
christianismo dos evangelhos. O mar não podia 
ser estranho a esta sublimissima memória: as suas 
caravellas deram ensejo ao apparecimento de no- 
vos aspectos decorativos que lembravam sempre 
como symbolos a epopeia magnifica da nossa 
aventura, que só um povo predestinado para as 
nobres coisas poderia levar a fim. 

O estylo românico dera a revelação do religio- 
sismo primévo; o estylo manuelino traduziu esse 
mesmo religiosismo alliado á epopeia nacional 
onde os heroes passavam como vultos máximos 
de gloria. O Mosteiro dos Jeronymos reflecte mais 
do que qualquer outro monumento o genio por- 
tuguez, de uma ousadia forte que faz nascer o 
espírito da descoberta e da conquista. Nun’Alva- 
res e Vasco da Gama são os personageas votivos 
dessas duas obras de arte architectonica; é á sua 
volta que os feitos dos nossos maiores se con- 
densam para um permanente movimento de inde- 
pendência ethnica. As hostes de Aljubarrota e os 



176 



CHRONICAS D’ARTE 



mareantes dos lendários mares, nunca sulcados 
até allí, ficaram para sempre memorados por esses 
templos onde paira ainda hoje a uncção piedosa 
e confiante do passado. 

O primeiro ouro que da índia veiu foi para a 
cinzelagem dum ostensorio precioso onde, em 
lausperennes magníficos de pompa religiosa, a 
hóstia se mostrasse á multidão dos fieis nimbada 
pelo som mirífico dos cânticos e pelo perfume 
evocativo do incenso. 

O nosso Gil Vicente, trovador e mestre da 
balança , modelou no metal precioso a custodia 
fulgente para memorar no templo a esthesia das 
grandes descobertas! E ficou esta obra, peregrina 
de belleza, como modelo raro da ourivesaria 
antiga: ella é um excerpto delicadíssimo das facha- 
das manuelinas, e uma reproducção doirada dessa 
decoração, desse estylo immortalisador. 

Nos tempos d , hoje / de um renascimento de 
esplendida e exuberante significação, o sonho do 
passado, com as lendas e tradições da raça, surge 
envolto de aspirações de orgulho e independencia. 
A consciência lusitana affirma a sua vitalidade 
pela revelação sincera, original e forte dos seus 
artistas. 

Ha pouco tempo ainda, eu fui convidado por 
alguém a admirar na «Ourivesaria Reis» as duas 
ultimas obras de um novo: Antonio Maria Ribeiro. 
E’ um artista que aos vinte e cinco annos appa- 
rece com a imposição do seu talento. 




SALVA DECORATIVA 



De Antonio Maria Ribeiro 



A PROPOSITO DE DUAS OBRAS DE ARTE 



177 



Antonio Maria Ribeiro vae ser na ourivesaria 
portugueza um dos mestres do resurgimento: tem 
a sua mocidade ardente de aspirações e olha a 
terra portugueza com a devoção que só o artista 
pode offerecer. A sua Salva Decorativa é dedi- 
cada á epopeia dos portuguezes: o mar desta- 
ca-se n’ella como primeiro motivo. Sobre as suas 
aguas caminham os galeões de velas pandas os- 
tentando a cruz, symbolo da religiosidade da raça. 
N’ellas se levantam pequenas ondas que a prata 
torna brilhantes de sol. Erguem-se columnas fina- 
mente trabalhadas a sustentarem uma arcaria ba- 
seada no motivo do portico das Capellas Imperfeitas. 
E a restante ornamentação reproduz motivos do 
portal do Convento de Thomar, acompanhados de 
escudos onde assentam as cruzes das ordens de 
Christo, de Aviz, de Malta e de S. Jorge e o Bra- 
zão das Quinas. No centro da salva destaca-se a 
a florescência de uma rosacea gothica. 

A Taça de Honra é também uma obra de arte 
manuelina onde se traduz o mesmo motivo da 
Salva Decorativa . Aqui a idéa do monumento 
architectonico apparece mais nitida: os elementos 
componentes destacam-se com mais vigor, as for- 
mas decorativas salientam-se com mais elegancia. 
N’um soclo de mármore cinzento vindo das Pe- 
dreiras de Extremoz descobrem-se logo, em con- 
traste de côr, as cruzes de Christo com as semi- 
espheras armillares em prata. 

A taça assente nas columnas de perfeitíssimo 

12 



178 



CHRONICAS D’ARTE 



lavôr reune em si, n’uma ornamentação composita, 
os elementos ornamentaes dos Jeronymos, da Ba- 
talha, do Convento de Thomar e da Torre de 
Belem. As cruzes de Christo dominam esta estyli- 
sação realisada com o mais subtil e minucioso de- 
talhe. 

Não conhecia Antonio Maria Ribeiro, e logo 
que vi estas duas esplendidas affirmações da sua 
arte procurei encontral-o mesmo na sua officina 
de cinzelagem. Recebeu-me com uma amabilidade 
captivante, e por elle soube que seu pae era o 
economista José Victorino Ribeiro, espirito de ele- 
vada educação intellectual. 

O novo artista mostrou-me uma série de pho- 
tographias de trabalhos seus, já expostos, em que 
os estylos Renascença, Luiz XVI e outros eram 
tratados com a maior e mais perfeita consciência. 

Apaixonado pela arte classica, fez uma salva 
greco-romana representando no centro a deusa 
Minerva, de perfil rectilinio, rodeada de ornatos 
inspirados no mais puro traço hellenico. 

Antonio Maria Ribeiro trabalha presentemente 
na Salva Camoniana. O artista concebeu o grande 
quadro da Venus aplacando a procella para as ca- 
ravellas seguirem o seu destino da aventura. No 
céu desapparece entre as nuvens pesadas o gigante 
Adamastor, e no mar revolto agitam-se com as va- 
gas as ondinas e as sereias. Ao longe divisa-se 
um galeão que se dirige á Índia distante. 

Antonio Maria Ribeiro projecta grandes traba- 



A PROPOSITO DE DUAS OBRAS DE ARTE 



179 



lhos : muito brevemente percorrerá o paiz a colher 
de novo mais elementos para a sua obra come- 
çada, dizendo-me que vae outra vez á Batalha, 
Thomar e Belem com o fim de recolher inobser- 
vados motivos dispersos ou occultos na florescên- 
cia dos nossos mais bellos monumentos. 



A «HEROICA» DE BEETHOVEN 



Demain, c’est le cheval qui s’abat blanc d’écume, 
Demain, ô conquérant, c’est Moscou qui s’allume f 
La nuit, comme un flambeau. 

C’est notre vieille garde au loin jonchant Ia plaine 
Demain, c’est Waterloo ! demain, c’est Sainte-Hélène : 
Demain, c’est le tombeau ! 

Victor Huoo. 



B eethoven pertence ao grande cyclo dos trágicos 
e a sua figura genial apparecerá eternamente 
perante as gerações que passam, que morrem, e 
se substituem. Ninguém desconhece a sua vida 
accidentada pela dôr e pelo martyrio que o sacri- 
ficaram, que o tornaram invulnerável, e assim to- 
dos nós que o sentimos nos curvamos á sua me- 
mória immensa ! 

Na historia da arte, Beethoven tem um logar 
de supremacia, não podendo deixar de se citar ao 
lado d’aquelles que realisaram a dramatisação 
musical, como Wagner, especialmente. São tão 
sensiveis as differenças que o separam de Haydn 



182 



CHRONICAS D’ARTE 



e Mozart! E comtudo estes desempenharam um 
papel importantíssimo na evolução já adeantada 
da musica, papel que Beethoven não desconheceu, 
antes estudou profundamente, a ponto de as suas 
primeiras obras se resentirem das duas influencias 
então indiscutíveis, não falando ainda em Bach e 
Haendel, dois predecessores que nunca se devem 
omittir. Como exemplo frisante de uma composi- 
ção já quasi desintegrada dos princípios e das re- 
gras até ali classicas vem a terceira symphonia, em 
mi bemol, op. 55. Emquanto a primeira fora con- 
siderada uma muito agradavel badinage , e a se- 
gunda muito característica também, a terceira foi 
logo julgada revolucionaria, e d’esta maneira por 
muitos condemnada com certa acrimonia. 

São sempre curiosos alguns dados sobre a 
genese d’esta symphonia, e a este respeito não ha 
historia da musica que se não refira mais ou me- 
nos aos motivos que levaram o seu auctor a escre- 
ver sobre um thema para aquelle tempo bastante 
extranho. 

Beethoven, apesar da sua convivência princi- 
pesca, era no intimo um revoltado, um político de 
sentimento, como alguém lhe chamou, Para elle 
a Revolução de 89 ergueu-se como legitima reali- 
sação de ideaes de liberdade e de justiça, e na sua 
imaginação a lucta sangrenta e benefica assumiu 
as proporções de um extraordinário poema. Depois 
d’essa agitação desordenada de partidos propon- 
derantes surgiu Napoleão Bonaparte, cuja attitude 



A «HEROICA» DE BEETHOVEN 



183 



impressionou Beethoven, suggestionado pelas lei- 
turas do vernáculo Plutarco. 

A terceira symphonia foi pois escripta para a 
immortalisação do primeiro cônsul que encarnava 
todo esse conjuncto de aspirações nascidas das 
almas opprimidas pela autocracia dominante. A 
heroicidade transfigurára o vulto juvenil de Bona- 
parte, temido e admirado já para os extremos da 
Europa pelos soberanos ávidos da força divina- 
mente herdada. 

A terceira symphonia é talvez a maior consa- 
gração da França renascida. Napoleão, porém, 
sentiu á sua volta a adoração cega da multidão, e 
olhando-a de frente, sem temer a vertigem do 
poder, ergueu a si proprío o pedestal para sobre 
elle assentar o seu sonho imperialista. Vestiu o 
arminho e a purpura, coroou a fronte de louros e 
assim, ressuscitando as cerimonias sagradas dos 
romanos, fez abençoar o seu poder pelo proprio 
Papa, sob as ogivas sombrias da Notre Dame. E 
a França acclamou o Imperator a [quem o jaco- 
bino terrorista Fouché teceu o maior elogio no 
Senado. 

Beethoven teve com Bonaparte uma das maio- 
res decepções da sua vida : Ries communicara-lhe 
a coroação do seu heroe e o Mestre exaltado ras- 
gou a pagina da symphonia que ostentava o nome 
de Bonaparte , substituindo-o pelo de Symphonia 
Heroica , ou simplesmente Heroica , com a dedica- 
tória ao príncipe de Lobkowitz, em cujo castello 



184 



CHRONICAS D’ARTE 



de Raudnitz foi executada pela primeira vez em 
1804. Vienna de Áustria orgulha-se de ser a pri- 
meira cidade do mundo em que se executou pu- 
blicamente, a 7 de abril de 1865, esta das maiores 
obras de Beethoven que depois correu os mais 
cultos centros de arte, não sem ouvir apreciações 
que mais revestiram o caracter de impropérios. 

Dois accordes iniciam esta symphonia, seguin- 
do-se a exposição do primeiro thema do allegro, 
sereno, não deixando adivinhar a grandeza das 
paginas que depois decorrem: 




O segundo motivo, precedido de um crescendo 
magnifico, não faz presentir a heroicidade, tão 
subjectivo, tão intimo é: 




E os compassos succedem-se sem grandes 
contrastes exprimindo com uma simplicidade ge- 




A «HEROICA* DE BEETHOVEN 



185 



nial phrases essencialmente de musica pura, alheias 
a qualquer interpretação programmatica: 




Outros compassos, porém, teem uma grandeza 
sombria : 




e só n’estes é que um vulto guerreiro se ergue 
victorioso, dominador, coroado de louros: 




Ouvem-se phrases como esta, tão sentida, tão 
maguada: 






186 



CHRONICAS D’ARTE 



E a feição beethoviana, inconfundível, emana 
d’este motivo que o oboé desenha: 




Os violinos fazem um tremolo que Lenz cha- 
mou o Sorriso da Chimera 




E as ultimas paginas do allegro evocam a 
lenda do heroe, irmão de Alexandre, de Cesar e 
de Annibal, que até alli não conhecera a der- 
rota. 

A Marcha Fúnebre vem entenebrecer, extin- 
guir a alegria triumphadora, toldando de negro a 
gloria. 

O Waterloo! je pleure et je marrête hélas! 

Car ces derniers soldats de la dernière guerre, 

Furent grands; ils avaient vaincu toute la terre, 
Chassé vingt rois ; passé les Alpes et le Rhin, 

Et leur âme chantait dans les clairons d’airain ! 




A «HEROICA* DE BEETHOVEN 



187 



Este tristíssimo adagio enlucta o triumpho. 
Beethoven na Sonata XII , op. 26, também a se- 
guir ao trio , escreve uma grandiosa marcha fúne- 
bre sobre a morte de um heroe, mas a da sym- 
phonia é para mim mais enigmática, visto que o 
andante com as cinco variações da Sonata citada 
nada discorda em melancholia do maestoso da 
marcha. 

Ouçam estes compassos da heroica : 



E um canto repassado de soturnidade, como 
que echoando das profundezas de uma catacumba 
extensa, povoada de tumulos de guerreiros, ou- 
ve-se religiosamente : 





A marcha transforma-se num trecho essencial 



188 



CHRONIGAS D’ARTE 



mente lyrico a contrastar com a sombria sublimi- 
dade que o precedeu. 




Mais tarde, Chopin deu também este contraste, 
parecendo seguil-o como modelo de inspiração 
na sua Marcha Fúnebre inserta na Sonata em si 
bemol menor: 




A tragédia do heroe continua 




A «HEKOICA» DE BEETHOVEN 



189 



e de novo os primeiros sons da marcha reappa- 
recem. 

Beethoven escreveu poucos compassos depois 
um thema de fuga classicamente desenvolvido e 
que interrompe o rythmo solemne do cortejo que 
parece desfilar ante os nossos olhos: 




E extingue-se com o ultimo accorde esta apo- 
theose negra e macabra . . . 

O allegro vivace do scherzo notabilisa-se pela 
leveza graciosa, pelo humor subtilíssimo d’estas 
notas em staccato : 




destes compassos que os oboés modulam : 



190 



CHRONICAS D’ARTE 



Succede a magnificência da hossana ao 
heroe 



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Uiâi • 

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— i 






t 


* 


T * 1 1 



O Trio é que de maneira nenhuma pode ser 
excluído da ideia inspiradora da symphonia. A 
phrase das trompas com que abre é magnifica, 
como um echo distante de batalhas lendarias : 



■rtuo. 




O final, allegro molto , é exuberante em passa- 
gens interessantíssimas. Beethoven imprime-lhes o 
seu estylo, a sua feição: 




Estes lembram a maneira ingênua de Haydn e 
Mozart: 




A «HEROICA» DE BEETHOVEN 



191 



E por fim a orchestra faz-se sentir numa en- 
toação superhumana, de evocação suggestiva, 
tão deslumbrante é de som e de brilho. 

A Marcha fúnebre dignifica Napoleão, e ou- 
vil-a é evocar-se o seu tumulo de granito vermelho 
rodeado dos tropheus que a heroicidade prendeu 
para sempre na crypta dos Inválidos , guardada 
no portico para dois gigantes modelados com o 
bronze dos canhões. 



Dez. 914. 



•v 



UM LIVRO 



Desventura ou delirio ?. . . O que procuro, 
Se me foge, é miragem enganosa, 

Se me espera, peor, espectro impuro. . . 

Assim a vida passa vagarosa : 

O presente, a aspirar sempre ao futuro, 

O futuro, uma sombra mentirosa. 

Anthero de Quental. 



D e Coimbra chegou ha dias uma devota lem- 
brança de amigo, e o que ella foi vae o meu 
sentimento dizel-o com a gratidão das coisas indele- 
veis: Garcia Pulido enviou-me o seu livro publicado 
agora. Olhei a capa onde um titulo christão assen- 
tava sem qualquer aspecto de melancholia a en- 
volver as palavras de dor. Julguei ir lêr paginas 
traçadas por uma alma que olhava a fé de Christo 
como redempção suprema, ultima e maior espe- 
rança ; mas os primeiros versos que seguem a 
dedicatória crepusculisaram as ultimas palavras do 
poema de amor onde a sua uncção apaixonada 
c antava « a graça fulva de uns cabellos d’oiro », 



CHRONICAS D’ARTE 



194 

inspiração nascida em interiorisado culto por uma 
mulher mytho semelhante á Bella Melusina que a 
magia do artista Bayes divulgou. 

Dos tempos de estudante, que não vão ainda 
longe, conheci Garcia Pulido, e logo do primeiro 
encontro nos Gemes da Universidade ficamos liga- 
dos por communicativa camaradagem, d’essas que 
não esquecem pela vida fóra. Eu e outros tratava- 
mos da fundação de uma grande revista litteraria 
e philosophica, a Diònysos, onde a geração coim- 
brã deixasse a documentação da sua actividade 
mental. Garcia Pulido approvou com enthusiasmo 
a nossa ideia. O primeiro numero trouxe collabo- 
ração sua onde precocemente se revelou com umas 
notas bem inéditas sobre Fialho. Esta revista foi 
o ephemero esforço de companheiros que mais 
tarde dispersaram abandonando-a. 

Ainda tentei mantel-a, eu sósinho, mas renun- 
ciei — tinha sido um sonho, uma ambição d’essas 
que só alli nascem ! Deixei Coimbra e os amigos 
dos mais despreoccupados dias, e só mais tarde, 
em Lisboa, tornei a encontrar Garcia Pulido. 
D’esta vez o seu temperamento mostrara-se-me 
um tanto modificado, abandonando themas já por 
mim conhecidos para se dedicar a outros onde a 
alma mais profundamente se reflectisse ; e n’essa 
hora descreveu um conto, todo elle mysterioso, que 
traduzia a sua alma em lucta com o acaso. A prosa 
humorista que em Coimbra lhe conhecera ia sendo 
substituida por outra de maior significação artística 



UM LIVRO 



195 



e mais affastada da polemica violenta e sarcastica 
a que se votara. Não supporia nunca conhecer 
versos seus, e eis que n’este momento elle se ma- 
nifesta poeta, traduzindo com a maior verdade a 
tragédia sombria do espirito perseguido pela du- 
vida angustiosa e desesperadora. 

Garcia Pulido poz estas palavras como portico 
do livro — Nos braços da Cruz — , e mal se lêem as 
paginas do principio, logo a melancholia começa a 
perturbar-nos a visão feliz da existência. A «Lita- 
nia do Crepúsculo» escreve-a como uma prece á 
tristeza, recordando nos versos seguintes, em ma- 
guada saudade, os mortos queridos, a figura ve- 
neranda de seu pae desapparecida já, esvahida no 
passado: 

«Ias dormir» disseste, olhando Aquella 
Cuja alegria adormeceu também, 

E a nossa casa n’uma paz que gela 
Não mais sorriu alegre pra ninguém . . . 

A imagem santa da mãe do poeta passa na 
«Ronda de Phantasmas»— ficou esse echo cari- 
nhoso: 



Ai se tu visses os cabellos d’ella, 

Do oiro antigo já só prata tem . . . 

Brancos, branquinhos como a luz da estrella 
Que a luz perdeu a alumiar alguém! 



A «Alma do Descampado» é a sua própria 
alma. A paizagem denuncia o espirito atormentado, 



196 



CHRONICAS D’ARTE 



pelo tom sinistro e aigido da solidão onde o mys- 
terio da planura banhada pelo luar faz tecer a 
evocação do tempo da moirama. 

O poeta vive no contraste da alegria dos ou- 
tros, e as quadras da « Romaria > significam este 
mesmo contraste que os «Rythmos da Saudade» 
augmentam com a sua dolência amargosa: 



Ouvi uma voz cantando 
Em certa noite de luar, 

Uma quadra onde eu mettera 
Meu coração a chorar. 



E eu chorei, ao vêr que a voz 
Ia cantando, esquecida, 

Com alegria, quem sabe? 

As magoas da minha vida ! . . . 



O «Mysterio da Planície» desenróla-se expri- 
mindo mais uma vez o soturno horizonte que 
seus olhos vêem na peregrinação pelo proprio 
eu. Ouve-se o preludio da « Morte» em lanci- 
nantes accordes, soando sempre o mesmo motivo 
plangente e macabro. 

A « Maria » confessa o poeta que a dôr lhe 
envelheceu o rir que tinha, ficando, apesar do 
amor, o perdurável supplicio : 



Não julgues que morreu o meu tormento, 
E o teu canto que o não deixa ouvir. 



UM LIVRO 



197 



O poeta vae vivendo 



sempre a recear 

A dôr dobrada que ha de vir depois. 

E lugubremente escreve as « Ossadas » e a 
« Vertigem do Nada » que a sua amizade me de- 
dicou: 



Na vertigem do nada allucinado 
Meus nervos fervem vendo a escuridão 
E á beira d’ella fico acobardado . ^ . 

Encerra o livro o «Poema Nevrótico» e n’estes 
derradeiros versos define a imaginação dolorosa 
que lucta por exprimir o segredo envolvente, cada 
vez mais indecifrável, inexprimivel no sentido 
ultimo : 



Muitos passam na nossa vida, a esmo 
Somos outro momento para momento . . . 
Sopra e não sopra sempre o mesmo vento, 
Somos uns outros na illusão do mesmo. 

O incolor não existe, apenas é 
A falta da palavra que o define. 

No incolor eu penso, e nem eu sei porquê 
Procuro a côr que essa não — côr exprime... 



O olhar fica parado sobre as ultimas palavras 
desoladoras sempre até ao rythmo final, e a recor- 



198 



CHRONIGAS D’ARTE 



dação d’um monumento á morte passa-nos pelo 
espirito opprimido de desalento . . . 

A memória revive o denegrido hypogeu de 
Bartholomé, no Pére Lachaise, onde as creaturas 
que pisam o seu maldito limbo passam, sem uma 
crença na outra vida, desesperadas de soffrimento... 

Nos braços da cruz pronunciou Christo, perto 
da hora nona, a phrase que João Evangelista es- 
creveu e ficou eternamente gravada : 

« Meu Deus, meu Deus, porque me desampa- 
raste? » Pela primeira vez a duvida se ergueu ao 
Martyr, filho de Deus! 



Porto, dezembro — 914. 



JOÃO AUGUSTO RIBEIRO 



« que nós outros, os portugue- 
zes, inda que alguns naçamos 
de gentis engenhos e spritos, 
como nascem muitos, todavia 
temos por desprezo e galantaria 
fazer pouca conta das artes ; e 
quasi nos enjuriamos de saber 
muito d’ellas, onde sempre as 
deixamos emperfeitas a sem 
acabar. » 

Da Pintura Antigua— Primeiro Dialogo. 

Francisco de Hollanda. 



A arte portugueza está ainda longe de possuir 
uma obra de conjuncto que a caracterise 
n’um honesto e profundo estudo critico, e d’ahi 
o viver-se no desconhecimento quasi integral das 
manifestações espirituaes que formam a essencia 
mais intima da alma nacional. Só se apontam tra- 
balhos dispersos, monographias sob todo o ponto 
de vista valiosas, mas nenhuma historia ampla que 
revele as tendências estheticas do povo e dos seus 
artistas, de maneira a originar no intimo de cada 
um o conceito elevado da própria raça. Só ha 



200 



CHRONICAS D’ARTE 



poucos annos se começou a accionar n’este sen- 
tido e com raríssimos iniciadores, porque a maio- 
ria abandonava o desinteressado estudo de inves- 
tigação, longe de merecer compensações moraes 
da parte do publico anódymo na sua pobreza 
educativa. Individualmente aqui e alli apparecia 
alguém que se votava ás descobertas de soterra- 
das relíquias, para sobre ellas dissertar estabele- 
cendo conclusões e hypotheses tendentes a formar 
lentamente a contextura ethnica e anthropologica 
do povo. O tempo tem decorrido e até agora nada 
se publicou de vasto e importante relativo ao 
assumpto. Sobre a nossa arte antiga pouco ha, e 
diga-se de passagem que o pouco que ha é va- 
lioso apenas no que se refere a determinados de- 
talhes: da moderna e da contemporânea pode 
affirmar-se que está quasi tudo por fazer. De ma- 
neira nenhuma pretendemos menosprezar os nos- 
sos archeologos e historiadores de arte, no numero 
dos quaes se apontam nomes de excepcional mé- 
rito ; todavia, estes são certamente os primeiros a 
confessar que estamos longe de possuir uma his- 
toria de arte digna de tal titulo. É desanimadora 
esta falta perante as outras nações com esplendi- 
das obras publicadas, contendo o inventario minu- 
cioso dos thesouros que lhes pertencem ou con- 
quistaram, e, além d’isso, o estudo das correntes e 
escolas que determinaram a existência de certos 
caracteres em determinadas producções. E qual a 
acção do Estado ! Só agora, parece, começa a 




F. GOMES TEIXEIRA 



De João Augusto Ribeiro 





M. R. 



De João Augusto Ribeiro 




JOÃO AUGUSTO RIBEIRO 201 



esboçar um pequeno desvelo pelo que tanto e 
tanto esqueceu, tendo ainda muitas e muitas lacu- 
nas a preencher, pois de contrario continuaria a 
merecer a mais severa critica pela sua ignorante 
attitude. As nossas escolas de bellas-artes, princi- 
palmente a d’aqui do Porto, são um magnifico 
motivo de ironia para aquelles que as visitam : 
edificios nada apropriados, sem luz, sem condições 
nenhumas para o fim em que foram transformados; 
dotações exiguas e mesquinhas; professorado ver- 
gonhosamente recompensado, em summa, uma 
serie de faltas que annulla toda ou qualquer acti- 
vidade esthetica. O ambiente é, pois, absolutamente 
ingrato para o florescimento da arte nacional, onde 
o mais elevado incentivo se perde para sempre 
no indifferentismo refractario da maioria. 

Folheava ha dias um dos livros da collecção 
Ars Una, referente a Hespanha e Portugal, e que 
desgosto senti ao vêr o contraste das duas nações 
pela sua Tiistoria de arte! Trezentas e vinte pagi- 
nas consagradas á primeira nação, e cincoenta e 
seis paginas apenas reservadas para a segunda. 
E o auctor, Marcei Dieulafoy, ao terminar o capi- 
tulo sobre a arte hespanhola no século XIX, cen- 
sura os historiadores pelo abandono a que votaram 
o estudo das «artes lusitanas», accrescentando : 
«II importait au plus haut point de combler une 
lacune aussi regrettable. Je nTy suis efforcé.» 
A desproporcionalidade é enorme e esta só se 
pode attribuir realmente á falta de publicações 



202 



CHRONICAS D’ARTE 



sufficientemente elucidativas, porque as que exis- 
tem são incompletissimas, referindo-me em espe- 
cial aos artistas modernos ignorados pelos proprios 
portuguezes. As monographias dedicadas á nossa 
arte moderna omittem nomes de valor incontestá- 
vel, o que lhes dá um merecimento bastante rela- 
tivo, dado o seu caracter incompleto. Ao numero 
dos artistas que n’ellas tem sido esquecidos per- 
tence João Augusto Ribeiro, um mestre na plena 
accepção da palavra. Devemos considerá-lo um cul- 
tor profundo e devotado da pintura moderna, pois 
a sua obra reflecte-se de uma realisação technica a 
que poderemos chamar erudita, tal a superioridade 
do seu processo plástico. O rápido estudo que neste 
momento lhe dedicamos não deve ser considerado 
uma lisonja ao seu talento de authentico artista. 
Para o apreciarmos devidamente torna-se necessá- 
rio conhecer um a um os quadros que formam já 
a documentação do seu temperamento raro; e 
depois teremos a noção nitida e justa da admira- 
ção a que tem direito. 

João Augusto Ribeiro é essencialmente um 
pintor de retratos, não deixando, porem, de culti- 
var a paizagem com menos elevação. 

Para a sua alma de artista o mundo tem um 
amplo sentido : os aspectos que o olhar descobre 
são immensos, e a belleza que os envolve é sem- 
pre um thema novo e inédito: «Não ha êrmo na 
natureza. Tudo nos fala.» «A observação da rea- 
lidade desperta a imaginação e no seio desta 



JOÃO AUGUSTO RIBEIRO 



203 



nasce a obra de arte.» João Augusto Ribeiro 
desde novo procurava a concentração de si mesmo, 
communicando com a existência para o presenti- 
mento do mysterio insondável. O seu sentido 
esthetico parte directamente da vida, do real, e 
assim a sua obra é a expressão de uma arte abso- 
lutamente desintegrada de conceitos metaphysicos, 
affastados da própria vida. Sente o mysterio que a 
envolve mas não o procura exprimir, pelo menos 
nas obras que até hoje tem produzido. João Au- 
gusto Ribeiro vive affastado de influencias de 
escolas, não porque as considere inferiores, mas 
por independencia de princípios. Na apreciação 
dos vários auctores não é um exclusivista, admit- 
tindo tudo que possa contribuir para o progresso 
das artes plasticas. Quando da sua visita a Paris 
em 1907, no Salão dos Independentes, um artista 
que o acompanhava mostrou-lhe a repugnância 
pelos modernos pintores e, comtudo, João Augusto 
Ribeiro, ouvindo-o, veiu de lá impressionado com 
certos quadros onde para elle se salientavam apre- 
ciáveis meios de expressão totalmente novos. Este 
acolhimento mostra bem a sua prudência em não ne- 
gar aos artistas proselytos de innovações revolucio- 
narias qualidades que podem imprimir á evolução 
esthetica um impulso para desconhecidas concep- 
ções. João Augusto Ribeiro apezar de ter o culto 
do passado, de defender o tradicionalismo como 
fonte de esplendidos motivos e de olhar insisten- 
temente as paginas mais emocionantes da historia 



CHRONICAS D’ARTE 



204 



para sobre ellas traçar grandes quadros evocativos, 
nunca foi pelo estacionamento das formulas, dis- 
cordando sempre da immutabilidade ditada pelo 
canon acadêmico, falho de genio, imitativo, cheio 
de artifícios e de convenções impostas. 

João Augusto Ribeiro é para mim o artista de 
uma execução plastica perfeitamente alhada a um 
temperamento emocionavel para os grandes moti- 
vos da vida. Estas qualidades raras traduzem-se 
nos pessoalissimos quadros que expõe, quadros 
em que não ha fulgências de côr a animar moti- 
vos truculentos, mais propriamente decorativos. 
É um pintor para quem as colorações sóbrias 
constituem predilecção. Áparte a paizagem onde 
elle realisa o problema dos contrastes, as grada- 
ções de luz e o tom local, a indole geral da obra 
encontra-se longe da existência cheia de mobili- 
dade e de scenarios onde a luz limpida e alegre 
scintille em rutilancias chromaticas. 

Ainda ha bem pouco tempo elle me falou no 
projecto de um grande quadro historico em que o 
thema era tratado da forma mais sombria : as figu- 
ras dos cavalleiros diluir-se-hiam em penumbras; 
o rosto da rainha presentiria o lucto de um des- 
apparecimento em captiveiro ; sob a abobada ogi- 
val o agouro empaliideceria os rostos corajosos 
que partiam na abalada heroica em busca de re- 
giões distantes e fabulosas. Será um quadro pes- 
simista enluctado de maldição e de sinistros presen- 
timentos. 



JOÃO AUGUSTO RIBEIRO 



205 



Os retratos assignados por João Augusto Ri- 
beiro teem uma feição inconfundível, caracterisan- 
do-se sempre pela pintura assente no mais solido 
desenho e na mais justa relação de valores. O 
retrato do grande mathematico Dr. Gomes Tei- 
xeira constitue um dos seus grandes trabalhos de 
profunda e meticulosa analyse: nelle vive a phy- 
sionomia lúcida e perscrutadora do sabio profes- 
sor, um dos vultos mais notáveis da sciencia por- 
tugueza e reconhecidamente a maior cerebração 
mathematica da Península Ibérica. O esculptor 
Teixeira Lopes, que modelou o mesmo motivo, 
encarou Gomes Teixeira pela sua alegria espiritual 
imprimindo-lhe no olhar a superioridade dos que 
vêem o mundo com a felicidade de conhecer o 
proprio triumpho. São duas interpretações diver- 
sas de idêntico thema. 

João Augusto Ribeiro tem ao lado d’esta obra 
outra que não menos assegura o seu valor, e pena 
tenho eu de a não poder reproduzir : é um retrato 
de mulher, requintada, nobre e expressivo typo 
do povo a que pertence, orgulhosa da belíeza que 
o seu perfil patrício ostenta. 

Nas duas ultimas exposições da Sodedade de 
Bellas Artes do Porto , João Augusto Ribeiro, entre 
outros trabalhos, expôs O Operário. Quanto pezar 
tivemos de o ver confundido, assim como outros 
artistas, no meio de dúbias manifestações ousada- 
mente expostas, mas desassombradamente criticadas 
por aquelles que teem da arte a sua precisa noção. 



206 



CHRONICAS D’ARTE 



Este quadro Operário veiu completar a série 
das obras de maior vulto d’este auctor: pertence 
ao grupo das composições plasticas que após a 
Revolução Franceza começaram a apparecer para 
dignificação do trabalho e da gente humilde. João 
Augusto Ribeiro não procura n’esta tela qualquer 
traducção psychica mais profunda, mas quasi ape- 
nas a pintura que revelasse um objectivo predo- 
minantemente plástico. 

A Alma Selvagem , jà constitue, relativamente 
ao Operário , uma tela de interpretação mais vivida: 
trata-se de uma feição revoltada, com estigmas 
de perversidade. Os quadros que acompanham 
este meu pequeno estudo revelam o pintor illus- 
tre, acarinhando themas dilectissimos onde a sua 
alma acendradamente se expande. A tonalidade é 
feita de côres esparsas, resumbradas de tenuíssima 
luz. 

A obra por elle realisada até hoje é digna de 
figurar, pela maioria das suas manifestações, na 
historia das arte moderna portugueza. As suas 
ideações apresentam um caracter inconfundível, 
de vincada e forte originalidade. 

O auctor do Operário é pela cultura elevada o 
verdadeiro professor — estheta: disserta largamente 
sobre todos e os mais difficeis problemas d’arte, 
argumentando com singular relêvo, defendendo 
ou atacando cultas orientações com illustre supe- 
rioridade e sem pruridos nem invejas de seita. 

A obra de João Augusto Ribeiro encontra-se 
























JOÃO AUGUSTO RIBEIRO 207 

— — 

dispersa pelos Museus e collecções particulares, e 
difficil será hoje agrupal-a toda n’uma exposição. 
D’esta forma seria mais facil escrever um estudo 
definitivo que revelasse a notável personalidade do 
artista e do mestre. 



ÍNDICE 



Pag. 

O Orpheon Acadêmico de Coimbra 7 

A proposito da «Grande Saison» em Paris .... 15 

Um quadro de Leonardo de Vinci 21 

A proposito do Theatro da Natureza 27 

Sobre o Theatro hellenico 31 

A Nova peça de d’Annunzio 37 

Um Crtharedo 47 

A alma das pedras 53 

Ibserr e Grieg 57 

Maquel Laranjeira 79 

O Orpheon Acadêmico do Porto 85 

A proposito das danças gregas de Napierkowska . . 91 

O Pragmatismo 97 

A proposito das « Canções Portuguezas » de Ernesto 

Maia 105 

A Opera ^ymphonica 115 

Notas bibliographicas 125 

O Mytho trágico 131 

Arte romanica 143 

A quinta symphonia de Beethoven 151 

A acção educativa da Renascença Portugueza * . . 161 

Sobro o « Freischütz » de Weber. ....... 167 

A proposito de duas obras de arte 173 

A « Heroica » de Beethoven 181 

Um ljvro 193 

João Augusto Ribeiro 199 



NOTA 



Estas paginas dispersas sobre Arte insertas em varias 
revistas e jornaes, principalmente no Primeiro de Janeiro, 
onde tiveram sempre logar d’honra, foram agora publicadas 
sómente pelo seu interesse divulgador. São artigos rápidos, 
que visam de uma maneira muito synthetica certos pontos 
interessantes da historia d’arte e da esthetica contemporânea. 

ERRATAS 

Muitas erratas passaram mas a intelligencia do leitor as 
corrigirá decerto. Indicarei, porem, algumas mais importantes : 



Pag. 


Linha 


Onde se lê 


Leia-se 


16 


4 


fazendo realçar 


realçando 


16 


29 


Kubelik 


Kubelick 


16 


30 


dançantes 


dansantes 


23 


12 


pode-se considerar 


pode considerar-se 


37 


4 


idade 


edade 


50 


28 


misica 


musica 


58 


6 e 7 


Ibsen, perscruta 


Ibsen perscruta 


64 


14 


vêm perseguil-o 


perseguem-no 


112 


17 


Linda a cara 


Linda cara 


122 


26 


vêm-se 


vêem-se 


125 


16 


e é sua volta 


e é á sua volta 


127 


4 


em que os os 


em que os dois 


135 


15 


identificnção 


identificação 


140 


7 


nma 


uma 


147 


10 


isolomento 


isolamento 


149 


17 


frontalidade? 


frontalidade ! 


165 


26 


philosoho 


philosopho 


191 


8 


para dois 


por dois